Canclini e a cultura sob a lógica do mercado

Quando a arte passa a ser apenas mais um dos negócios, os quais incluem lojas, emissoras de televisão e até mesmo comércio de armas

Por Tiago Eloy Zaidan* | Imagens: imagens: Marcelo Camargo/Agência Brasil /Fotos públicas | Adaptação web Caroline Svitras

Imagine um museu dedicado à globalização. Supondo-se que ela esteja acabando. A julgar pelos museus dedicados à documentação de migrações e diásporas, a guarda e exposição de experiências ou conceitos relacionados ao “patrimônio” da globalização não soam tão surreais.

 

Ao ingressar no saguão principal, o visitante poderia deparar-se com “(…) um corpo vazio, representado um governo mundial que nunca chegou a existir” (Canclini, 2008, p. 71). Menções a experiências anteriores à globalização propriamente dita, a formas pré-globalizadas, como a expansão do catolicismo, seriam pertinentes. Numa das salas, em uma paráfrase à ativista Lora Jo Foo – autora do livro Asian American Women: issues, concerns, and responsive human and civil rights advocacy (2007) –, os visitantes seriam convidados a recortar as etiquetas de seus vestuários para, costurando-as numa espécie de colcha de retalhos, compor uma mostra de logos oriundas, enquanto signos, de países centrais. A efetiva fabricação das peças e os suores envolvidos, todavia, remetem a países “periféricos”.

 

Acidentes podem ser dotados de fins prévios? Muitas das guerras podem e o são. Ocorrem embaladas com o fim de se obter lucro.

 

Seguindo esse raciocínio, e inspirado no filósofo e teórico cultural francês Paul Virilio, o museu traria também uma seção de acidentes: uma miríade de catástrofes carreadas por “delírios bélicos”. Nesta seção residiria quiçá o maior desafio à curadoria. “(…) como evitar a excepcionalidade, insinuada pela noção de acidentes, dado que na grande maioria dos casos estes são (…) parte constitutiva do capitalismo globalizador?” (Canclini, 2008, p. 74). Tanto quanto os vírus não são acidentes fortuitos da informática, antes compondo parte da economia do setor, através da venda de antivírus, o recurso às guerras “(…) torna evidente o fracasso da política e da economia”, pois, se o prélio é declarado “(…) sem provas, contra qualquer um, em qualquer lugar, exibe-se o desespero daqueles que não encontram outro modo de nos distrair de suas armadilhas econômicas, de seus desfalques políticos ou do descalabro social de um país” (Canclini, 2008, p. 74).

 

Esse é um dos exercícios de criatividade e reflexão provocativa engendrados pelo filósofo argentino Néstor García Canclini (1939), em seu Leitores, espectadores e internautas. Trata-se de um opúsculo (possui menos de 100 páginas em sua edição brasileira) prodígio em questões como comunicação – incluindo as novas mídias –, cultura, consumo e as interfaces entre si, dentre outros temas, dispostos em ordem alfabética, como em um dicionário enciclopédico de questões pós-modernas, com uma atenção destacada a dados e cases da América Latina.

 

As análises do autor perpassam até mesmo os formatos convencionais das campanhas de incentivo à leitura, que estariam pecando por centrarem-se somente nos livros e pelo fato de as bibliotecas contarem apenas com impressos em papel, quando os textos podem estar também em telas.

 

A estrutura do livro, propositadamente ou não, desobriga o leitor a seguir uma ordem de leitura. Neste ponto, coaduna-se com a prática pós-moderna da não linearidade. Embora curtos, os ensaios que compõem a obra não prescindem de uma miríade de menções a outros autores e seus trabalhos, incluindo ficções, e conceitos, como se, de certa forma, o filósofo argentino pretendesse dotar as laudas das características de um hipertexto. Leitores, espectadores e internautas seria assim, de certo modo, uma amostra per si de produto inserido em um contexto de hábitos inovadores em relação às práticas culturais.

 

Mercado e práticas culturais

Canclini cita, por exemplo, o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) ao mencionar o conceito de autonomia dos campos culturais. Trata-se de uma expressão que dava conta do quanto os artistas, as artes e a literatura eram regidas por leis específicas, as quais lhes garantiam uma certa independência perante o arcabouço global da sociedade. A legitimidade cultural seria o norte, e os agentes “lincados” à confecção e circulação das obras estabeleceriam o sistema de relações.

 

A aplicabilidade de tal conceito, entretanto, tornou-se questionável. O próprio Bourdieu teria reconhecido isso, em um de seus últimos textos em vida, quando comentou o crescimento dos editores com visões eminentemente comerciais – preocupados com o lucro – em detrimento dos editores aos quais chamava de “heroicos”.

 

Não é difícil questionar tal autonomia em um ambiente cultural tomado – ou seria engolido? – por grandes conglomerados integrados não apenas a outros meios de comunicação, nas mais diversas plataformas, como também a outros segmentos de mercado. Editoras importantes e tradicionais, por exemplo, passaram a ser um capítulo de grupos para os quais as artes devem sujeitariam-se a critérios de proveitos comerciais; leia-se: taxas de lucro. Somente as tiragens altas interessam, ainda que isso conduza ao “populismo literário”, nas palavras de Bourdieu.

 

Apropriação cultural e consumo

 

A arte, a literatura passaram a ser apenas mais um dos negócios, os quais incluem lojas, emissoras de televisão e até mesmo comércio de armas. Se antes notavam-se agentes relacionados à confecção e circulação das obras, ou seja, críticos, museus, teatros etc., agora, citando o editor socialista franco-americano André Schiffrin (1935–2013), assiste-se a um crescimento da influência de organizações “alheias à cultura” que já não se mantêm apenas como “eventuais anunciantes” (Canclini, 2008, p. 32). Vide o caso do megalomaníaco conglomerado britânico Virgin.

 

O autor argentino menciona, além de casos de incorporações ocorridas na Europa, a emblemática fusão das norte-americanas Time com a poderosa dos audiovisuais Warner, que redundou na Time-Warner. A Warner, bem lembra Canclini, é considerada uma das quatro gigantes do comércio global de música, ao lado da Sony, Universal e EMI. A Sony, aliás, é um exemplo marcante de conglomerado quebrantador da mencionada autonomia dos campos culturais, ao abranger sob sua logo negócios que vão de emissora de televisão a indústria de eletroeletrônicos.

 

Essas gigantes não dispensam a oportunidade de adquirir catálogos de outras gravadoras, “(…) a fim de converter as culturas locais em fornecedoras para negócios globais. Não lhes interessa editar músicos que não transcendam sua região ou país (…)”, ou que, segundo julgamento prévio, “são incapazes de transcendê-los” (Canclini, 2008, p. 62).

 

Revista Sociologia Ed. 63

Adaptado do texto “Canclini e a cultura sob a lógica do mercado”

*Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco, coautor do livro Mídia, movimentos sociais e direitos humanos (Organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013) e professor do curso de Comunicação Social na Escola Superior de Marketing (ESM – FAMA / Recife, PE) e na Faculdade Joaquim Nabuco (Recife, PE).