A presença árabe no Brasil

Considerando as diversas migrações e etnias na formação da sociedade brasileira, destaque para a expressiva presença árabe na formação social e cultural brasileira

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Adaptação web Caroline Svitras

No século XXI, em tempos de globalização e multiculturalismo, primavera árabe, influência das mídias sociais, globalismo ecológico, do reconhecimento histórico da Palestina admitida como membro pleno na Unesco, e diante da imensa tragédia humanitária que atinge milhares de migrantes da África, Leste Europeu e Oriente Médio, um olhar sociológico sobre o Brasil, híbrido de influências de várias culturas, onde apesar de todos os problemas e contradições formou-se uma sociedade miscigenada a partir de uma complexa e variada composição étnica, originária de distintas fontes migratórias.

 

É inegável o processo de miscigenação da sociedade brasileira, embora nos últimos tempos o processo tenha despertado crítica de alguns segmentos da sociedade, notadamente estudiosos. As críticas variam em seus fundamentos e em intensidade, desde a negação desse processo até a afirmação de que a miscigenação se deu de forma violenta e, portanto, não seria um valor em si, mas uma violência. Os movimentos negros têm sido enfáticos críticos da miscigenação porque veem nela um processo de branqueamento e escamoteamento da identidade negra. Preferem falar, portanto, em multiculturalismo, na defesa de uma cultura negra em relação a outras culturas.

 

A despeito de algumas generalizações abusivas, destacado enquanto um modelo de convivência receptiva nas mais diversas relações entre grupos étnicos e religiosos, o Brasil representa um híbrido de influências de várias culturas. Parece inegável, aos tempos presentes, nosso espírito de tolerância e solidariedade diante de algumas das mais prementes questões contemporâneas que impactam fortemente relações sociais e étnicas em outros países e continentes.

 

Opinião: como alcançar a paz nos países árabes

 

Em nome das gentes árabes, presto homenagem, de modo especial, à memória de meus avós maternos, ambos naturais de Homs, Síria, que imigraram com sua família para o Brasil em fins do século XIX.

 

Relações de raça e de cultura

O Brasil, por apresentar uma grande dimensão territorial, possui vasta diversidade cultural. O renomado antropólogo, sociólogo, escritor Manuel Diégues Júnior (1912-1991), na consagrada obra Etnias e culturas no Brasil, assinala: “Relações de raça e de cultura no Brasil se verificaram desde o instante da descoberta, quando a armada portuguesa de Pedro Álvares Cabral entrou em contato com a terra brasileira e os grupos aborígenes aí encontrados” (DIÉGUES JÚNIOR, 1980, p. 11). Os colonizadores europeus, a população indígena e os escravos africanos foram os primeiros responsáveis pela disseminação cultural no Brasil. Em seguida, os imigrantes italianos, japoneses, alemães, árabes, entre outros, contribuíram para a diversidade cultural do Brasil.

 

Convém sublinhar ao falarmos em cultura brasileira e na sensível influência dos três elementos étnicos formadores do povo brasileiro (o índio, o negro e o português) a diferenciação entre os conceitos de etnia e de raça. Aliás, miscigenação étnica outrora chamada miscigenação racial. O que caracteriza etnia são fatores culturais como tradição, língua, identidade, enquanto que raça são fatores biológicos. É conveniente lembrar, sobretudo, a existência de outra perspectiva interpretativa que se opõe e diverge profundamente do chamado “mito das três raças”, visão que marca fortemente o Brasil, desenvolvido tanto pelo senso comum quanto em obras de autores como o antropólogo Darcy Ribeiro (1913-1997), em que a cultura e a sociedade brasileiras foram constituídas a partir das influências culturais europeia, africana e indígena, minimizando a violência da dominação colonialista sobre os povos indígenas e africanos. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, um intérprete da formação nacional, em Raízes do Brasil fala do homem cordial, do predomínio da passionalidade do caráter brasileiro. Vale notar, contudo, que o escritor tratou da formação do caráter brasileiro, da questão da integração das raças sem a qual não teria sucesso o processo civilizatório, evitando o determinismo racial. A respeito dessa obra, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso expressou: “Entre as obras que mais me marcaram está Raízes do Brasil”. Ali, Sérgio Buarque de Holanda foi mais do que um intérprete da formação nacional. Denunciou as marcas da herança colonial nas estruturas sociais e na psicologia coletiva do Brasil…” (CARDOSO, Fernando Henrique, Folha de S. Paulo, 9/1/2005).

Oriente Médio sob olhares

 

No século XVI, mouros desembarcaram no Brasil junto com os colonizadores, trazendo na bagagem um imenso legado para a cultura brasileira. Lembra o antropólogo Manuel Diégues Júnior que: “…alguns árabes viviam no Brasil desde a época colonial, quando Portugal mantinha relações comerciais com o império otomano”. Na segunda metade do século XIX a imigração árabe se deu de forma bastante acentuada devido ao período de conflitos políticos e econômicos em razão do domínio do Império Otomano na região do Oriente Médio. Segundo Manuel Diégues Júnior, na sua obra Etnias e culturas no Brasil, “(…) sírios, libaneses e turcos aparecem no Brasil na época colonial, pois Portugal mantinha relações com a Síria. A grande emigração para o Brasil, porém, se verificou na segunda metade do século XIX, ou mais especificamente entre 1860 e 1870, continuando até 1890. Daí em diante prosseguiu a entrada de libaneses e sírios, mas em números menores; neste século a imigração síria, libanesa e turca, de modo geral, tem crescido” (DIÉGUES JÚNIOR, 1980, p. 154). Ao contrário dos imigrantes europeus, árabes (sírio-libaneses) não vieram para o Brasil com a perspectiva de trabalhar nas lavouras de café, mas nas cidades e no comércio. O emprego em lavouras também ocorreu, mas de forma menos expressiva que dos europeus.

 

História brasileira

A respeito da imigração árabe, estudos revelam que o imperador D. Pedro II, que falava árabe, visitou Beirute e Damasco em 1876. Em Damasco, o imperador escreveu um poema, que enviou ao Visconde de Taunay, onde ressaltava: “Damasco dos milênios, berço da civilização, e quem a construiu ajudará a construir o Brasil”. Alguns historiadores destacam que, a partir da visita do imperador, a imigração árabe se intensificou e muitos imigrantes chegaram a São Paulo pelo porto de Santos.

 

No século XXI, num período de profunda crise do capitalismo, o fenômeno da imigração tem refletido, em diversas sociedades onde o desemprego atinge números consideráveis, formas de exclusão social, xenofobia e até racismo. Em vários países da Europa, migrantes passam a ser vistos como algo indesejável. Vale lembrar a recente e imensa tragédia humanitária que atingiu milhares de migrantes, notadamente da África e do Oriente Médio, desaparecidos no Mediterrâneo, em embarcações precaríssimas, tentando chegar clandestinamente à Europa, órfãos da globalização, provocando uma indignação global que se estendeu pelo planeta através das redes sociais, do ativismo cibernético, pautando a crítica às formas de intolerância, preconceitos e estereótipos relativos a diferenças culturais, étnicas, religiosas.

 

Zakie Narchi e Issa Sanandaj, ambos naturais da cidade de Homs, Síria, imigraram com sua família para o Brasil em fins do século XIX. Chegaram ao Brasil em agosto de 1910, no vapor Márcia, desembarcando no porto de Santos e permanecendo no país em caráter permanente

 

Neste século, a migração entendida como o deslocamento de contingentes populacionais de uma região para outra ou de um país para outro, por razões econômicas, políticas ou culturais, assume novas formas. Na Europa, tem as marcas do fim do bloco soviético (1991), e a abertura das fronteiras dos antigos países comunistas também ajudou a fomentar o movimento migratório, à medida que essas pessoas passaram a ter liberdade para deixar os seus países. Além dessa dimensão, nos dias de hoje, o tema da imigração tem se reportado mais aos fluxos de populações, que para fugirem de situações de guerra ou repressão no país de origem, como perseguições religiosas, assédio moral, opressão, genocídio ou ditaduras, têm buscado principalmente o continente europeu.

 

A volta da Guerra Fria

 

Desde o século passado, sociólogos norte-americanos colocaram a migração como um problema sociológico. O tema da migração tem se tornado um dos temas mais discutidos globalmente por diversos setores da sociedade. A história nos revela que as sociedades não são estáticas, ao contrário, estão em permanente mudança. No âmbito da Internacional Sociological Association, organização científica que agrega sociólogos e sociedades científicas nacionais de Sociologia de diferentes países, o tema da migração compõe um importante grupo de pesquisa (sociology of migration, RC 31) estabelecido em 1972. É importante salientar que a Internacional Sociological Association, historicamente, tem nas suas origens a marca da luta contra a intolerância racial. A propósito, destaco: “Nos anos de 1948 e 1949, em um período de profunda crise da civilização ocidental, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) patrocinou uma série de reuniões com renomados sociólogos de diferentes países visando a constituição de instituição internacional de Sociologia como parte dos esforços da agência internacional contra a intolerância racial” (MATTOS, 2008, p. 14).

 

 

 

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo (ss.mattos@uol.com.br)

Fotos: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 38