A análise social de Max Weber

Max Weber, reconhecidamente um dos clássicos do pensamento sociológico, notabilizou-se na Sociologia pela construção de um método a partir do qual o entendimento da realidade social seria possível por meio da compreensão das ações dos indivíduos

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Foto: Wikipedia Commons | Adaptação web Caroline Svitras

Max Weber, economista e sociólogo alemão (1864-1920), autor de inúmeros estudos e ensaios, muitos dos quais publicados na revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozislpolitik (Arquivo de Ciência Social e Política Social), uma das mais importantes publicações de Ciências Sociais da Alemanha e de obras importantes como A Ética protestante e o espírito do capitalismo (1905); Economia e sociedade (1921); História econômica geral (1923); Teoria da organização econômica e social (1925), dentre outras, tornou-se conhecido pela teoria dos tipos ideais na análise, explicação e compreensão dos fenômenos sociais. Tencionou fundir o método tipológico e o histórico no que ele chamou “método compreensivo”. Reconhecido como um dos mais instigantes pensadores da questão social e política, Max Weber construiu um campo teórico denominado de análise compreensiva. Em Weber, é a conduta humana dotada de sentido, ou seja, a ação social, o objeto de investigação sociológica. Reconhecido pela teoria dos tipos ideais e pelo método compreensivo, Max Weber buscou conhecer as leis gerais, contrariamente a Marx com estabelecimento de leis gerais. Weber combina duas perspectivas, a Historiografia e a Sociologia para a compreensão das sociedades. Este artigo, enquanto uma breve síntese, está, naturalmente, muito distante das inúmeras contribuições de Weber para o pensamento sociológico e político. Alguns aspectos, sempre oportunos, são destacados dentre as quais situamos princípios, método, seu campo de ação, conceitos e divergências.

 

Weber buscou conhecer a individualidade histórica, não o determinismo nem a inevitabilidade histórica. Seu objeto de investigação é a ação social, a conduta humana dotada de sentido. Weber define ação como a conduta humana. Portanto, o objeto de investigação em Weber é a ação social. E a tarefa das Ciências Sociais é captar as ações sociais, o que resulta em uma compreensão sociológica de interpretação e explicação dos fenômenos. E explicar para Weber consiste em estabelecer os sentidos da ação social a um conjunto de outras ações. E Weber na sua tipologia da ação social estabelece enquanto tipos de ação social a racional com relação a valores; a racional com relação a fins; a afetiva e a tradicional. Vale lembrar que ação social é diferente de relação social, pois nesta o sentido precisa ser compartilhado.

 

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Segundo Weber, o cientista social deve captar o sentido da ação social a partir de um instrumento de análise que chamou de tipo ideal. Tipo ideal é um instrumento metodológico para a análise de acontecimentos ou situações históricas concretas. A rigor, não encontramos na realidade os chamados tipos ideais. O tipo ideal é em si um conceito e reconstrução mental.

 

Do objeto à investigação, Weber desenvolve todo um procedimento metodológico que exige do cientista social procedimento de modo racional. Para Weber os fenômenos sociais são mentais, históricos, temporais, e cabe como tarefa da Sociologia captar o sentido das ações dos homens, posto que todas as ações dos homens são sociais. Não podemos estudar fenômenos sociais com a mesma metodologia das ciências naturais. Se possuem objetos diferentes, portanto deverão ter um método diferente.

 

Segundo Max Weber, um fenômeno é importante na medida em que está vinculado a uma época e realidade histórica, e são relevantes aqueles fenômenos que diretamente ou indiretamente relacionam-se com os nossos valores.

 

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A Sociologia de Max Weber resulta em uma metodologia de investigação de análise, de explicação e compreensão dos fenômenos sociais, na qual o “explicar” significa estabelecer conexões entre as ações sociais. E, estabelecendo as conexões entre as ações sociais através da indicação desta conexão na conotação histórica, na compreensão atual, através de tipos médios, através da construção do tipo ideal que conduz o cientista social a um trabalho verdadeiramente científico.

 

 

Ainda, sobre a metodologia de investigação de análise, de explicação e compreensão dos fenômenos sociais, temos o sentido de compreensão, que na perspectiva weberiana tem um caráter relevante.

 

O sentido de compreensão para Max Weber pelas ações tradicionais, que são menos significativas na investigação sociológica, já que são mecanizadas, repetitivas e de menor interesse, e por outro lado às ações racionais que melhor se prestam à investigação científica. A Sociologia para Max Weber reside na captação dos sentidos, no conhecer as motivações dos sujeitos através das ações sociais. Portanto, a Sociologia de Max Weber em sua metodologia consiste na compreensão e explicação dos fenômenos. A busca da individualidade histórica através de leis na investigação histórica se dá a partir das ações sociais e a explicação, compreensão dos fenômenos sociais que são mentais na perspectiva de Weber.

 

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Max Weber, em sua metodologia de investigação, explicação e compreensão dos fenômenos sociais, aponta para a construção de “tipos ideais”. O tipo é ideal porque é uma mera representação mental da realidade que se quer investigar. Os tipos ideais servem para a organização mental do fenômeno. Nós organizamos o real mentalmente a partir de juízos de valor. É importante notar que Weber parte assim da concepção kantiana, ou seja, organizamos o real mentalmente através de nossos juízos de valor. Nós construímos conceitos apriorísticos antes da pesquisa, que equivalem a representações mentais antes da pesquisa empírica, o que resulta afirmar-se que essa representação mental refletirá a realidade empírica.

 

A perspectiva de Weber se contrapõe de forma bastante crítica a dogmatismos e perspectivas de natureza muito mais doutrinárias do que cientificas, no sentido de que pretendem, através de suas construções ideais, fazer de certas expressões o conceito da própria realidade. A aplicação da metodologia compreensiva à análise dos fenômenos históricos e sociais, por parte de Weber, não se limitou à Sociologia. Na teoria política em geral, muitos conceitos e categorias interpretativas se tornaram clássicos.

 

Na metodologia de Weber, os “tipos ideais” são conceitos rigorosos e meras orientações para o trabalho de pesquisa. São as expressões da realidade que se quer investigar e conhecer.

 

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De modo geral, Weber empreende em sua obra toda uma perspectiva crítica ao pensamento conservador e ao marxismo. Deixemos de formular juízos de valor, pois a tarefa que se coloca para as Ciências Sociais tem por objetivo entender os sentidos da ação social. Trata-se, portanto, de se conhecer os modos da ação humana. Jamais as Ciências Sociais podem emitir juízos de valor, mas devem compreender o significado das ações sociais. A tarefa das Ciências Sociais é auxiliar os homens na solução dos seus problemas cotidianos. Nesse sentido coloca-se como tarefa para as Ciências Sociais compreender a realidade tal como ela é e não como deveria ser.

 

A ciência segundo Weber não pode deduzir receitas para a prática, mas sim ajudar os homens quanto aos meios que dispõem para atingir a sua vontade, e Weber entende os homens como seres dotados de vontade própria. As Ciências Sociais devem ajudar os homens na solução de seus problemas. Os fins e os meios jamais poderão ser decididos pela ciência, mas sim pelos homens.

 

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Max Weber trabalha a questão do capitalismo, mas em moldes contrários à perspectiva de Marx. Grande repercussão teve a teoria sobre o “capitalismo moderno”, em que Max Weber associa o “espírito capitalista” a certas camadas protestantes calvinistas. Uma das obras mais conhecidas da Sociologia de Weber continua sendo A Ética protestante e o espírito do capitalismo, no qual ele relaciona o papel do protestantismo na formação do comportamento típico do capitalismo ocidental moderno (Costa, 1987, p. 66). A esse respeito, Julien Freund em Sociologia de Max Weber sublinhou: O etos protestante foi uma das fontes da racionalização da vida que contribuiu para formar o que ele chama o “espirito capitalista” (Freund, 1970, p. 155). Max Weber, que encontrou diversas formas de capitalismo ao longo da história, em A origem do capitalismo moderno faz toda uma análise marcada por conceitos e construções de tipos ideais, e por um rigor científico, não cabendo em Weber a inevitabilidade histórica, conduzindo o leitor mais atento à explicação e compreensão desse fenômeno. Weber constrói modelos ideais e os enfatiza propositalmente. Singularidade e particularidade histórica são expressões comuns na perspectiva de Weber, e aparecem no curso da compreensão, análise e investigação do capitalismo moderno.

 

Como já acentuamos, o capitalismo, segundo Weber, deve ser compreendido como uma etapa de atividades racionais de bens e serviços. Toda uma época é tipicamente capitalista quando suas atividades são voltadas para as atividades racionais e para o lucro. Weber, que pensa em ações sociais enquanto processos sociais, pensa o capitalismo em bases de um processo e de uma racionalidade desenvolvida pelo Estado moderno, pela Igreja e pelas organizações políticas. Para Weber, encontramos diversas formas de capitalismo ao longo da história. O que caracteriza o capitalismo é a empresa enquanto atividade econômica desenvolvida. Segundo Weber, o capitalismo é um sistema de empreendimentos lucrativos ligados a relações de mercado que se desenvolveram historicamente em muitos países e em várias épocas. O capitalismo, dirá Max Weber, “existe onde quer que se realize a satisfação de necessidades de um grupo humano, com caráter lucrativo e por meio de empresas, qualquer que seja a necessidade de que se trate”.

 

O capitalismo se torna uma realidade permanente quando dada estrutura da economia invade todas as esferas da atividade econômica. E quando a atividade econômica é organizada racionalmente. Segundo Max Weber, o capitalismo deve ser compreendido enquanto um conjunto de atividades racionais, e o que define toda uma época tipicamente capitalista são as atividades racionais voltadas para o lucro.

 

 

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo (ss.mattos@uol.com.br).

Adaptado do texto “Max Weber e a análise da sociedade”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 59