A agenda da nova esquerda

As esquerdas perderam a exclusividade das ruas como seu palco privilegiado das lutas políticas e, pouco a pouco, vêm perdendo a capacidade de interlocução com o povo

Por Yago Junho* | Foto: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

 

É chover no molhado dizer que com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética a ideia de uma transformação radical da estrutura econômica e política de uma sociedade através de uma revolução saiu de moda. A totalidade cedeu espaço para a fragmentação e o foco principal do pensamento de esquerda se voltou para a cultura como campo privilegiado de sua reflexão. O pós-modernismo que desde o final dos anos de 1960 fez a cabeça de artistas arrombou as portas da política. Da luta de classes passou-se para temas como: gênero, feminismo, aborto e ambientalismo, para ficar em alguns. Longe de mim achar que essas discussões não têm importância, entretanto é forçoso reconhecer que a centralidade desses assuntos reforça a fragmentação da política.

 

Antônio Gramsci, introduziu uma modificação teórica na concepção do modo de produção capitalista – a articulação entre infra e superestrutura – em relação ao que tinha teorizado Karl Marx. Para Marx, a infraestrutura era o local das relações econômicas de uma sociedade e a superestrutura o espaço da disseminação de ideias, valores e crenças. Para Gramsci, a disputa pela hegemonia política, econômica e ideológica se dava nos aparelhos privados de hegemonia: escolas, sindicatos, igrejas, rádio, TV etc. E esses aparelhos privados de hegemonia fazem parte junto com as fábricas da infraestrutura da sociedade.

 

Na visão gramsciana não adianta conquistar o Estado sem que se conquiste antes a hegemonia na sociedade. Daí a importância da educação para o pensador italiano. A educação tinha que dar condições para que qualquer pessoa pudesse discutir política com profundidade. Quando as ideias socialistas fossem hegemônicas, aí sim a tomada de poder pelo proletariado seria não só possível como permanente. Toda luta política é, no fundo, uma luta cultural. A chamada, vá lá, nova esquerda, é tributária dessa reflexão.

 

 

Na visão do italiano Antonio Gramsci, não adianta conquistar o Estado sem que se conquiste antes a hegemonia na sociedade. A chamada “nova esquerda” é tributária dessa reflexão

 

 

Com a permanência do Partido dos Trabalhadores por 14 anos no poder as pautas dos movimentos sociais de mulheres, LGBT, dos negros, foram incluídas na agenda política. A oposição, principalmente de direita, ao governo passou a criticar não só a condução econômica do governo do PT, mas também, aproveitando-se do conservadorismo da sociedade brasileira, as reivindicações dos movimentos sociais citados. Não é de estranhar que a correlação de forças no Parlamento brasileiro inviabilize qualquer política entendida como avanço na luta pela ampliação de direitos.

 

É inegável que vivemos um princípio de hegemonia do pensamento reacionário no Brasil. Não é à toa que os intelectuais orgânicos da direita elegeram Gramsci como o inimigo principal. A partir da discussão sobre a cartilha contra a homofobia nas escolas, que foi apelidada de “kit gay”, aumentou a gritaria a favor do movimento Escola sem Partido. As esquerdas perderam a exclusividade das ruas como seu palco privilegiado das lutas políticas e, para aumentar a tragédia, pouco a pouco vêm perdendo a capacidade de interlocução com o povo.

 

O problema é que existe uma homologia entre ideologia e linguagem. Como ser de esquerda utilizando uma linguagem de direita para se comunicar? A política brasileira é feita sob o enquadramento da telenovela. Se o estilo é o homem, somos forçados a reconhecer que nos transformamos em seres culturais horrorosos. A colonização cerca todos os quadrantes do nosso território físico e cultural. Por isso que a fragmentação da política faz com que uma boa parte da esquerda tenha se transformado numa espécie de clube da juventude da classe média que artificialmente quer ser alternativa, numa espécie de movimento hippie requentado e demodê moldado ironicamente pelos meios de comunicação que se pretende combater. Ongs e coletivos midiáticos fazem a cabeça de boa parte desses meninos e meninas e surgem no cenário brasileiro como as grandes contestadoras do modelo econômico brasileiro.

 

É impossível ser de esquerda sem lutar pela democratização dos meios de comunicação. Não dá para ser progressista e ao mesmo tempo assistir a programação da Rede Globo. Não haverá democracia no Brasil enquanto não houver a democratização do acesso à informação. Nos Estados Unidos, modelo ideal dos liberais, quem é dono de jornal não pode ter nem TV nem rádio. Existem TVs, jornais e rádios que são simpáticos aos democratas e outros que apoiam os republicanos. Existe direito de resposta lá. Quando uma TV atinge 15% de audiência já começa uma movimentação contra o monopólio de informação pelo canal televisivo. No Brasil, sete famílias controlam as informações; e só agora, depois da paulada que o PT levou na imprensa, parece que a esquerda acordou para esse fato.

 

A regulação da mídia e a sociedade da comunicação

 

O fazer a boa ação filantrópica para dormir com a consciência tranquila não está em nenhuma página de nenhum livro de Karl Marx. O imperialismo saiu do léxico dos partidos de esquerda porque sua agenda vem toda de fora. Quantas vezes o termo luta de classes apareceu nos discursos do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma? Mas a palavra pobre foi usada abundantemente. Pobre não é categoria sociológica. Daí o Programa Bolsa Família ter menos poder de persuasão do que o discurso da meritocracia. É mais fácil convencer a população de que pelo esforço, pelos seus próprios méritos é possível sair de condições sociais e econômicas desfavoráveis do que convencer de que o Estado tem que ajudar financeiramente os mais necessitados.

 

Depois do afastamento da presidenta Dilma o que temos visto é um ataque violentíssimo às conquistas sociais. Há o entendimento, de viés conservador e liberal, de que a Constituição Brasileira de 1988 deu muitos direitos à população sem cobrar os respectivos deveres. Partem da visão de que o indivíduo precede a sociedade, de modo que quanto menos Estado na vida do cidadão mais espaço haverá para o estímulo ao empreendedorismo. A iniciativa privada é a única forma de geração de emprego e renda e, sem ela, não haverá desenvolvimento social. O Estado de bem-estar social gera pessoas mimadas, sem iniciativa, e coloca nas costas de quem trabalha e paga impostos a responsabilidade de sustentar quem depende da caridade estatal.

 

Comemoração da nova Constituinte, anos 1980. Há o entendimento, de viés conservador e liberal, de que a Constituição Brasileira de 1988 deu muitos direitos à população sem cobrar os respectivos deveres

 

 

Chega de direitos, dizem. Está na hora do indivíduo assumir a responsabilidade pelos seus atos. A violência não é gerada pela desigualdade social, portanto a redução da maioridade penal é uma forma de coibir a violência juvenil. Os direitos trabalhistas diminuem o lucro, assim os empresários não têm como investir na ampliação da produção e isso impede a geração de mais empregos. A terceirização do trabalho ou a flexibilização da CLT são condições imprescindíveis para o crescimento econômico do país. Ou seja: os trabalhadores são os culpados pelo desemprego no Brasil. Da mesma forma que os aposentados passaram a ser um peso para as finanças públicas. Então: aumenta-se a idade da aposentadoria para 75 anos.

 

Soberania nacional é coisa de nacionalista que ficou parado nos anos de 1950. O Estado está deficitário. A solução: privatização dos recursos estratégicos da Nação. A Petrobras está na alça de mira dos liberais. Primeiro mexe-se no esquema de partilha do pré-sal, depois vende-se a Petrobras. E tudo volta ao normal: dependência do FMI e subserviência aos interesses norte-americanos no continente. O mesmo modelo. A mesma história. A mesma miséria da política brasileira.

 

Qual a resposta que a esquerda dá a essas políticas? O PT, temos que admitir, não alterou os famosos fundamentos da economia. Se lembrarmos que o mesmo Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central, temos os motivos do porquê da crítica envergonhada que o partido agora faz da condução econômica do governo Michel Temer. Quando um partido de esquerda teve a oportunidade de permanecer muitos anos na Presidência, o que fez foi fazer acordos com a direita, e, mais, adotar práticas da mesma direita. O fim da experiência socialista trouxe um vazio e uma desarticulação às esquerdas de todo mundo. Na verdade há uma aceitação (na maioria das vezes velada) de que o capitalismo triunfou e cabe-nos humanizá-lo.

 

 

O PT não alterou os famosos fundamentos da economia. Considerando-se que o mesmo Henrique Meirelles (ministro da Economia , à esq.) foi presidente do Banco Central, entende-se crítica envergonhada que o partido agora faz da condução econômica do governo Michel Temer (à direita) | Foto: José Cruz | Agência Brasil

 

A luta política fragmentada que perde a visão da totalidade da organização econômica, política, cultural e social da sociedade não nos fará combater a avalanche liberal que está caindo sobre nossas cabeças. As lutas de gênero, do feminismo, do ambientalismo etc. são fundamentais para a ampliação de direitos e para tornar a sociedade de fato inclusiva. O problema é ficar centrado nessas temáticas como as pautas principais e as únicas razões de ser dos partidos de esquerda. Vá, hoje em dia, em alguma reunião de algum agrupamento de esquerda. Há um clima de autopoliciamento da linguagem, pois qualquer coisa que se fala pode ser entendida como homofobia ou machismo.

 

Há uma compartimentalização dos assuntos políticos. Por exemplo, o feminismo é uma discussão exclusiva das mulheres, a questão do aborto também, afinal homens não podem ter filhos, portanto não têm a legitimidade para discutir o assunto. Na questão de gênero também fica restrito aos militantes LGBT, da mesma forma que o debate ambiental tem núcleos específicos que tratam do assunto. É a mesma coisa que acontece no processo educacional. A Sociologia não dialoga com a História, que não dialoga com a Filosofia que não dialoga com a Geografia que não dialoga com a Psicologia que não dialoga, que não dialoga, que não dialoga…

 

 

Mulheres protestam em SP contra projeto que trata de aborto. Na atual esquerda, há uma compartimentalização dos assuntos políticos. Por exemplo, o feminismo é uma discussão exclusiva das mulheres, a questão do aborto também, afinal homens não podem ter filhos, portanto não têm a legitimidade para discutir o assunto | Foto: Rovena Rosa/ Agência Brasil

 

 

O culto da especialização também baixou no meio dos partidos de esquerda. Alguém pode objetar que só um homossexual pode discutir sobre a homossexualidade, pois é ele que sofre o preconceito. Se for assim só um economista pode discutir sobre os rumos da economia do país. Ou só os professores podem discutir sobre os problemas educacionais do Brasil. Claro que quem se debruça sobre um tema pode ter mais conhecimento para discorrer, mas não tem o privilégio da discussão. A especialização das temáticas impede que haja uma articulação entre elas e não possibilita uma visão totalizante dessas questões que as ligue ao processo colonial e de exploração de nosso povo.

Precisamos falar sobre o imperialismo

O Brasil nunca existiu para si mesmo. Somos, como Darcy Ribeiro falou, um proletariado externo. Exportamos pau-brasil para tingir roupa da nobreza, exportamos café para adoçar a boca das elites estrangeiras e exportamos nossos recursos naturais para reforçar nossa dependência da tecnologia. Fomos um moinho de gastar gente. O fundamento da exploração do nosso povo está na exploração colonial. Não dá para sermos progressistas sem defender um Estado-Nação soberano. Um Estado onde se priorize o desenvolvimento nacional amparado em nossas forças produtivas e que as trocas internacionais fundamentais ao desenvolvimento interno sejam realizadas em termos de igualdade.

 

O dado colonial afeta a totalidade da vida brasileira e estrutura nossa sociedade para servir de complemento ao comércio internacional. Gunder Frank dizia que não interessa ao desenvolvido desenvolver o subdesenvolvido. Enquanto não levarmos a sério essa advertência e não lutarmos contra o imperialismo não sairemos do patamar civilizacional que nos encontramos. As atualizações históricas – ou seja, a cópia do modelo econômico dos países centrais – reforça nossa dívida externa como um instrumento de chantagem e prisão aos ditames dos bancos internacionais. Mas para isso é fundamental uma união latino-americana, sem a qual continuaremos uma ilha cercada por tubarões. Essa deveria ser a obsessão da esquerda, mas uma coisa que a esquerda parece incapaz de conseguir é a unidade para combatermos juntos o nosso inimigo comum. Enquanto isso, o pré-sal começa a ser vendido e continuamos fragmentados politicamente e engessados ideologicamente.

 

 

*Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor do livro Sociologia Pau Brasil pela Editora Multifoco. E-mail: yeuzebio@gmail.com

Adaptado do texto “Esquerda Pós-Moderna”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 66