A “nova classe média”

Fatores como educação, distribuição de renda, segregação racial, origem familiar e até capital cultural são responsáveis pela mobilidade de classes sociais no país, que avançou, mas ainda precisa crescer mais, segundo especialistas

Por Lucas Vasques* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Informações oficiais dão conta de que 30 milhões de brasileiros alcançaram a ascensão social nos últimos anos. No entanto, segundo alguns especialistas, o fato não teria produzido uma “nova classe média”, mas, sim, uma classe social diferente, pelo fato de que a classe média estabelecida é a dominante, pois se forma pela apropriação de capital cultural. “Houve aumento da renda média e diminuição da desigualdade no Brasil. Isso é inegável e é positivo. O que vem sendo chamado de ‘nova classe média’ é esse grupo, que melhorou sua renda nos últimos 10 ou 15 anos, o que também é muito positivo. No entanto, chamar esse grupo, que ascendeu em termos de renda, de ‘nova classe média’ é certo exagero. Ou melhor, é uma liberdade linguística. Essa parcela avançou, mas continua tendo nível educacional muito baixo, por exemplo. Sem educação de qualidade, a maioria jamais chegará ao que costumamos, popularmente, chamar de ‘classe média alta’. O segmento mais próximo de uma espécie de elite é constituído por profissionais e administradores que possuem (a maioria, pelo menos) educação de nível superior.”

 

Segundo Costa Ribeiro, educação de nível superior não é sinônimo de “capital cultural”, mas é uma forma de adquiri-lo. “Não há dúvida de que esse capital cultural é fundamental, mas acho que é possível atingi-lo mesmo vindo de uma origem de classe muito baixa. Temos alguns exemplos de pessoas que conseguiram isso, embora a grande maioria dos pobres não alcance posições mais altas na estrutura de classes da sociedade brasileira. Há uma forte correlação entre classe de origem (da família) e classe de destino (posição que os indivíduos alcançam). A boa notícia, contudo, é que a força desse processo não é mais a mesma no Brasil. Minhas pesquisas indicam que essa correlação está diminuindo, desde a década de 1970 até hoje. As coisas estão melhorando, embora o Brasil ainda seja um dos países mais rígidos do mundo em termos dessa correlação entre classes de origem e de destino (seja medindo por renda dos pais e dos filhos ou por ocupação ou por educação).”

 

Em relação à ascensão social significativa de um bom número de brasileiros nos últimos anos, Ribeiro reconhece, mas se diz contrário às visões triunfalistas. Para ele, a desigualdade social e de classes no nosso país continua sendo enorme. “Não há por que acharmos que estamos vivendo uma situação maravilhosa, embora, também, devamos admitir que as coisas estão melhorando bastante em termos sociais. Mesmo assim, o Brasil é um dos países de renda média com o maior percentual de mão de obra sem qualificações mínimas. Apesar de nosso sistema educacional ter se expandido muito, nas últimas décadas, ainda deixa a desejar. Também houve a criação de inúmeras posições de empregos melhores (com carteira assinada). Entretanto, ainda há a presença marcante de um enorme setor informal, além de empregos que não exigem qualificações. Há muito o que melhorar e, por isso, não há motivo para triunfalismo. Contudo, acho que não podemos negar que houve alguma melhora. Em suma, prefiro uma posição mais moderada. Nem triunfalismo, nem pessimismo. É melhor ser realista e observar o avanço que ocorreu e o que ainda deve avançar. Melhorar a educação e diminuir a desigualdade de renda são os pontos fundamentais”, completa.
 

 

 

 

Trecho retirado do texto “Como anda o sonho brasileiro?”

Revista Sociologia Ed. 52

*Lucas Vasques é jornalista e escreve para esta publicação.