A quem serve a Sociologia Clínica?

A quem compreender a profunda interação entre a psique humana e os fenômenos sociais (e que melhor uso fizer desse conhecimento)

Por Jussara Goyano* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A Filosofia empresta seus autores aos diversos saberes empregados no estudo de manifestações humanas, sejam eles (os saberes) apreendidos do ponto de vista de nossa subjetividade, a partir de nossa produção/organização coletiva ou do entendimento de nossa história. As bases das teorias que apoiam esse estudo são consistentemente filosóficas, fontes nas quais beberam psicólogos, psicanalistas, sociólogos, antropólogos e outros pesquisadores das humanidades e ciências sociais.

 

É assim que parte das obras de pensadores como Gabriel Tarde, Edgar Morin e mesmo de Émile Durkheim é utilizada em áreas do conhecimento com objetos distintos de análise. De um lado a Psicologia, acostumada a lançar seus olhares sobre indivíduos, apropria-se de conceitos para entender o sujeito em um determinado contexto social que o influencia. De outro, a Sociologia, que se ocupa em compreender os fenômenos comuns aos grupos, utiliza-os para entender como o coletivo é determinado, de certa forma, pela psique de seus membros.

 

Da necessidade de compreender a interação entre subjetividade e sociedade nasceu a Sociologia Clínica, de origem franco-lusófona (França, Bélgica e Canadá), no final do século XX. Trata-se de um movimento científico direcionado a cientistas menos preocupados em manter uma identidade disciplinar, mas com uma ética própria de pesquisa no ofício de entender a intrincada relação entre o psiquismo e os fenômenos sociais.

 

O papel das religiões na atualidade

 

Talvez por isso, há quem considere esse movimento uma zona cinzenta entre Psicologia e Sociologia, com a existência de uma Psicossociologia e da Psicologia Social e, então, da presente abordagem clínica.

 

A visão que se tem da Sociologia Clínica leva em conta, ainda, o fato de que o sociólogo clínico não só sai a campo como faz intervenções, quando há demanda, evidenciando e influenciando os processos e interações entre os campos da subjetividade e da produção social em grupos e instituições. A dimensão prática da Sociologia, neste caso, é alvo de críticas.

 

Do desamparo ao esquecimento

 

Sem tomar a Sociologia Clínica como algo que integra um pensamento complexo, interdisciplinar, é impossível compreender sua utilidade. Nesse contexto científico, ela servirá para entender o processo pelo qual o indivíduo dá sentido social à sua existência, e também como, a partir desse sentido, a sociedade se forma e se desenvolve. Entendimento indispensável a ambas as ciências: Sociologia e Psicologia.

 

Vemos essa relação muito próxima, por exemplo, na compreensão e no alcance social de determinada religião, que depende do entendimento do sentido atribuído à fé e à doutrina por uma sociedade ou grupo religioso. Da mesma forma que, para compreender a psique de um indivíduo, às vezes é preciso entender o papel da fé em sua vida e como isso se manifesta em suas relações sociais.

 

A mercantilização do prazer

 

Sendo assim, quando indagado a “quem serve a Sociologia Clínica?”, respondo, sem pestanejar: àquele que melhor compreender a profunda interação entre a psique humana e os fenômenos sociais (e que melhor uso fizer desse conhecimento, seja na produção teórica ou no trabalho com desenvolvimento humano e/ou social).

 

*Jussara Goyano é jornalista e coach. Coordenou a criação de publicações voltadas à divulgação de ciências humanas (Psique, Filosofia e Sociologia Ciência&Vida, da editora Escala). É editora-chefe da revista alemã GEO no Brasil. Chefia a Ponto A, agência de comunicação, conteúdo e desenvolvimento humano.

Foto: Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 44