A mercantilização do meio ambiente

A percepção de que o espaço ambiental global é finito e que a busca da equidade exige uma postura que contenha o uso abusivo da natureza exige a escolha de um caminho desvinculado do crescimento econômico e do desenvolvimento social

Por Everaldo da Silva* e Wellington Lima Amorim** | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O capitalismo possui, nessa fase industrialista, uma característica importante: o papel que assume o Estado no desenvolvimento capitalista. Ou seja, em virtude das contradições dentro do sistema, dos conflitos e das disputas entre os monopólios que, para garantir ou fazer crescer os seus respectivos pedaços no mercado mundial, necessitam do respaldo político, diplomático, militar e ideológico dos aparelhos do Estado. A interferência do Estado torna-se primordial, também, para garantir as condições gerais de produção exigidas à acumulação do capital monopolista, em virtude de que, à medida que o capital se concentra e centraliza, cresce a escala de produção, forçando uma organização do espaço correspondente. Isso implica no desenvolvimento de uma infraestrutura de transportes, comunicações, energia etc. que envolve a aplicação de grandes recursos, pelos quais o Estado acaba se responsabilizando em favor dos monopólios.

 

Dessa forma, as pessoas começaram, frequentemente, a admitir que o crescimento desses monopólios está colidindo com a própria natureza. É possível que alguém ainda se surpreenda com o fato de o desaparecimento de espécies e de sistemas seguir o mesmo caminho das línguas, das culturas e do conhecimento, ou seja, tem-se assistido, constantemente, a imagens que já não são mais aceitas pela sociedade: pessoas morrendo de fome, num país com sobra de alimentos, crianças trabalhando, crescente desemprego, pessoas sem atendimento médico, tudo diante dos olhos do Estado.

 

Grandes ameaças

Vive-se no descaso diante de todas as formas de desvirtuamento que caracterizam a sociedade moderna, com excessiva riqueza e muita miséria, com possibilidades de paz e uma realidade de guerra. As selvas tropicais desaparecem num ritmo muito acelerado; grande parte dos solos irrigados foi afetada pela erosão; o consumo de água doce é quase o dobro de sua renovação anual; o direito de usar e desenvolver a diversidade está sendo destruído pelo controle dos governos, que são influenciados pelas empresas. Enfim, o mais trágico é que, junto com a destruição do conhecimento, há uma destruição da consciência social. A maior parte da energia criativa humana continua destruindo os fundamentos últimos da natureza. Conforme Florit (1998, p. 63-64), “os problemas ambientais de grandes consequências que fazem parte da agenda contemporânea (aquecimento global, buraco na camada de ozônio, desertização e poluição em grande escala, dentre outros) são, presumivelmente, produto de atividades humanas e têm origem social. Eles foram gerados, precisamente, pela intrusão consciente na nossa própria história e pelas nossas intervenções na natureza que a ciência social contribuiu para legitimar”.

 

Considera-se que a maior ameaça está sobre a água que se utiliza. A água que não está em forma de gelo ou cheia de sal é apenas a metade de 1% em todo o planeta. As previsões indicam que, em 2025, 1,8 bilhão de pessoas, a maioria dos habitantes do Oriente Médio, do norte da África, do sul da Ásia e da China, enfrentará falta de água, tornando-se imprescindível, entre outras coisas, desviar água da irrigação e da produção de alimentos para o consumo doméstico. Na Índia, por exemplo, entre as várias etapas da globalização econômica, a água está sendo tratada e comercializada como mercadoria. Sob pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, cujo intuito é garantir receitas para o pagamento de suas dívidas, o governo indiano está vendendo direitos de água para corporações internacionais. Vale a pena ressaltar que isso não está apenas ocorrendo na Índia, mas na maioria dos países do terceiro mundo.

 

Tornar bens da natureza e da própria vida objetos de consumo é uma característica marcante da atual globalização econômica. Hoje, a economia global é abastecida, em grande parte, por uma ciranda financeira na qual a maioria dos investidores se tornou especulador e jogador. Não surpreende, então, que, para serem internacionalmente competitivos, os governos nacionais sejam empurrados a eliminar todas as barreiras ao livre fluxo de capital, bens e serviços, envolvendo regulamentos ambientais projetados para proteger os recursos naturais. Com isso, para produzir atendendo os mercados globais, a produção de exportação vem deixando um vestígio ecológico cada vez maior e mais prejudicial no planeta. Segundo Sachs (1986a, p. 10), “para os países pobres, mais que nunca, a alternativa se coloca em termos de projetos de civilização originais ou de não desenvolvimento, não mais parecendo possível nem, sobretudo, desejável a repetição do caminho percorrido pelos países industrializados”.

 

A percepção de que o espaço ambiental global é finito e que a busca da equidade exige uma postura que contenha o uso abusivo da natureza é um desafio que se enfrenta e exige a escolha de um caminho a favor do meio ambiente que seja, ao mesmo tempo, desvinculado do crescimento econômico e do desenvolvimento social. Já passou a época da falta de conhecimento ambiental, haja vista que estão quase todos cientes de que a questão da natureza é inerente à questão do poder. Para Sachs (1986b, p. 38), “a tomada de consciência ecológica traduz-se, em economia, por uma maior preocupação com o longo prazo. Afinal de contas, preservar os equilíbrios ecológicos é garantir as condições de desenvolvimento das gerações futuras, que, tanto quanto nós, delas vão depender para a obtenção de recursos renováveis”.

 

Soluções possíveis?

É necessário criar regras eficazes de controle dos fluxos financeiros e mais protecionismo. O péssimo desenvolvimento não é consequência da ausência de recursos físicos e técnicos, mas da ausência de regulamentação e vontade política. O capitalismo não sabe como tratar a questão social e ecológica. Hoje, se está diante de uma nova crise civilizacional e ecológica.

 

No Brasil, os movimentos ambientalistas deveriam dar mais atenção às questões da equidade social e dos direitos do homem, principalmente por terem algo em comum em alguns campos. O bom resultado dos esforços dos ambientalistas depende, parcialmente, da realização de alguns direitos humanos. Ou seja, o sucesso da proteção ambiental exige mais trabalho, um maior contingente de agendas e custos maiores. O avanço na direção de uma sociedade sustentável, tanto em âmbito mundial como nacional, depende, em muito, da aproximação das questões ambientais às de equidade social e de direitos humanos. Nesse sentido, cabe destacar que grande parte dos grupos ambientalistas priorizava as causas locais, mas havia algumas lutas por causas regionais ou nacionais, entre elas: o movimento contra a construção do aeroporto de São Paulo em Caucaia do Alto; o movimento para salvar as “Sete Quedas”; o movimento contrário à produção de energia nuclear; o movimento que chamava atenção nacional e internacional para a grande poluição em Cubatão; a campanha nacional contra o uso abundante de inseticidas, herbicidas e fungicidas na agricultura; e, por último, a campanha nacional para eleger, em 1986, representantes verdes para a Assembleia Constituinte.

 

Argumenta-se que um dos maiores problemas está na própria condição do homem dentro de uma sociedade que vive do consumo. Apenas se está apontando o que acontece no mundo. Tem-se a preocupação com o destino da sociedade contemporânea. Quando se pensa nas possíveis soluções sobre a questão ambiental se volta sempre a questionar sobre a posição do governo e da inclusão da sociedade civil no debate. As pessoas que decidem são bem poucas, e aqueles que estão no poder geralmente provêm de várias empresas. Entretanto, existem caminhos por meio dos quais se poderia agir politicamente melhor: por meio de negociações no sistema da ONU, de comunidades religiosas, da organização da sociedade civil e da ONU que, nesse momento, apresenta-se como estritamente necessária, com seus profissionais altamente qualificados e politicamente capazes. Ou será que somente Deus poderá nos salvar?

 

Revista Sociologia Ed. 43

Adaptado do texto “A mercantilização do meio ambiente”

*Everaldo da Silva é doutor em Sociologia Política. Centro Universitário de Brusque – Unifebe. E-mail: evesociologia@gmail.com

**Wellington Lima Amorim é doutor em Ciências Humanas. Universidade Federal do Maranhão – UFMA. E-mail: wellington.amorim@gmail.com