A maldição do trabalho barato

Por Ruy Braga* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Após tanta mistificação em torno da chamada “nova classe média”, muitos se esqueceram de que se olharmos por trás da relativa desconcentração de renda entre os que vivem do trabalho encontraremos a dura realidade de uma sociedade periférica cuja economia depende estruturalmente do preço anômalamente baixo da força de trabalho. Em suma, os trabalhadores brasileiros tornaram-se reféns de um modelo de desenvolvimento capitalista cuja estrutura alimenta-se de condições cada dia mais precárias de vida e de trabalho. Se a gênese desse modelo remonta ao início dos anos 1990, quando as políticas de ajuste estrutural implementadas pelos governos Collor e FHC elevaram a taxa de desemprego aberto de 3% para 9,6% da População Economicamente Ativa (PEA), nocauteando a massa salarial (bastaria lembrar que, de 1995 a 2004, a participação dos salários na renda nacional caiu 9% enquanto as rendas de propriedade aumentam 12,3%), sua consolidação foi obra dos governos de Lula da Silva.

 

À primeira vista, a ênfase social do modelo de desenvolvimento pilotado pela burocracia lulista anunciaria uma alternativa. Afinal, houve uma intensa reformalização do mercado de trabalho durante a década passada que, somada a um crescimento econômico da ordem de 4% ao ano, redundou em uma incorporação média de aproximadamente 2,1 milhões de novos trabalhadores por ano ao mercado formal. A base da pirâmide salarial aumentou nitidamente, fortalecendo o mercado de trabalho brasileiro: entre 2004 e 2010, a participação relativa dos salários na renda nacional aumentou 10%, enquanto os rendimentos oriundos da propriedade decresceu cerca de 13%. No entanto, destes 2,1 milhões de novos postos de trabalho criados por ano, cerca de 2 milhões remuneram o trabalhador em até 1,5 salário mínimo. Eis o segredo de polichinelo: crescimento apoiado em trabalho barato.

 

Cresce taxa de trabalho informal no Brasil

 

Dispensável dizer que estes trabalhadores simplesmente não são capazes de poupar. Ou seja, todo o dinheiro que entrou na base da pirâmide salarial na última década foi imediatamente convertido em consumo popular. E o aumento desse tipo de consumo combinou-se com o barateamento das mercadorias proporcionado pelo aprofundamento da mundialização capitalista. Um novo padrão de consumo emergiu no país: pós-fordista, pois baseado na capacidade do regime de acumulação mundializado em multiplicar a oferta de novos bens; popular, pois apoiado no crescente endividamento das famílias trabalhadoras que precisam fazer das tripas coração para pagar as incontáveis prestações do comércio varejista.

 

A economia cresceu às custas da deterioração da indústria de transformação, a única capaz de garantir ganhos reais de produtividade. Ou seja, as relações de produção capitalistas representadas por uma moderna indústria financeira, pelo complexo processo de exploração do pré-sal e pelo desenho pós-moderno dos novos estádios da Copa do Mundo, apenas reproduzem as bases materiais da produção massificada do trabalho barato. Até quando?

 

Revista Sociologia Ed. 42

Adaptado do texto “A maldição do trabalho barato”

*Ruy Braga, é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).