A legalização das drogas

A guerra do México contra as drogas vai de mal a pior

Por Jorge G. Castañeda* | Foto: Wikipédia | Adaptação web Caroline Svitras

Mais mexicanos morreram em decorrência da violência das drogas em comparação com os americanos que morreram durante a Guerra do Vietnã – esse total foi de 58.000 vítimas. Ao final de seis anos do governo Calderón, mais de 50 bilhões de dólares foram gastos na luta contra os cartéis de drogas.

 

Desde 2008, a violência aumentou vertiginosamente, intensificando os homicídios, sequestros, extorsões e roubos. As violações dos direitos humanos, em declínio desde os primeiros anos da década de 90, têm aumentado à medida que os soldados mexicanos recorrem à força, incluindo tortura, na luta contra o tráfico de drogas.

 

O turismo está despencando como resultado da imagem aterrorizante do México no exterior. A guerra contra os cartéis tem tido maus resultados. Os índices oficiais recentes sobre apreensões de drogas, que refletem a demanda do mercado, são mistos. As taxas de maconha e heroína diminuíram, as de cocaína se mantiveram estáveis e as de metanfetaminas subiram.

 

Desde 2008, a violência em decorrência das drogas aumentou vertiginosamente no México, intensificando homicídios, sequestros, extorsões e roubos

Alguns importantes traficantes de droga foram capturados ou mortos, mas os peixes grandes, como Juan José Esparragoza, conhecido como “O Azul”, Vicente Carrillo Fuentes, Joaquín Guzmán Loera, “El Chapo”, e Ismael Zambada, ‘’O Maio”, ainda seguem em liberdade. Não é surpresa, então, perceber que o povo está cansado desta guerra.

 

A maioria dos mexicanos tem dado apoio à política do governo contra as drogas e ao papel dos militares em combate, e rejeita a opção de negociar com os cartéis. Mas essa maioria está diminuindo à medida que uma atrocidade segue outra. Em 2012, 49 corpos foram jogados em uma das avenidas mais importantes de Veracruz; 52 pessoas foram mortas em um ataque incendiário contra um cassino em Monterrey, e duas cabeças decapitadas foram encontradas em uma rodovia na Cidade do México. Foi colocado um vídeo na internet que mostra cinco homens mascarados alegando fazer parte de um grupo de justiceiros dedicados a exterminar o cartel dos Zetas.

 

Por isso não surpreende que muitos mexicanos influentes começaram a considerar alternativas à fracassada guerra de Calderón. Os ex-presidentes Ernesto Zedillo e Vicente Fox declararam ser partidários a alguma forma de legalização das drogas. Carlos Fuentes, o romancista mais famoso do país, e os editores das três principais revistas mensais (Este País, Letras Libres e Ligações) também pediram a legalização. E agora Carlos Slim, o magnata das telecomunicações, já considerado o homem mais rico do mundo, juntou-se ao debate. Em uma entrevista para a publicação on-line The Daily Beast, quando lhe perguntaram: “Acredita que legalizar as drogas ajudaria a eliminar o incentivo ao crime?”, Slim replicou com um sonoro: “Não ajudaria, acabaria com ele” (ou seja, a legalização poria fim ao incentivo criminal). Logo Slim completou: “Não sabemos as consequências na saúde. Até que ponto essas drogas são prejudiciais. Mas creio que nós (México e EUA) deveríamos trabalhar mais juntos”.

 

Se um personagem tão conservador no campo pessoal e tão cauteloso na política como Slim diz que a legalização deveria ser considerada, então algo está começando a ceder na psique coletiva do México com relação a esse dilema, tão doloroso e difícil de administrar.

 

Talvez o sinal indicador dessa mudança de opinião no México provenha do próprio presidente Felipe Calderón, que sempre declarou sua oposição à legalização das drogas, inclusive ao tornar pública a sua oposição à Proposição 19 da Califórnia, a iniciativa sobre a legalização da maconha que foi aprovada no ano passado.

 

Calderón colocou os seus princípios morais no centro da política governamental e repetidamente condena os EUA por sua falta de disposição para combater o consumo de drogas e a venda de armas desenfreada ao longo da fronteira com o México. Ninguém pode duvidar da posição antidrogas de Calderón. “Devemos fazer tudo para reduzir a demanda de drogas”, disse no mês passado em Nova York, em um discurso frente à Sociedade das Américas e o Conselho das Américas. “Mas se o consumo de drogas não pode ser limitado, então, os que tomam decisões devem procurar mais soluções – entre elas, alternativas de mercado – com a finalidade de reduzir os lucros astronômicos das organizações criminosas”, completou.

 

Depois de atrocidades cometidas por grupos do narcotráfico, muitos mexicanos influentes, como os ex-presidentes Ernesto Zedillo e Vicente Fox (fotos), declararam ser favoráveis a alguma forma de legalização

 

Dada a tendência mexicana ao uso de eufemismos, as palavras de Calderón puderam ser traduzidas como uma maneira de dizer o que Slim havia sugerido: para reduzir os lucros do narcotráfico, uma alternativa é legalizar as drogas.

 

Depois de mais de 50.000 mortes, colocar fim a uma guerra perdida que nunca deveria ter sido declarada parece ser a única eleição possível. E a legalização talvez seja a melhor opção.

 

*Jorge G. Castañeda foi ministro das Relações Exteriores do México. É cientista político, professor emérito da Universidade de Nova York, colaborador do jornal New York Times, autor de diversos artigos e livros, entre eles o mais recente Ex Mex: From Migrants to Immigrants.

Tradução de Gláucia Viola

Fotos: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 38