A era das tecnologias

O que deve nos preocupar é aquilo que não sabemos sobre as Inteligências Artificiais

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

 

Acaba de chegar ao mercado uma tecnologia exatamente igual à descrita por nós há mais de dois anos e meio, em Quaresma (2014, p. 145), e é importante dizer que o sigilo absoluto faz parte indispensável do sucesso ou fracasso de novos produtos como esse. Acerca disso, diz-se, à boca pequena, que nem mesmo o pesquisador da sala ao lado da sua sabe sobre o que você está realizando em termos de pesquisa. Pois existem contratos de sigilo que proíbem a troca dessas informações.

 

Esse pequeno e portátil assistente pessoal já está disponível no mercado e pode ser adquirido por algo em torno de R$ 750,00, mas, por ora, está limitado a operar somente em alguns países, e sua interação se restringe a apenas algumas fontes de dados – por enquanto –, ligadas a aplicativos específicos já existentes.

 

Esses pequenos objetos tecnológicos comercializáveis cada vez mais “metidos” a inteligentes e pretensamente úteis, em si, isoladamente, significam pouco ou nada que possa ultrapassar o “mercadão global”. O que deve nos preocupar, de fato, é exatamente aquilo que não sabemos sobre as IA. A pergunta pétrea então é: se qualquer um com R$ 750,00 pode possuir um assistente pessoal como esse – bastante limitado, frise-se, mas, de alguma maneira e para algumas pessoas, útil – o que não poderá fazer um consumidor, corporação, governo ou Estado que possa investir 10, 100, 1.000 100.000 vezes mais recursos financeiros em um instrumento técnico desse tipo? Se eu, dentro de minhas limitações, poderia comprar e usar uma ferramenta dessas, o que não poderá fazer, por exemplo, a NSA com seu orçamento – em tempos de barbárie e terror – praticamente ilimitado?

 

Mas, estejamos alertas, caros leitores, pois vivemos – em relação ao mercado e à indústria tecnológica – num regime de desinformação devidamente orientada, e segundo essa lógica, esse cilindro de metal deveria ser “a oitava maravilha do mundo”. Mas será verdade? Será que realmente o estado da arte cibernético-informacional das IA se resume a isso? A uma latinha estúpida, que mal consegue nos compreender em toda a nossa complexidade humana? Que apenas repete protocolos simples e previamente programados? Nós, se pudéssemos, apostaríamos todas as nossas fichas numa resposta negativa, e explicaremos o porquê.

 

Literatura especializada

Em nossas pesquisas, pudemos descobrir que emular e reproduzir a consciência humana, em todas as suas complexíssimas propriedades e funções, é tarefa dificílima, hercúlea, quiçá impossível. Isso, por sua vez, não significa absolutamente que os grupos que acreditam nessa possibilidade desistam de suas prospecções e projetos de IA mundo afora. Essa latinha cilíndrica é um bom exemplo. Consequência “disso”, um subproduto “disso”, dessa busca obstinada, dessa lógica tecnicista que pretende a todo custo tecnologizar o ambiente, o mundo, a vida e a própria consciência humana.

 

 

Todavia, é importante trazer à luz essa espécie de farsa intencionalmente premeditada que subjaz e estrutura a própria campanha promocional do produto em questão, pois ele nos é oferecido como algo pretensamente “inteligente”. Porém, como está na literatura especializada sobre o assunto, que trataremos de referenciar a seguir, esse objeto roliço é tão competente cognitivamente quanto a minha calculadora de bolso ou o termostato da minha geladeira, que somam e dividem, acionam e desarmam o compressor que possibilita a refrigeração, mas ignoram o mundo ao seu redor. Não conhecem matemática, a termodinâmica, nem nossas intenções de obter solução de cálculos ou gelar cerveja. Numa só palavra: nunca poderiam – nem de longe – compreender o efeito de se tomar uma cerveja bem gelada num dia quente de verão. As máquinas, todas elas, e principalmente os computadores, “fazem o que seus programadores e usuários querem que elas façam [informam-nos Button, Coulter, Lee e Sharrock (1998, p. 197)], e não o que os próprios computadores querem fazer”.

 

Quarto chinês

“O Quarto chinês é um exemplo imaginário, criado por John Searle para combater o que ele chama de ‘o programa forte da inteligência artificial’ (Searle, 1980). O argumento, como formulado por Searle, é que um computador pode ser capaz de manipular símbolos de acordo com procedimentos sintáticos (isto é, que as suas operações podem possuir uma semelhança formal com as da mente humana como retratada pela teoria funcionalista), mas suas operações não podem igualar as da mente humana, pois esta última não procede apenas sintaticamente, dado que também possui uma semântica. Essa capacidade de operar semanticamente está, para Searle, necessariamente ligada a um aparelho biológico humano, contra as posições funcionalistas.” Button, Coulter, , Lee e Sharrock (1998, p. 34) acrescentam que “o computador realmente ‘manipula símbolos’, mas, desta vez, num sentido que é ainda mais acentuado do que o que se refere ao caso do gráfico, num sentido em que o fato de que o que está sendo manipulado são ‘símbolos’ é acessório ao funcionamento do computador. O computador trabalha com eles somente em virtude de seu caráter eletrônico, em virtude do tipo de impulso eletrônico que eles são. O fato de que esses impulsos eletrônicos estão (de maneira complexa e mais ou menos direta) associados a símbolos é irrelevante para as operações do próprio computador. O caráter simbólico daquilo com que um computador opera não é relevante para ele, mais, sim, para nós, seus usuários”.

 

 

Ainda assim, não nos enganemos: vivemos o limiar de uma era evolutiva de tecnicizações extraordinárias, em que a emergência de inteligências artificiais complexas pode caracterizar um tipo novo e superior de auto-organização sistêmica. Se tivermos máquinas mais e mais inteligentes, que possam – como seus idealizadores já estão anunciando – projetar a si próprias, cada vez mais sofisticadas e desenvolvidas, e até mesmo – como dizem alguns entusiastas mais enfáticos – pretensamente ‘vivas’ na interação social, juntamente com seres humanos, esbarraremos inelutavelmente no estatuto de ambos os seres e entidades que terão – por isso mesmo – de ser revistos e repensados a partir dessa mesma conjuntura, em tudo neoparadigmática.

 

Futuro incerto

Sem paranoia ou teoria da conspiração, é possível sustentarmos que, em algum subsolo, trancafiado e sigilosamente protegido do mundo, já “viva” (ou “exista”) uma inteligência artificial superior, capaz de emular e articular cognições digitais tão extraordinariamente complexas que – quando nos for apresentada – tenhamos que repensar profundamente os significados dos termos vida, inteligência e consciência.

 

Robôs podem dominar o mundo?

 

E esse tipo novo de inteligência pode comprometer o futuro da humanidade, como alguns pesquisadores já assinalaram, pois poderá, em algum momento, competir com ela. Nesse sentido, é importantíssimo que consigamos agir com responsabilidade, com serenidade, com lucidez e sabedoria, com nossa atenção e foco nos dias atuais – é claro –, mas também com os olhos atentos projetados para o futuro, para o amanhã, enfim, para esse tempo incerto e difuso que legaremos aos nossos filhos, netos e bisnetos. E essa responsabilidade, é claro, é um dever societal, que, sem sombra de dúvida, estende-se e engloba as futuras gerações de seres humanos que ainda estão por vir, no que os teóricos da Justiça chamam de direitos difusos da humanidade.

 

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing. E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Adaptado do texto “Desinformação devidamente orientada”

Para conferir na íntegra garanta a sua revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 63