A importância da Semana de 22 para a identidade cultural do Brasil

O movimento nasceu contra as importações culturais que apagam as nossas manifestações simbólicas e contra o arraigado complexo de inferioridade que afeta boa parte de nossa sociedade

Por Yago Junho* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

No Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade ressalta a necessidade de uma reação contra o homem vestido. É como se posiciona contra as importações culturais que apagam as manifestações simbólicas

A Semana de Arte Moderna em fevereiro de 1922 mudou definitivamente o Brasil. Um bando de jovens e senhores geniais, escritores, pintores, escultores e músicos transformaram a paisagem cultural brasileira. O Modernismo foi um movimento de vanguarda artística, capitaneado por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, que buscou atualizar a cultura brasileira num contexto social de rápidas transformações econômicas e sociais. Vivíamos o início dos anos 1920. Princípio da industrialização, do crescimento das cidades, das mudanças políticas no mundo e da efervescência política e social interna.

 

A Literatura foi durante muito tempo, entre nós, o meio privilegiado de expressão e análise do quadro societário brasileiro. Antonio Candido em Literatura e Sociedade diz que até a primeira metade do século XX a Literatura, muito mais do que as Ciências Humanas, foi o centro de nossa vida intelectual. Segundo o crítico uspiano, dois momentos foram decisivos na Literatura do País em virtude da mudança de rumo e vitalização que deram à inteligência brasileira: o Romantismo e o Modernismo.

 

O Romantismo foi um importante movimento cultural que auxiliou tanto no esforço de afirmação nacional quanto na construção de uma consciência literária, tomando por critério de avaliação de escritores a intensidade com que estes se envolveram com as questões mais candentes da sociedade brasileira.

 

O Modernismo representou, fundamentalmente, o desrecalque dos nossos fantasmas históricos, sociais e étnicos. O primitivismo aparece como fator de criatividade cultural; à pesquisa formal somou-se aos elementos do cotidiano da vida brasileira: a arte primitiva, o folclore e a etnografia. Tudo isso convergindo para a proposta de afirmação da nacionalidade brasileira, cuja materialização textual encontra sua forma de expressão no ensaio. “Todos esquadrinham, tentam sínteses, procuram explicações. Com o recuo do tempo, vemos agora que se tratava de redefinir a nossa cultura à luz de uma avaliação nova dos seus fatores. Pode-se dizer que o Modernismo veio criar condições para aproveitar e desenvolver as intuições de um Sílvio Romero, ou Euclides da Cunha, bem como pesquisas de um Nina Rodrigues´. (CÂNDIDO, 2000, p.113)

 

O Modernismo possibilitou outro olhar sobre nós mesmos. Ampliou o repertório de informações sobre nossos problemas sociais. Augusto de Campos, poeta e crítico concretista, defende a teoria da informação embasada no binômio informação/redundância. Para uma mensagem chegar ao receptor é necessária uma dose de redundância. O ouvinte tem um certo “código apriorístico” que, em parte, serve para determinar a previsibilidade de uma informação, ou seja, um conjunto de conhecimentos. Para uma mensagem alargar os horizontes estéticos do espectador é preciso que a informação produza ruptura com esse “código apriorístico”. As manifestações artísticas de vanguarda necessariamente possuem essa característica. De acordo com essa análise, o Modernismo rompeu com o código a priori dos leitores brasileiros.

 

Esse rompimento com o código a priori dos leitores permitiu ao Movimento de 22 fisgar a particularidade do desenvolvimento desigual brasileiro. E transpôs essa particularidade – os contrastes da vida nacional – para o nível formal das composições. Na estética modernista o resultado do nosso desenvolvimento desigual capitalista recebe um tratamento crítico-jocoso.

 

Tormentas intelectuais

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José Guilherme Merquior, em seu esquema sobre as características da Literatura Moderna, salienta a “emergência de uma concepção lúdica da arte” (MERQUIOR, 1975, p. 84). Diferentemente dos românticos e pós-românticos, os escritores modernos aboliram o entendimento da criação estética como algo soteriológico. A arte-magia, segundo o crítico cultural, se converte em arte-jogo. Isso porque, na visão moderna, o jogo, assim como o conteúdo, se contenta em parodiar os sentidos e as situações. “Toda a arte moderna tende a brincar com seus temas – mesmo quando os leva terrivelmente a sério”. (MERQUIOR, 1975, p. 85)

 

A não homologia entre a base material e a produção simbólica entre nós fez com que, um dos líderes do Movimento de 22, Oswald de Andrade, por exemplo, anotasse que por aqui o contrário do burguês é o boêmio e não o proletário. Essa falta de organicidade da cultura de certa forma é o problema que atormenta a intelectualidade brasileira desde o Movimento de 22, como salienta o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos. E a crítica à ideologia dominante se dá via linguagem, e na linguagem.

 

O Modernismo como um movimento que pretendia a renovação cultural do Brasil centrou fogo na pesquisa dos elementos nacionais e populares. Lígia Morrone Averbuck citando João Alexandre Barbosa nos diz que: “A linguagem de um momento cultural é o conjunto de proposições que nomeiam o modo de relacionamento com os objetos culturais do passado […]”. (apud AVERBUCK, 1985, p. 30)

 

Partindo desta constatação sobre o papel da linguagem entende-se o porquê dos modernistas buscarem provocar rachaduras no código linguístico dominante. Segundo a mesma autora, o Modernismo funda raízes sobre a ideia de nação entendida tanto no sentido objetivo de expressão linguística como nas constatações subjetivas. A Literatura é compreendida como tendo a função integradora dos vários brasis. Não por acaso com Macunaíma, Mário de Andrade pretendeu tecer a síntese do caráter brasileiro. Em carta a Luís da Câmara Cascudo, ele explica: “um dos meus cuidados foi tirar a geografia do livro. Misturei completamente o Brasil inteirinho como tem sido minha preocupação desde que intentei me abrasileirar e trabalhar o material brasileiro”. (ANDRADE, 2000, p. 75)

 

O que se buscava eram as raízes nacionais e o inconsciente coletivo. Então o resgate da oralidade, a incorporação milionária dos erros respondia a uma necessidade de incorporação na Literatura da realidade nacional brasileira. Era a tomada de consciência do ser social brasileiro. “Inventar uma língua, escreverá Carlos Fuentes, é dizer tudo que a História calou” (AVERBUCK, 1985, p. 190). E mais: “continentes de textos sagrados, a América Latina sente a urgência de uma profanação que dê voz a quatro séculos de linguagem sequestrada, marginal, desconhecida”. (AVERBUCK, 1985, p. 190)

 

Havia assim, na visão dos modernistas, uma inadequação entre a tradição de expressão literária que herdaram e a realidade social do país em que viviam. As viagens empreendidas pelos escritores ao interior do país tinham o caráter gnosiológico de utilizar as tradições populares nas construções literárias. Como dirá Raul Bopp, a subgramática antropofágica tinha como objetivo a incorporação das camadas baixas da fala brasileira.

 

Cito de novo Averbuck (1985, p. 179): “A tomada de consciência expressa pelo Modernismo requeria a possibilidade de integração das manifestações das classes populares e o aproveitamento das formas de expressão de amplas camadas do povo brasileiro. Esta descoberta de conteúdos e formas de origem popular que, incorporados pelo Modernismo, apareceriam na Literatura, como na música e nas artes plásticas, expressa o programa de geração que, na década de 1920, desejou um Brasil mais homogêneo e aberto, aliviado de desigualdades políticas e sociais […]”.

 

A construção oswaldiana é articulada com a capacidade que teve o escritor modernista de entender o caminho que as artes tomaram na modernidade

Oswald de Andrade foi o escritor que levou essa história até suas últimas consequências. Haroldo de Campos salienta que a escritura oswaldiana se identifica com uma poética da radicalidade. Esta seria fruto do contexto sócio-político-artístico de São Paulo no início do século XX, com a incipiente industrialização, a imigração, os avanços técnicos e, consequentemente, as modificações da linguagem proporcionadas pelo choque entre as velhas e novas classes sociais.

 

À época, a linguagem dos círculos literários “funcionava como um jargão de casta” (OSWALD, 2002, p. 8). Existia um obstáculo intransponível entre a linguagem da aristocracia e a do povo. A subversão desse estado de coisas é que constituiu um dos caracteres inovadores de Oswald.

 

Ser radical é atingir a raiz das coisas. Para o homem, sua raiz é o próprio homem. Ainda, segundo Marx, linguagem é a consciência real e prática que permite a relação entre os homens, portanto é um produto social. Então, “a radicalidade da poesia oswaldiana se afere, portanto, no campo específico da linguagem, na medida em que esta poesia afeta, na raiz, aquela consciência prática, real, que é a linguagem” (ANDRADE, 2002, p. 07). Em sua concepção radical de Literatura, Oswald depara-se com as indagações do novo brasileiro, que se moldava numa dicção aturdida pela “contribuição milionária de todos os erros”. (ANDRADE, 2002, p. 08)

 

Revista Sociologia Ed. 40

Adaptado do texto “Um legado sociocultural”

* Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI (Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação de Santa Rita do Sapucaí – MG).