A ovelha negra das relações de gênero

Durante os anos 70, a cantora e compositora Rita Lee conseguiu, por meio e suas letras, questionar, zombar e, na medida do possível, romper com as imposições de costumes e de comportamentos o gênero feminino

Por Érica Ribeiro Magi* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

Rita Lee foi a primeira compositora de rock no Brasil de que temos notícia. Se antes Celly Campello, Meire Pavão, Regiane e Wanderléa eram intérpretes de discursos alheios, conservadores e rasos, Rita Lee pôde desenvolver sua linguagem escrita e musical sobre outras condições artísticas e de produção. Nos anos 70, como bem observa Ana Maria Bahiana (1980, p. 37), viu-se uma “quantidade considerável de mulheres compondo” – Sueli Costa, Joyce, Fátima Guedes, Marina Lima, Angela Ro Ro, Catia de França, Marlui Miranda –, e no final da década a indústria fonográfica transforma esse dado em um nicho de mercado, passando a investir também na carreira de compositoras, não somente de intérpretes. É claro que antes existiram compositoras, porém em número muito reduzido, segundo nos conta a história oficial da música popular brasileira, como  Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Dolores Duran (1930-1959) e Maysa (1936-1977). Bahiana (1980, p. 40) considera que dentre todas essas compositoras que Rita Lee tenha se afirmado “como performer, como intérprete das próprias obras, vencendo uma espécie de timidez, comum a todas”. A questão que coloco é: Será que se trata somente de “timidez”? Há que se pensar: Como acontecem as relações entre gêneros no campo da música popular urbana?

Rita Lee Jones Carvalho nasceu na cidade de Americana, interior de São Paulo, no ano de 1947, numa família de classe média; seu pai, Charles Fenley Jones, era dentista e imigrante norte-americano, e sua mãe, Romilda Padula, era pianista e filha de italianos. Quando se muda para São Paulo com a família durante a infância, Rita teve aulas de piano com a musicista Magdalena Tagliaferro, instrumento que ainda era associado e requerido na educação das meninas. A irmã mais nova de Mary Lee e Virginia Lee formaria com duas amigas, no início dos anos 60, o grupo Teenage Singers, que se apresentava nos colégios. Logo, elas conhecem um trio masculino do bairro da Pompeia, o Wooden Faces. As duas bandas se juntam, constituindo o Six Sided Rockers, que ficará conhecido como O’Seis. A banda ainda consegue gravar um disco compacto com duas músicas. Três componentes saem, sobram na banda Rita e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, e passa a se chamar Os Bruxos. Por sugestão do músico Ronnie Von, Os Bruxos viraram Os Mutantes. Arnaldo e Sergio Dias Baptista eram também filhos de uma mãe pianista, aprenderam música desde cedo, o primeiro tornou-se tecladista e o segundo, um exímio violonista e guitarrista. Os Mutantes participaram da Tropicália, acompanhando Gilberto Gil, com a canção Domingo no Parque, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967, e na gravação do LP, símbolo do movimento, Tropicália ou Panis et Circensis. A prestigiada banda de rock entre os tropicalistas gravou o primeiro LP em 1968 pela Polydor.

Rita integrou os Mutantes até 1972. Momento este muito confuso na carreira do grupo que envolvia mudanças profundas em sua proposta musical, indo em direção ao rock progressivo, à separação de Arnaldo e Rita e a sua “expulsão” da banda por ela não ser uma virtuosa instrumentista, como pede o estilo progressivo. Essa é a versão contada pela Rita de sua saída dos Mutantes, e contestada por Sérgio Dias. Ouvindo os discos subsequentes a sua saída, verifica-se que a cantora e compositora não teria lugar nessa fase dos Mutantes. As letras deixaram de ter importância, ficando restritas a uma estrofe em músicas de cinco a onze minutos; e o canto feminino não fazia mais sentido, porque as bandas progressivas internacionais (Yes, Emerson, Lake & Palmer, Genesis), miradas pelos Mutantes no Brasil, não tinham mulheres em suas formações. Antes mesmo de deixar os Mutantes, a artista era incentivada por André Midani (1932-), então, diretor da gravadora Phillips, a fazer trabalhos solo. O importante executivo apostava no potencial e carisma de Rita como cantora e compositora, mas fora dos Mutantes.

Rita Lee passa por um curto período de depressão. Recupera-se e forma com a amiga Lucia Turnbull uma dupla, As Cilibrinas do Éden, cujo único registro fonográfico foi realizado no festival Phono 73, patrocinado pela Phillips. Elas desistem de ser somente uma dupla e chamam para acompanhá-las a banda Tutti Frutti, de São Paulo, formada por Luis Sérgio Carlini (guitarra), Lee Marcucci (baixo) e Franklin Paolillo (bateria). Firmam contrato com a Phillips que exige que o LP fosse assinado assim: Rita Lee & Tutti Frutti. A jovem cantora e compositora estava ganhando projeção individual.

No entanto, logo, durante a gravação do primeiro disco, Lucia deixa a banda. As gravações seguem. Em síntese, todas as canções do disco passaram pela mão de Rita Lee, deixando claro naquele ano que, além de uma bonita cantora, era também uma compositora de rock e que desfrutava da liberdade de gravar o que compunha. É um período em que Rita reinou sozinha no mercado musical, recebendo o título de “rainha do rock brasileiro”. Nas décadas de 80 e 90, surgiriam mais cantoras e compositoras de rock. Embora o disco seja assinado Rita Lee & Tutti Frutti, ela aparece sozinha na capa e nem na contracapa podemos conhecer o rosto de cada um dos rapazes do Tutti Frutti. A cantora e compositora domina a cena envolta pelo “feminino cor-de-rosa”. O suave, dócil e inofensivo cor-de-rosa não está presente nas canções do disco. Há provocação, ruptura, conflito com a figura paterna e a busca de novas sensações e experiências, temas cantados de modo altivo, franco, sem riso e com pouco romantismo.

 

Letra e relações de gênero

Destaco duas canções do disco para pensarmos as representações das relações de gênero, como a narradora está dialogando com o seu parceiro afetivo e como ela olha o mundo para além da relação amorosa, buscando novas experiências sociais. A primeira é Agora só Falta Você, de Rita e Luis Sergio Carlini, que, a despeito do nome, não é uma canção que clama a presença do grande amor. É possível dizer que se trata de uma letra feminista, porque a narradora coloca-se como o sujeito que decide o caminho a ser seguido:

 

A separação do parceiro não é o ponto mais importante, ela é só uma das consequências da verdadeira e mais profunda ruptura efetuada. O primeiro e o segundo versos expressam essa ruptura com o estado atual das coisas – “Um belo dia resolvi mudar/E fazer tudo que eu queria fazer” – o que além de incluir o fim momentâneo da relação amorosa, inclui outras “viradas”, experiências desejadas por ela, independentemente do que pudessem pensar. Temos a representação de uma mulher que toma para si as decisões sobre sua própria vida (“E em tudo que eu faço/Existe um porquê”), vida esta que não se resume ao casamento e à família. Uma outra vida seria construída (“E fui andando sem pensar em voltar”) fora do espaço privado.

 

Rita Lee cantou “me libertei daquela vida vulgar/Que eu levava estando junto a você”, em um contexto em que inexistia a lei do divórcio, que seria aprovada pelo governo do general Ernesto Geisel em 1977, embora, obviamente, ocorressem separações entre os casais. No entanto, ser uma mulher “separada” era motivo de vergonha e de preconceito. A canção batia de frente com esse preconceito, e mostrava às ouvintes atentas a possibilidade de abandonar o casamento ou o namoro e de lutar pelo o que desejava para si.

 

Fruto Proibido, composta por Rita Lee, não foi um hit, como foi Agora só Falta Você, que inclusive ganhou regravações, com Maria Rita, Nando Reis e Pitty. Fruto Proibido provoca a pergunta: O que é o fruto proibido? Por que recorrer a ele? É uma letra bastante objetiva e que vai direto ao ponto: uma mulher que se apropria do que é “proibido”, do que é não aceito pela maioria. E a ela não interessa o que pensem:

 

 

Às vezes, cansada da rotina a que todos somos submetidos, ela recorre a novas sensações e emoções proporcionadas pelo tal “fruto proibido”. Arrisco dizer que ele é uma metáfora para o LSD (ácido lisérgico), era uma droga muito presente na cena de rock dos anos 70 no Brasil. Rita Lee nunca escondeu que fez uso de diferentes drogas, e que certas vezes foi internada para desintoxicação. Em 1976, ela foi presa por porte de maconha e condenada a prisão domiciliar por um ano, ela precisava de autorização da Justiça para fazer shows. A canção desempenhou um papel político importante, o da transgressão da moral conservadora, e na voz de uma mulher – a quem “desvios” no comportamento eram interditos – o “fruto”, seja ele o que for, acaba se transformando em algo ainda mais proibido.

Rita Lee, em seu trabalho como compositora nos anos 70, teve êxito em questionar, tirar sarro e, na medida do possível, romper com as imposições de costumes e de comportamentos ao gênero feminino. Na sua escrita, a mulher é também um ser racional, que luta pelo que deseja, que toma decisões, que tem outras ambições e nada limitadas ao espaço privado e à família e, sobretudo, não é uma mulher dócil e preenchida apenas por romantismo e ansiosa pela chegada do príncipe encantado. É uma mudança fundamental em relação às canções gravadas pela Celly Campello e Wanderléa, e que produziu novas e mais complexas representações do “feminino” na música popular a partir de uma indústria cultural que estava conquistando cada vez mais espaço no cotidiano.

*Érica Ribeiro Magi é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – Unesp e doutoranda em Sociologia na Universidade de São Paulo – USP. É autora do livro Rock and roll é o nosso trabalho: a Legião Urbana do underground ao mainstream (Editora Alameda/Fapesp, 2013). Atualmente é pesquisadora visitante no King’s College London.