A rua tomada pelo povo

Livros e artigos, de distintas tradições teóricas, revitalizam o saber sociológico na interpretação e análise das manifestações sociais e buscam responder as várias fontes de insatisfação que impulsionaram as manifestações protagonizadas por jovens indignados, descrentes das virtudes do poder político

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Foto:  Fernando Frazão/ABR | Adaptação web Caroline Svitras

 

Uma onda de protestos ganhou as ruas e praças do Brasil e mobilizou o debate do País. Estudos que trazem à tona a questão dos movimentos sociais e o impacto na democracia fazem parte da antiga tradição brasileira nas reflexões sociológicas e abordagens interdisciplinares.

 
Na literatura sociológica, os movimentos sociais são temas recorrentes e uma questão exaustivamente debatida pelas Ciências Sociais. Historicamente, lembra o sociólogo Sidney G. Tarrow que “(…) os movimentos sociais surgem como expansão da atividade política a partir do século XIX, defendendo interesses próprios, a fim de provocar mudanças institucionais, utilizando-se de formas de organização e atuação não convencionais, ou seja, passeatas, atos de violência, protestos etc”. (Tarrow: 1994).

 
Na história da Sociologia no Brasil, ao tratar dos movimentos sociais e da democratização do Estado brasileiro, diversos autores que tematizam sobre os movimentos sociais deixaram suas marcas e influências nos estudos e pesquisas, como ilustram as contribuições de Florestan Fernandes, com Mudanças Sociais no Brasil (1974); de Maria da Gloria Gohn, com Sociologia dos Movimentos Sociais (1997) e Movimentos e Lutas Sociais na História do Brasil (1995); de Ilse Sherer Warren, com Redes de Movimentos Sociais (1996); de Eder Sader, com Quando Novos Personagens Entraram em Cena: Experiências e Lutas dos Trabalhadores da Grande São Paulo 1970-1980 (1988). No âmbito teórico-metodológico, vale sublinhar a obra de Maria da Glória Gohn, sobretudo seu livro Teoria dos Movimentos Sociais (1997), onde a autora realiza um itinerário histórico-conceitual de diferentes paradigmas, tais como o paradigma europeu, o americano e latino-americano, que caracterizam diferentes autores e obras nas análises sobre movimentos sociais. Vale lembrar, ainda, a respeito dos autores que tematizam sobre os movimentos sociais no Brasil, a obra organizada por Emir SaderMovimentos Sociais na Transição Democrática (1987) que reúne textos de Hamilton B. Cardoso, Heleith Iara Bongiovanni Saffioti, Lucia Lippi Oliveira, Maria da Conceição D’Incao, Moacir Rodrigues Botelho, Pedro R. Jacobi, e trata de movimentos que, de alguma forma, impulsionaram mudanças na sociedade brasileira.

 

O que há por trás do ato de protestar?

 
Muita generalidade já se escreveu a respeito das manifestações de junho no Brasil. Não é nossa intenção retornar ao tema, mas, somente, assinalar que na literatura sociológica alguns trabalhos recentes sobre as manifestações e protestos de junho, publicados em livros e no formato digital, contribuem para a compreensão do importante momento histórico brasileiro. Neste artigo, de forma apenas sugestiva e didática, apresentamos alguns trabalhos. Os autores selecionados não foram, evidentemente, os únicos a fazerem uma interpretação das manifestações sociais de junho. Muitos outros igualmente fizeram. Em outras palavras, a lista que segue está longe de esgotar as possibilidades. Nada impede que o leitor imagine a sua própria lista.

 

Obra indispensável à compreensão das manifestações sociais, Cidades Rebeldes: Passe Livre e as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil é uma coletânea que reúne 16 artigos de renomados intelectuais | Foto: Divulgação

 
Começarei por lembrar, a obra Cidades Rebeldes: O Passe Livre e as Manifestações. Nesta obra coletiva, essencial para compreender as manifestações de junho no Brasil, os autores buscam responder as várias fontes de insatisfação que impulsionaram as manifestações. Trata-se de uma coletânea com 16 artigos de alguns dos mais representativos autores das ciências sociais, que analisam as manifestações no país. Esta é uma notável coleção de ensaios escritos por respeitáveis intelectuais, como Carlos Vainer, David Harvey, Ermínia Maricato, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira, João Alexandre Peschanski, Jorge Souto Maior, Leonardo Sakamoto, Lincoln Secco, Mauro Iasi, Mike Davis, Ruy Braga, Silvia Viana, Raquel Rolnik, Slavoj Žižek e Venício Artur de Lima. O Movimento Passe Livre e Mídia Ninja também participam do livro. A obra traz, também, um artigo assinado pelo Movimento Passe Livre. É louvável a iniciativa da Boitempo editorial de publicar um livro de intervenção. Não há duvida que ao abordar questões como crise nos modelos de representação política, direito social, mobilidade urbana, espaço urbano, democracia e mídia, entre outros temas, o livro busca responder as várias fontes de insatisfação que impulsionaram as manifestações.

 

Entenda a luta do MTST

 

 

Desilusão

Outro ensaio interpretativo bastante sugestivo para compreensão dos protestos motivados pela desilusão com as instituições políticas é Choque de democracia: razões da revolta. A contribuição de Marcus Nobre, professor e filósofo da Unicamp, com a publicação da obra, é uma valiosa contribuição para a reflexão das manifestações sociais de protestos. Reconhecido nos EUA por instant books, livros feitos em tempo recorde para tratar de um fato de grande destaque na sociedade, a obra inaugura o novo gênero editorial no país e abre a série dos instant e-books da Companhia das Letras. A obra é uma análise baseada em pesquisas e resultado da tese do autor sobre o esgotamento do modelo de democracia representativa e a blindagem política gerada pelo ‘peemebedismo’, uma espécie de cultura política associada a negociações, barganhas, e avessas ao debate público. Para o autor, as recentes manifestações e protestos no Brasil, representam “(…) um processo de aprendizado e uma reação ao estado de acomodação” (Cf. “Livro faz retrato de protestos de rua”, Correio Popular, 9/7/2013, Campinas).

 
Outra obra fundamental para os leitores que buscam compreender os protestos por meio de uma leitura estética, da linguagem, dos sistemas de representações e dos cartazes, é Estética da Multidão, de Bárbara Szaniecki. No Brasil, os protestos revelaram uma característica muito especial dos novos tempos: jovens de classe média descrentes das virtudes do poder político, com criatividade e inventividade com seu próprio cartaz e expressando sua indignação nas ruas, contribuindo para uma ação coletiva. Uma forma de arte democrática que encontra expressões em todas as classes sociais em um momento de retomada do espaço urbano. Tomemos, por exemplo, algumas frases marcantes, destacando a diversidade de pensamento, como “Enfia os 20 centavos no SUS”, “Não queremos Partidos, queremos Inteiros”, “Vote em ideias, não em pessoas!”, “Saímos do Facebook”, “É tanta coisa que não cabe neste cartaz”, entre tantas outras. A obra de Bárbara Szaniecki ajuda a compreender a estetização dos protestos. Trata-se de uma análise dos cartazes de propaganda política e de sua relação com o poder instituído. A autora toma como base uma pesquisa sobre a prática da produção de cartazes, surgida no século XIX, e textos de autores como Michel Foucault e Antonio Negri. A ênfase se concentra na produção de cartazes desde o movimento de maio de 1968 até os dias atuais, buscando compreender seu papel cultural, social e político.

 

Florestan Fernandes

 
A temática dos movimentos sociais tem ganhado contornos internacionais. Nos últimos anos, muitos países vêm passando por protestos. As ações são visíveis em desafiar a ordem, a exemplo de protestos semelhantes, como a Primavera Árabe, o Occupy, nos EUA, os Indignados, na Espanha, o de defesa da Praça Taksins, na Turquia. Em determinados países da chamada Primavera Árabe, a população rompeu a barreira do medo e da opressão. No Brasil, a da empatia, onde as manifestações sociais ocorrem em um ambiente democrático. Não há novidade em dizer que é um momento de retomada do espaço urbano. E como não destacar obras importantes para se compreender os acontecimentos atuais, os novos movimentos sociais e o papel da internet como um espaço social onde se constrói o ativismo transnacional contemporâneo, como Occupy Movimentos de Protestos que Tomaram as Ruas (Boitempo, 2013), escrita por Emir Sader, David Harvey, Edson Teles, O poder em movimento: movimentos sociais e confronto político (Ed. Vozes, 2009), de Sidney Tarrow, e Redes de Indignação e Esperança: Movimentos Sociais na Era da Internet (Zahar, 2013), de Manuel Castells.

 

Oriente Médio sob olhares

 
Diversos analistas têm apontado que, em comum nestes protestos, é que são, majoritariamente, compostos por jovens, convocados por meio de redes sociais, sem a presença de partidos, sindicatos e organizações de massa tradicionais. Estudioso das sociedades conectadas em rede, Manuel Castells, é referência obrigatória. Na sua mais recente obra, Redes de Indignação e Esperança: Movimentos Sociais na Era da Internet, Castells revela que a grande força desses movimentos é que eles são espontâneos, livres, uma celebração de liberdade. Não tem o formato clássico de uma manifestação organizada por partido-sindicato. Manuel Castells examina as relações entre vários movimentos que eclodiram em 2011. Depois da Primavera Árabe, dos Indignados na Espanha, dos movimentos Occupy, nos Estados Unidos, dos estudantes chilenos, que protestaram por melhores condições de educação. Estes acontecimentos recentes, apesar de inseridos em contexto histórico muito diverso, fazem parte de um novo cenário mundial. O fato indiscutível é que, em 2013, os protestos chegam ao Brasil.

 

Como é criada a consciência coletiva

 
Há autores que identificam, nas recentes manifestações sociais, um novo tipo de movimento social, que se articula por meio de redes, expressa no espaço urbano as reais “necessidades cidadãs da vida urbana”, fortalecendo a noção de “cidadania ativa”. Para diversos analistas, o que redefine os “novos” movimentos sociais, a principio, é um certo distanciamento do caráter classista de antigos movimentos organizados a partir do mundo do trabalho. Não tem o formato clássico de uma manifestação organizada por partido-sindicato.

 

 

Paradigmas

Uma obra essencial para compreender as linhas metodológicas e teóricas principais e os paradigmas correspondentes sobre os movimentos sociais é Teoria dos Movimentos Sociais: Paradigmas Clássicos e Contemporâneos, da socióloga Maria da Gloria Gohn. A autora sistematiza as principais teorias e os paradigmas correspondentes sobre os movimentos sociais na produção das ciências sociais contemporâneas. Em um período de contestação social crescente no cenário globalizado, a autora organizadora do livro Movimentos Sociais na Era Global oferece reflexões interessantes para repensar os movimentos sociais na contemporaneidade. Em outra importante obra, Sociologia dos Movimentos Sociais: Questões da Nossa Época, a autora aborda, no campo da sociologia dos movimentos sociais, Primavera Árabe, Indignados na Europa e Occupy Wall Street, as mobilizações no Brasil atual e o famoso Maio de 1968 na França.

 

 
Por fim, o leitor deve notar que existem muitas razões que explicam as manifestações sociais de junho no Brasil. Diversos autores têm realçado que o movimento não tem uma identidade, o que o torna absolutamente livre, plural, heterogêneo. Também que a insatisfação nasceu nas redes sociais e adquiriu a forma de conectividade e interação com as ruas e praças. Afinal, não basta estar só conectado na internet. A invenção nova é atravessada por subjetividades. Cada um tem o seu cartaz. São subjetividades no espaço coletivo. É um momento de retomada do espaço urbano.

 

 
*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia: Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo. E-mail: ss.mattos@uol.com.br

Adaptado do texto “O protesto social urbano: novas abordagens”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 49