A regulação da mídia e a sociedade da comunicação

Laurindo Leal Filho comenta sua trajetória, da experiência em uma TV estatal à criação da Empresa Brasileira de Comunicação

Por Lejeune Mirhan | Foto: Arquivo Pessoal

Nesta edição entrevistamos um colega sociólogo que talvez seja o mais ou um dos mais renomados estudiosos da Sociologia da Comunicação no Brasil. Trata-se do sociólogo Laurindo Leal Filho, mais conhecido como Lalo. Ele foi professor da PUC de São Paulo por 15 anos.  Lalo também é jornalista e atuou profissionalmente nessa condição, tendo passado por importantes redações no país. Autor de diversos livros que serão comentados nesta entrevista, ele hoje tem um programa na TV Brasil, onde se discute semanalmente de maneira crítica o papel da televisão brasileira. Ajudou a criar, no governo Lula, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), da qual foi seu primeiro ouvidor geral. O professor Laurindo teve atuação marcante no movimento sindical brasileiro, participando da fundação do Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior – Andes, tendo sido seu vice-presidente na primeira diretoria. Foi também diretor do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, bem como da Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas.  Trabalhou na TV Cultura na época em que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo. Dirigiu ainda o Jornal da Band, da Rede Bandeirantes de Televisão. No início dos anos 1990 foi secretário de Lazer, Esportes e Recreação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina. Laurindo Leal Filho, além de sociólogo, jornalista e professor, é escritor.

TV Cultura de São Paulo, segundo Lalo, “a mais bem-acabada experiência de TV pública no Brasil, ainda que incompleta” | Foto Wikipedia;Creative Commons

Fale-nos sobre a sua trajetória intelectual e o que o levou a cursar Ciências Sociais e vir a ser um sociólogo?

Acredito que a inquietação com o mundo é o despertar para a Sociologia. E essa inquietação foi surgindo aos poucos, desde as leituras da infância, concretizando- se no antigo ginásio, onde um excelente professor de História, professor Orville, ofereceu a base necessária para sustentar a escolha do caminho. Já profissional do jornalismo, na área esportiva, não me contentava com as limitações intelectuais impostas pela profissão. A inquietação era grande, ainda mais no final dos anos 1960, com o mundo em ebulição. As Ciências Sociais, na USP, apresentavam- se como o caminho para a ampliação de horizontes e lá fui – depois de passar pelo famoso cursinho do Grêmio – encontrar as ferramentas necessárias para compreender melhor o mundo que nos cerca. Antes mesmo de formado fui convidado para atuar como monitor na disciplina Metodologia Científica, do Curso Básico da PUC de São Paulo, uma experiência revolucionária de ensino e pesquisa que procurava articular toda a estrutura acadêmica, desde o primeiro ano da graduação até os mais elevados níveis da pós-graduação, através de um projeto cujo eixo central fundamentava-se numa visão crítica da sociedade contemporânea.

Até hoje me pego utilizando conceitos e práticas aprendidos no Ciclo Básico, do qual fui posteriormente professor, em minhas aulas, bancas e palestras. Essa experiência na Metodologia Científica, além de me formar na prática como docente, forneceu instrumentos que me deram maior segurança em meus trabalhos posteriores de pesquisa. Se a sociedade de uma forma geral me inquietava, a comunicação provocava uma inquietação particular oriunda da minha atuação como jornalista. Percebia claramente o poder dos meios de comunicação como um fator-chave na organização da sociedade, com uma visão especial, formulada a partir do próprio interior desses meios. Cabia à Sociologia, na minha percepção, desvendar esse poder e assumi,ainda na PUC/SP, a tarefa de realizar esse trabalho. Passei a trazer a minha experiência jornalística para a bancada da pesquisa, algo que – de certa forma – sigo fazendo até hoje.

Das 17 áreas em que atuam os so­ciólogos, que apontei no meu úl­timo livro, uma delas é a do pro­fissional que atua nos meios de comunicação e faz análise de conteúdo, até mesmo trabalhando como pesquisador in­dependente. Um dos seus prin­cipais livros intitula-­se atrás das câmeras, no qual você aborda a relação entre o estado, a cultura e a televisão. Poderia nos falar, de forma re­sumida, dessa relação?

O livro é resultado de uma pesquisa de mestrado realizada sobre a TV Cultura de São Paulo, sob a orientação do professor Octavio Ianni. Trabalhei durante oito anos como jornalista daquela emissora e vivi um dos seus momentos mais dramáticos com a perseguição pela ditadura de vários profissionais da empresa, entre eles o diretor de Jornalismo Vladimir Herzog, assassinado pelos militares. Percebi que ali seria possível observar, ainda que de forma impressionista, as disputas que se travavam na sociedade como um todo. Restava analisar esse fenômeno de forma sistematizada, levando-me a realizar a pesquisa.

A televisão, naquele momento, já se consagrava como o mais poderoso meio de comunicação de massas, assumindo no Brasil um papel político central. O controle desse veículo estava hegemonicamente nas mãos de empresas privadas cujo ideário sempre acompanhou os interesses dos setores dominantes, política e economicamente, da sociedade. A TV Cultura de São Paulo era uma exceção por ser uma emissora pública, ainda que dependente do Estado, sendo dirigida por uma fundação de direito privado, o que dava a ela certa independência editorial. É nesse campo que pode-se perceber, ainda que num microcosmo, não apenas as disputas em torno do poder – tendo o Estado como referência – mas também as formas de ver, produzir e transmitir cultura, no sentido mais amplo do termo.

Foi possível descobrir por meio da pesquisa como determinados setores da sociedade buscavam através da televisão pública levar à sociedade suas ideias e ações a respeito da cultura, de um lado elitista, de outro popular ou até popularesca. E como tudo isso refletia projetos e visões de mundo conflitantes entre o autoritarismo a democracia. A singularidade maior está no fato de que, em determinado momento, tentou-se fazer uma televisão pública independente do Estado, democrática, em meio a um dos períodos mais autoritários vividos pelo país. O livro tenta dar alguma racionalidade a esse caos.

A ponte Westminster e o Big Ben, Reino Unido, Europa: lá o órgão regulador da mídia
eletrônica abre para toda a sociedade a possibilidade de que ela se manifeste sobre
aquilo que os meios de comunicação oferecem | Foto 123RF

Um outro livro de sua autoria é a melhor TV do mundo, no qual você se aprofunda no funciona­ mento da BBC de Londres. Sabe­mos que essa rede de comunica­ção, que tem vínculo direto com o estado inglês, pratica um jor­nalismo equilibrado, completa­mente diferente do que vemos no brasil. A Inglaterra talvez seja o país onde se tem o maior número de jornais mais equi­librados, como The Guardian, The Independent, entre outros. Fale-­nos sobre essa obra.

Depois do trabalho que teve como eixo a TV Cultura de São Paulo, a mais bem-acabada experiência de TV pública no Brasil, ainda que incompleta, só me restava buscar – para seguir na mesma  linha – o modelo mais bem-acabado de TV pública existente no mundo, o da BBC. Com uma bolsa do CNPq parti para o Reino Unido com um projeto de estudar o modelo institucional daquela corporação, consagrada internacionalmente como a melhor TV do mundo. Fiquei por lá um ano e meio num pós-doutorado realizado no Goldsmith College, da Universidade de Londres. As surpresas começaram a surgir logo após as primeiras leituras e entrevistas realizadas para a pesquisa.

Comecei a perceber, naquele momento, que a questão por mim formulada deveria ser substancialmente ampliada. A BBC era, na verdade, apenas parte de um modelo institucional muito maior, criado na segunda década do século XX, dentro da construção do Estado de Bem-Estar Social que engloba atualmente não apenas a corporação pública mas todo o sistema de comunicação eletrônica existente no país. É um modelo onde sempre estiveram presentes diferentes órgãos reguladores, capazes de garantir a pluralidade de vozes em circulação na sociedade e a efetiva participação dos cidadãos no debate sobre os conteúdos veiculados.

Conteúdos que estão frequentemente em debate, seja nas próprias emissoras, nos jornais e revistas e particularmente no Parlamento, onde periodicamente formam-se comissões para avaliar e propor alternativas aos serviços prestados pelos meios eletrônicos de comunicação. A academia tem também papel relevante com ampla produção sobre o tema. O importante foi ressaltar a existência de canais institucionais capazes de ligar as demandas da sociedade ao poder dos controladores dos meios de comunicação. Trata-se de uma real limitação desse poder que, no caso brasileiro, é absoluto.

Descobri no Reino Unido a importância desses canais como forma de democratização da mídia. Hoje o órgão regulador da mídia eletrônica, o Ofcom, abre para toda a sociedade a possibilidade de que ela se manifeste sobre aquilo que os meios oferecem e, caso necessário, determina mudanças e reformulações de conteúdos É preciso ressaltar que rádio e TV são concessões públicas, outorgadas pelo Estado em nome da sociedade e, por isso, devem estar constantemente sob escrutínio público. No Brasil, onde as concessões para o rádio são de 10 anos e as de televisão de 15, pouquíssima gente tem esse tipo de informação e as concessões são renovadas burocraticamente sem nenhuma avaliação sobre a qualidade do serviço prestado. Tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos e vários outros países de democracias consolidadas, concessionários mal avaliados ao final do período concedido não têm as concessões renovadas e são tranquilamente substituídos por outros. Aqui esse procedimento seria chamado de “censura” pelos donos da mídia. Outra aberração do modelo brasileiro, inconcebível naquelas democracias, é o controle de emissoras de rádio e TV por agentes políticos que usam esses meios em causa própria, distorcendo a seu favor o jogo democrático e, por consequência, os resultados eleitorais. Busquei no livro trazer a experiência britânica para o Brasil na esperança de estimular por aqui o debate em torno da possibilidade de criarmos formas mais democráticas para o uso desses meios de comunicação.

 

Franklin Martins e a tentativa de regulamentar a imprensa: síndrome “Jango” e medo
do golpe impedem incisiva a grupos de mídia no Brasil | Foto Wikepedia

Nos oito anos do governo do presidente Lula, através do jor­nalista Franklin Martins, foi tentada a elaboração de uma lei de regulamentação da mídia, que prontamente foi acusada por ela mesma de “censura”. Nos parece que se procurava um equilíbrio das propriedades dos meios de comunicação de massa. A Rede Globo, por exemplo, além da TV, possui rádios, vários jor­nais, uma empresa de filmes, uma editora e o portal globo.com. Quais eram, no geral, as propostas desse projeto de lei e por que não conseguimos vê-­lo apro­vado nos moldes do que existe em muitos países, como na pró­pria Inglaterra?
Esse ante-projeto que você menciona foi apenas mais um de cerca de 12 formulados pelo Executivo, desde a vigência da Constituição de 1988, e que nunca chegaram a ser levados em frente para uma discussão com a sociedade e a deliberação do Congresso. Costumo dizer que a “síndrome Jango” impede os governantes de proporem regras para o funcionamento da comunicação eletrônica do país. Todos eles têm clareza de que esses meios foram decisivos na articulação e execução do golpe de 1964 e temem ter o mesmo destino do presidente João Goulart se fi zerem qualquer gesto que contrarie os donos da mídia no Brasil.

Quanto ao projeto mais recente, elaborado pelo grupo formado em torno do ministro Franklin Martins e entregue por ele à presidenta Dilma Rousseff, pouco se sabe do seu conteúdo. Pode-se, no entanto, inferir que as propostas nele contidas – e também em projetos anteriores – visam simplesmente legalizar as determinações contidas no Capítulo da Constituição Federal que trata da Comunicação Social. Ali é dito por exemplo que os meios de comunicação não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. Ora, na sua pergunta já há um exemplo claro de oligopólio. Um dos objetivos centrais de uma lei democrática de comunicação eletrônica é romper com isso, dividindo o espectro por onde circulam as ondas de rádio e TV entre emissoras privadas, públicas e estatais, que devem atuar de forma complementar, como está claro na Constituição. Outra questão importante é a regionalização da programação, com a obrigatoriedade de espaços definidos para programas produzidos fora do eixo Rio–São Paulo. É outra determinação constitucional ignorada até aqui. Recentemente o notório senador Romero Jucá, ele mesmo concessionário de emissora de TV, resolveu a seu modo regular o artigo da Constituição que trata da regionalização da programação e, com a desfaçatez que o caracteriza, incluiu como regionais programas esportivos, políticos e religiosos, descaracterizando por completo o sentido que os legisladores quiseram dar ao tema em 1988. Pelo que sei o projeto não andou e a ideia da regionalização continua desregulada. É menos ruim ficar dessa forma do que ser regulada pelo Jucá. A Constituição determina também que a programação das emissoras de rádio e de televisão  deve dar preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas. Fico a me perguntar, por exemplo, como programas policialescos que diariamente exacerbam a violência, ridicularizam pessoas de alguma forma fragilizadas e incitam o ódio podem se enquadrar no dispositivo constitucional mencionado. Esses programas, pode-se concluir, são inconstitucionais, além de ferirem inúmeras outras leis e acordos internacionais firmados  elo Brasil, como bem demonstrou recentemente uma pesquisa realizada pelo Instituto Andi-Comunicação e Direitos. Como disse, infelizmente qualquer proposta que vise normatizar de forma democrática os serviços de rádio e TV é sempre tachada de “censura” por aqueles que detêm atualmente o controle desses meios. Na verdade, quem exerce a censura real são eles ao imporem ao país uma agenda de pensamento único que exclui qualquer ideia que não se enquadre entre os seus interesses políticos e econômicos.

Na BBC, de Londres (imagem), ocorre “o modelo mais bem-acabado de TV pública
existente no mundo”, diz Lalo | Foto 123RF

Além do livro A Melhor TV do Mundo, já mencionado, você es­creveu outro sobre a histó­ria do serviço brasileiro da BBC, chamado Vozes de Lon­dres. Você poderia nos falar um pouco sobre ele?

Foi uma experiência extraordinária, onde a mão do jornalista e sociólogo foi decisiva para realizar um relato histórico sobre um tema inédito no Brasil. Desde a minha primeira ida a Londres, nos anos 1960, sempre mantive algum contato com o Serviço Brasileiro da BBC e por aqui, quando possível, sintonizava a emissora em ondas curtas. Desses contatos veio a clareza da importância de serviço para o Brasil especialmente em dois momentos dramáticos de nossa história: a Segunda Guerra Mundial e a ditadura militar imposta a partir de 1964. Nesses dois momentos, o noticiário em português transmitido dos estúdios de Londres era vital para que entendêssemos, no primeiro caso, o que estava realmente ocorrendo no mundo, numa época em que as comunicações em
tempo real ainda eram muito difíceis e, no segundo caso, porque a censura impedia o brasileiro de saber o que estava ocorrendo no seu próprio país. O Serviço Brasileiro da BBC preenchia essas lacunas e julguei importante contar essa história. É uma história fascinante. Vasculhei os arquivos da BBC, entrevistei personagens importantes, um deles já na casa dos 90 anos, fui atrás da bibliografia sobre a emissora e consegui ao final traçar não só um panorama histórico do Serviço Brasileiro, que está na primeira parte do livro, mas agreguei também depoimentos da vida de personagens como Antonio Callado e Vinicius de Moraes, por exemplo, além de ao final traduzir e adaptar os princípios editoriais da BBC na esperança de que eles um dia possam contaminar positivamente as redações brasileiras. É importante lembrar algumas outras figuras mencionadas no livro como Chico Buarque de Hollanda, dom Helder Câmara, Assis Chateaubriand,  Maria Della Costa, Emerson Fittipaldi, Gilberto Freyre, Vladimir Herzog, Isaac Karabtchevsky, Ivan Lessa, Jader Oliveira, Chico Mendes, Carmen Miranda, Pelé, Jânio Quadros, Ieda Maria Vargas, Caetano Veloso, Samuel Wainer, entre tantos outros brasileiros que, como entrevistados ou entrevistadores, falaram para o Brasil através da BBC. Algumas dessas vozes eram impedidas de falar através da mídia brasileira, como a de dom Helder [Câmara, bispo católico brasileiro], perseguido pelo regime e que de Londres denunciou as torturas praticadas em nosso país. Outro exemplo da importância desse serviço foi a cobertura da viagem do ditador Ernesto Geisel a Londres, louvada pelas emissoras no Brasil, com a Globo à frente. A BBC relatou com precisão os protestos verifi cados nas ruas por onde passou a comitiva brasileira. O livro foi publicado pela Edusp e contou com o apoio do Serviço Brasileiro da BBC sem que ele interferisse no conteúdo do trabalho.

 

Vivemos hoje em um mundo com­pletamente submetido ao mo­delo de capitalismo financeiro, chamado de neoliberalismo. São muitos os pesquisadores estu­diosos desse tema que afirmam ser impossível conviver com esse modelo e uma democracia. Na Europa temos visto o cresci­mento das ideologias de direita, paralelo com a crise econô­mica internacional. Temos visto tentativas de golpe de forma crescente, sendo que na América Latina na Guatemala, Honduras e em nosso próprio país com o afastamento da presi­denta Dilma. Mais recentemente na turquia. Como você vê esses acontecimentos em escala global?

Se formos buscar um ponto de inflexão histórica como determinante para o início desse drama que a humanidade vive atualmente podemos encontrá-lo nos anos 1980, com a combinação nefasta da tomada do poder no Reino Unido e nos Estados Unidos por duas figuras que encarnaram a concretização do neoliberalismo, disseminando-o pelo mundo, Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Foi o início do fim de um período relativamente virtuoso fundado nos escombros da Segunda Guerra Mundial, cujo ciclo esgotava-se. O mundo bipolar sustentado precariamente na disputa pela hegemonia global entre Estados Unidos e União Soviética chegava ao fim. Embora não fosse de maneira nenhuma o fim da história era, na verdade, o epílogo de um capítulo. A partir aí o pensamento único espalhou-se pelo mundo e teve apenas um pequeno respiro aqui entre nós, na América Latina, na primeira década do século XXI. Lembro de estudantes e professores europeus entusiasmados com os eventos em nosso continente, capazes de se contrapor à pasmaceira conservadora vivida pela Europa. Aqui governos populares, da Venezuela de Chávez à Argentina dos Kirchner, passando por Equador, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia, mostravam que um outro mundo era possível. Durou pouco. A América Latina não podia ser uma ilha progressista num mundo conservador, com o poder de dominá-la. A derrocada começou com Honduras, passou pelo Paraguai e chegou ao Brasil em ações nitidamente golpistas. E se estendeu, de maneira legal, pela Argentina.

A participação dos meios de comunicação de massa nesse processo é fundamental. Mesmo na Europa e nos Estados Unidos, onde a pluralidade de meios ainda é razoável, aqueles comprometidos com a sustentação das políticas neoliberais conseguem contaminar o debate, arrastando com eles grandes camadas da população. A recente campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia e o crescimento da candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos são evidências dessa  situação. A crise econômica que abalou o mundo a partir dos anos 2000 acabou gerando desdobramentos políticos e sociais que continuam produzindo efeitos, como esses dois exemplos citados. E a mídia de direita explora bem a situação atribuindo os problemas sentidos pela população a sentimentos latentes na sociedade que, com a crise, passam a ser expostos exaustivamente, como a rejeição aos imigrantes. Ela amplia a voz dos líderes desses movimentos como no caso do Reino Unido, onde mentiras foram usadas na campanha pela saída da União Europeia e divulgadas sem objeção pelos meios conservadores. Chegou-se a afirmar que recursos destinados à Europa pelos britânicos poderiam ser usados para manter e ampliar o serviço nacional de saúde, sem que houvesse fundamentação para tanto. Se isso ocorre em países, como disse, onde há uma razoável pluralidade de ideias, onde ela não existe, como no Brasil, a situação torna-se dramática. O jornalista Glenn Greenwald traçou o melhor retrato da mídia brasileira ao fazer uma comparação hipotética com o que poderia ocorrer nos Estados Unidos se todos os meios de comunicação adotassem a linha editorial conservadora da Fox. É isso que ocorre no Brasil. Há apenas um tipo de pensamento circulando pelo país através da mídia, um pensamento conservador que não deixa nenhum espaço para qualquer alternativa. É esse tipo de pensamento, amplificado pela mídia, que levou às ruas multidões vociferando contra o governo eleito da presidenta Dilma Roussef. A mídia no Brasil transformou-se no principal partido de oposição aos governos Lula e Dilma e quem disse isso foi a própria presidente da Associação Nacional de Jornais, entidade que reúne os proprietários desses meios de comunicação.

Como lembra Lalo, o jornalista estadunidense Glenn Greenwald traçou um retrato da imprensa brasileira: seria mais ou menos como se, nos EUA, todas as emissoras adotassem a linha conservadora da Fox | Foto Wikepedia

Independentemente do desfecho da votação do impedimento da presidente Dilma, o fato é que parece que vivemos uma crise profunda na forma “partido”, como organização que objetiva chegar ao poder pelo voto popu­lar. Temos uma pulverização de siglas ‑ cerca de 35 registradas no TSE ‑, sendo a maioria delas sem qualquer significado. Pa­rece­-nos que vivemos um esgota­mento de um modelo e de uma cul­tura política que já não vigora mais na maioria dos países. Aqui vota­-se na pessoa e não no par­tido. Até pouco tempo o financia mento eleitoral era quase que exclusivamente empresarial. As esquerdas e mesmo setores de centro têm defendido finan­ciamento público associado ao voto em listas pré­ordenadas partidárias ou de federações ou frentes partidárias. Qual sua opinião sobre isso e que outras alternativas você enxerga para nosso país em perspectiva de curto prazo ‑ 2018, por exemplo.

O ciclo democrático instaurado sob as normas da Constituição de 1988 foi profundamente abalado. Os espaços de participação política por ela consagrados foram cooptados por forças antidemocráticas. O caso mais nítido é o do Congresso Nacional ocupado em sua maioria por parlamentares destituídos de qualquer compromisso com as causas públicas, levados ao poder por grupos econômicos interessados em manter o Estado a serviço de interesses privados. A tão necessária reforma política que deveria complementar os avanços sociais obtidos através da Carta de 1988 tem sido bloqueada por esses grupos. A facilidade com que se registram partidos políticos em nosso país, a quase totalidade imaginar como ele se potencializa nas altas esferas da República. A cooptação do Legislativo acima citada é também resultado do descaso com que ele passou a ser tratado pelos partidos de esquerda, especialmente pelo PT. A fixação em torno das disputas majoritárias fragilizou a luta pela formação de bancadas parlamentares de esquerda capazes de dar sustentação aos governos populares. E como em política não existem espaços vazios, eles foram rapidamente ocupados pelos partidos fisiológicos, cujo poder tornou-se tão forte a ponto de realizar um golpe de Estado. Na minha opinião, a reversão desse quadro só será possível a médio e a longo prazo com o surgimento e a consolidação de novas forças populares, enraizadas nas bases da nossa sociedade. Nesse sentido vejo com otimismo movimentos que agora se mobilizam nas ruas contra o golpe, com a participação também de jovens que vão além e lutam contra as arbitrariedades cometidas por governos estaduais, tendo como melhores exemplo os movimentos dos secundaristas em São Paulo e no Rio Grande do Sul, entre outros. A esperança de dias melhores vem daí.

 

Para finalizar, queríamos que você nos falasse sobre esse es­paço de trabalho dos sociólo­gos nos meios de comunicação de massa. Qual o tamanho disso em termos do número de colegas que temos nessa área e o que fa­zem no seu dia a dia?
Tive vários colegas na graduação que já eram jornalistas ou vieram a se tornar profissionais dessa área, vários deles muito bem-sucedidos. Tenho convicção da importância das Ciências Sociais para tornar o trabalho jornalístico mais sólido e aprofundado. Defendo a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão por dois motivos: primeiro a necessidade do contato com esse tipo de trabalho sem a contaminação das imposições empresariais e também por retirar das empresas o poder de determinar quem é ou quem não é jornalista na medida em que o diploma tem a chancela do Estado, dando a ele um caráter público. Mas a essa formação, sempre que possível, é necessário agregar outras formas de conhecimento e, nesse sentido, as Ciências Sociais são determinantes para um crescimento da qualificação profissional do jornalista sem representação real de pensamentos e propostas existentes na sociedade, é uma afronta à democracia.

Lejeune Mirhan é escritor, arabista, professor universitário e sociólogo desde 1981. Fez o curso de mestrado em Filoso a pela PUCC e especialização em Política Internacional pela USP. Lecionou Sociologia, Ciência Política e Métodos e Técnicas de Pesquisa na Universidade Metodista de Piracicaba de 1986 até 2006. É autor de nove livros nas áreas de Sociologia e de Política Internacional. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (2007-2010) e a Federação Nacional dos Sociólogos (1996-2002). Recebe e-mail no endereço: lejeunemgxc@uol.com.br

 

Revista Sociologia Ed 66