A Sociologia dá voz às crianças

Sociologia da Infância adota uma linha de atuação em que prioriza descobrir o que pensam e desejam as crianças, para procurar responder as principais dúvidas que afetam essa parcela da sociedade

Por Lucas Vasques* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Acesso à educação e saúde de qualidade, combate à violência doméstica, diminuição da pobreza e muitos outros aspectos que afetam, diretamente, as crianças brasileiras podem ser colocados no rol das necessidades básicas, durante o período da infância. No entanto, a pergunta que se faz, no momento, é o que o País está fazendo por elas? Será que os organismos governamentais atendem aos anseios dessa parcela da população, que, apesar do lugar comum, representa o futuro da Nação? A avaliação de especialistas aponta para uma unanimidade no sentido de que a criança seja simplesmente ouvida. Seus pontos de vista, suas experiências e desejos devem, verdadeiramente, nortear as políticas públicas para o setor. E isso não vem ocorrendo.

 

Quando o assunto é infância, uma das especialistas é Anete Abramowicz, cientista social, mestre e doutora em Educação, com pós-doutorado em Sociologia da Infância na Universidade Paris Descartes, na França. A professora da UFSCar faz um recorte para analisar como a sociedade moderna vem tratando a questão. “Há uma sociologia específica, que vem se desenvolvendo no Brasil gradativamente, sob a influência ou de uma sociologia de língua inglesa ou francesa, denominada Sociologia da Infância. Esta linha tem procurado criar instrumentos teóricos e analíticos para compreender a criança contemporânea.”

 

Anete cita um artigo escrito por Régine Sirota, precursora da Sociologia da Infância francesa, no qual ela revela, um pouco como anedota, sobre a surpresa e o desprezo de seus colegas pesquisadores franceses, ao narrar que suas pesquisas são sobre os ritos de socialização e cultura infantil, em especial sobre as festas de aniversário. “Ela diz que, pelo olhar desses colegas da Sociologia, preocupados com o fracasso e o desempenho escolar, lhes pareceu pouco sério uma colega se preocupar com aniversários de crianças. A Sociologia da Infância vive este drama: procura mostrar a relevância de seus temas, pois é como se os próprios sociólogos vissem esta linha de atuação como uma ‘sociologia de cozinha’, ‘antropologia de casa’, feito por pequenos problemas.”

 

No Brasil, segundo a professora, não é diferente. “A Sociologia, de certa maneira, também encara os temas relativos à infância como menores. As crianças, quando são estudadas, aparecem como um resíduo no interior daquilo que são consagrados como grandes temas: o mercado de trabalho, a desigualdade social, fracasso escolar etc. O problema desta sociologia é que não há sujeitos. O que ela descreve é o funcionamento de um sistema, como se os sujeitos fossem, de fato, objetos nesta paisagem”.

 

Anete: “Colocam as crianças nas escolas de qualquer maneira e, em muitos casos, endinheirando os donos destas porcarias de sistemas de ensino” | Foto: Arquivo pessoal

Diante deste cenário, Anete aponta um caminho: “O que a Sociologia da Infância se esforça em fazer é dar textura às crianças, ouvi-las, quando sabemos, de fato, que na nossa sociedade, profundamente adultocêntrica e hierárquica, a fala das crianças é totalmente ignorada. A sociedade ocidental, quando fala de infância, ou é como lembranças dos adultos ou é aquela que se quer impingir a todas as crianças. A infância é vista como um período de passagem para aquilo que, de fato, importa: ser adulto. Desta maneira, há que se saber o que pensa a criança, qual é o seu ponto de vista, suas experiências etc. Estes são alguns dos temas que pesquisadoras da Sociologia da Infância têm procurado responder”.

 

Quanto aos principais problemas relacionados ao segmento, ela avalia que depende do ponto de vista. “Quando você fala a infância no singular, a referência é da infância enquanto uma estrutura social, que atravessa todas as sociedades. Ou seja, infância singular. Do ponto de vista estrutural, da sociedade, estas questões dizem respeito àquilo que a sociedade pretende equacionar para a infância e devem ser equacionadas por ela: miséria, mortalidade infantil, obesidade, preconceito etc.”

 

Mas há muitas outras dificuldades, de acordo com Anete. “As crianças não circulam sozinhas pelas cidades, vivem como prisioneiras, sempre em locais fechados. Mesmo quando estão nos parques infantis, especialmente destinados a elas, há muros. As crianças não são porta-vozes políticas, não se representam, têm poucos lugares para encontros. Elas não têm creches e espaços públicos para irem, além dos anseios que deveríamos perguntar a elas. E, de todo modo, há esta infância estrutural e singular, mas há uma infância plural, aquela que cada criança inflete para si, individualmente ou coletivamente, e com inúmeros problemas, os quais merecem ser equacionados.”

 

Crianças e o consumo

 

Anete destaca a questão da educação como prioridade nessa discussão e é contundente em sua análise. “A escola se tornou obrigatória a partir dos 4 anos. Todas devem ir, mesmo que não saibamos o que fazer com crianças tão pequenas. Estão as colocando nas escolas de qualquer maneira e, em muitos casos, endinheirando os donos destas porcarias de sistemas de ensino. Inúmeras prefeituras compram apostilas, que começam com as crianças de 4 anos e vão até 17 anos. Um verdadeiro desastre, que nada tem a ver com educação, mas, sim, é uma estratégia de transformá-la em uma mercadoria, bem valiosa, pois há muita gente enriquecendo com isto. Inundam o campo da educação com métodos que pretendem ensinar as disciplinas. É um desastre, pois o que fazem é antecipar o fracasso e aprofundar a desigualdade entre as crianças, além de impedir o letramento delas, ao querer alfabetizá-las por metodologias completamente ultrapassadas.”

 

Outro obstáculo, na avaliação da professora, é o quase abandono das crianças de zero a 3 anos, que têm o direito à educação, como previsto na Constituição. “Elas estão abandonadas pela política pública, pois a creche é cara e as soluções são precárias, não formais. A solução pobre para crianças pobres aparece para preencher este espaço vazio da política pública. Não há creches para todas. Portanto, as pessoas têm se virado com soluções domésticas e frágeis.”

 

 

Em relação à violência doméstica, outra questão de suma relevância, ela diz que este é um problema maior nas sociedades ocidentais, quase que como engendrado como forma de governo. “Não há como operar este capitalismo global sem violências enormes e originais a cada dia. Está distribuída por todo o funcionamento social. Há aqueles que têm, atualmente os que estão plugados na Internet, e aqueles que não. Há os que pertencem e não. Há os que falam e têm direito à voz e aqueles que não. Há vidas que podem ser choradas, que são vistas com dignidade, e outras não. Há uma distribuição absolutamente desigual da precariedade da vida e as crianças estão no menor patamar, na parte mais frágil da violência que atravessa a todos. O que pode ser feito? Há que se criar políticas sociais amplas para os pais e mães. Há que se dar acesso equânime a todos de educação, saúde, moradia, lazer, cultura, arte, transporte etc.”

 

Apesar do quadro não ser nada animador, Anete revela que existem iniciativas no sentido de discutir a questão. “Há muitos trabalhos tentando dar textura a esta criança, dizer de sua singularidade, procurando entender os corredores que levam às crianças a serem alunos e a ter uma infância. Como a criança é socializada? Como ela se socializa? O que é ser uma criança negra, indígena, o que é ter uma infância a partir daquilo que elas mesmas pronunciam? Quais pontos de vista temos que adotar para compreender o ponto de vista infantil? Que escola para infância devemos fazer para que as crianças não percam tão cedo sua “livre expressão”? Que espaços sociais podemos criar para a circulação das crianças? Que experiências de representação podemos aprofundar para que elas possam se representar? Como as iniciações que são feitas na escola, como por exemplo, à linguagem, à cultura, à sexualidade, podem e devem estar comprometidas como uma concepção de infância, que não impeça a expansão e potencialização das crianças? São todas estas questões que as pesquisas deste campo teórico têm procurado equacionar”, finaliza.

 

Reconhecimento
Letícia: “As crianças são mais vulneráveis e, dessa forma, alguns problemas ficam mais evidenciados, como a pobreza”| Foto: Arquivo pessoal

Maria Letícia Nascimento, pedagoga, mestre e doutora em Educação, especialista em Sociologia da Infância e Educação Infantil, concorda com Anete. Ela, que também é professora do departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comprada da Faculdade de Educação da USP, conta que, desde os anos 1990, o interesse de campos das ciências sociais, como antropologia, história, geografia, pesquisa sobre a infância, segue na direção do reconhecimento das crianças como sujeitos de direito. A partir daí, segundo Letícia, parece haver interesse em ouvi-las ou buscar sua participação em situações que lhes dizem respeito diretamente.

 

A professora acredita que os principais problemas que afetam as crianças são aqueles que atingem a sociedade como um todo. Desigualdade, violência, preconceito fazem parte do contexto, no qual adultos e crianças convivem cotidianamente. “Entretanto, as crianças são mais vulneráveis e, dessa forma, alguns problemas ficam mais evidenciados, como a pobreza.” Letícia revela que os indicadores mostram que as crianças têm uma situação de pobreza mais grave do que os adultos. “Elas têm menos recursos para lidar com uma situação de falta. Um problema bastante combatido, que se mantém na pauta dos debates, é o trabalho infantil. Como se delimita o que é trabalho nocivo e o que não é? Estabelecer regras, definir limites, ouvir os principais envolvidos – as crianças – ainda parece estar longe de ser conseguido.”

 

Em recente trabalho desenvolvido por Letícia, realizado com financiamento do CNPq, foram encontrados 23 grupos de pesquisa relacionados à sociologia da infância, 16 deles na área da educação, quatro na psicologia e três na sociologia. “Esse levantamento permite afirmar que há uma forte relação entre a Sociologia da Infância no Brasil e a área da educação, particularmente com a educação infantil. Os grupos mais antigos, criados em torno da educação infantil, com a perspectiva do reconhecimento das crianças como sujeitos de direito, foram incorporando conceitos da Sociologia da Infância, que fizeram ampliar esse reconhecimento, acrescentando que elas são produtoras de cultura. Os grupos mais recentes, criados entre os anos 2005 e 2008, surgem nesse debate. O estudo permite reconhecer a Sociologia da Infância no Brasil, principalmente, como campo auxiliar nas pesquisas com crianças. Ainda assim, poucos são os grupos que, explicitamente, afirmam se preocupar com o que as crianças pensam acerca da realidade que as rodeia e da sociedade na qual vivem”, completa.

 

Segregação

Gabriela Guarnieri de Campos Tebet, pedagoga, professora, mestre e doutora em Educação, especialista em Sociologia da Infância e professora de Sociologia da Criança e da Infância na Prefeitura de São Carlos e na UFSCar, crê que o atual modelo de sociedade é um projeto que, em geral, exclui e segrega as crianças da vida social. “O reconhecimento dessa exclusão tem sustentado algumas ações mais atuais, no sentido de garantir às crianças algum direito de participação. Nessa perspectiva, surgiram pesquisas, que buscaram ouvir as crianças sobre temas diversos ou ações políticas, tais como a criação de Orçamentos Participativos das crianças, em alguns municípios nas diversas regiões do País, são algumas ações que merecem destaque”.

 

Para a professora, os discursos modernos a respeito da infância, apesar de indicarem os direitos das crianças à provisão, proteção e participação, possuem um foco muito maior na provisão e proteção do que na participação. As crianças, hoje, estão confinadas a espaços previamente planejados para vigiá-las e controlá-las, tais como a escola e a família. “No caso do Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente é um exemplo de Lei, que tem como objetivo regulamentar os direitos (e as restrições) das crianças no Brasil. Em termos internacionais, podemos pensar na Declaração dos Direitos das Crianças da ONU. Por meio de documentos dessa natureza, as crianças são governadas no interior da construção de um modelo específico de infância, reafirmado por meio dessas leis e regulamentos”.

 

Gabriela: “Os dados indicam que a situação das crianças na nossa sociedade ainda é de fragilidade e vulnerabilidade” | Foto: João Viana/Ascom-IPEA

Outros temas envolvendo a questão da infância, que têm se destacado no âmbito dos estudos sociológicos, são as pesquisas sobre as culturas infantis e o papel das instituições, além dos rituais da infância. No Brasil, alguns temas que se destacam nas pesquisas sociológicas sobre as crianças dizem respeito às questões racial e de gênero, à brincadeira e às culturas infantis, aos processos educacionais e à busca pelo ponto de vista das crianças a respeito de assuntos diversos, sobretudo a partir de pesquisas de inspiração etnográfica.

 

Além dos obstáculos, que não vêm de hoje, a professora aponta o surgimento de uma nova classe média, que faz emergir um conjunto distinto de problemas relacionados à infância, tal como o consumismo e a sobrecarga de atividades (escola, natação, balé/judô, inglês, psicóloga, violão etc.) ou mesmo o aprisionamento das crianças de classe média em condomínios fechados e sob constante vigilância de um adulto “responsável”. “Mesmo a questão da obesidade se coloca, sobretudo, para as crianças de classes médias”.

 

Para comprovar esses problemas, Gabriela revela que existem alguns indicadores que podem ser utilizados para se traçar um panorama da infância no Brasil. “São dados produzidos/coletados pelo IBGE, pela UNICEF e outras instituições que nos oferecem indicadores sócio-demográficos e informações sobre escolaridade e condições de educação, violência, mortalidade infantil etc. Os dados indicam que a situação das crianças na nossa sociedade ainda é de fragilidade e vulnerabilidade. As crianças são mais suscetíveis do que os adultos a viverem em condições de pobreza, além de serem vítimas de uma grande quantidade de tipos de violência e abuso. No que se refere à educação, os dados indicam um grande número de crianças de 0 a 3 anos esperando vagas em creches ou sendo atendidas por profissionais sem a formação mínima prevista pela legislação; apontam, ainda, para a existência de um conjunto de crianças que – mesmo estando em idade de escolaridade obrigatória, continuam não tendo acesso à escola”.

 

Protótipo

Tatiane Cosentino Rodrigues, pedagoga, mestre em Ciências Sociais e especialista em Relações Raciais, se refere, especificamente, ao seu tema de estudo. Para ela, de forma geral, a criança negra tem sido apresentada, pelas pesquisas, a partir de um protótipo de infância, na qual ela se caracteriza por uma baixa-estima, utiliza um equipamento de ensino que não acolhe a sua diferença, a sua particularidade cultural e que, em diversas situações, lhe impossibilita a permanência por se basear em um único modelo de indivíduo e de cultura.

 

“Essas pesquisas fazem a denúncia da escola, por exemplo, como um equipamento produtor e centralizador de sentidos e de produção hegemônica de modelos. A escola é apresentada como tendo uma base conservadora e excludente, ao se pautar em um modelo de currículo que poderíamos denominar “embranquecido”, diante da ausência de conteúdos que possam contribuir para que os alunos negros se vejam contemplados e, também, o silêncio da equipe pedagógica a respeito de situações de preconceito e discriminação racial. Assim como a escola, outras instituições sociais e espaços públicos continuam negando à infância um espaço próprio”, explica Tatiane.

 

O papel da alimentação nos estudos

 

Ela acredita que é importante considerar que a infância tem que ser analisada em sua pluralidade e diferença, assim, todos os fatores, como acesso à educação, violência, pobreza, preconceito e discriminação racial, são centrais para compreendermos a realidade da infância no Brasil. “No entanto, um dos nossos principais desafios, ainda, é considerar que estes fatores se articulam, afetam de diferentes formas as crianças, as indígenas e quilombolas, meninas e meninos têm acesso diferenciado à educação, assim como as negras e brancas. Daí a necessidade de desenvolvermos políticas/ações pensadas a partir destas diferenças e pluralidades”.

 

 

Tatiane revela que ainda há muito a ser feito. “A população negra representa 51% do País, considerando a soma de pretos e pardos e, no que diz respeito à educação, o que observamos é que, desde a década de 1990, há um processo crescente de democratização do acesso, especialmente ao ensino fundamental. No entanto, a grande diferença aparece quando analisamos a média de séries concluídas. Aqui, constata-se que, enquanto para os brancos há uma média de sete séries concluídas, a população negra termina apenas cinco. Isso mostra que, se de um lado, o acesso melhorou para todos, a permanência na escola até a conclusão do ensino fundamental é mais difícil para os negros do que para os brancos. A desigualdade de acesso às creches, em relação à variável renda, ainda é grave, na medida em que a frequência de crianças pertencentes às famílias com renda per capita de até meio salário mínimo (12,4%) foi 3,2 vezes menor do que a de crianças pertencentes a famílias com renda de três ou mais salários mínimos mensais (39,5), em 2008”.

 

*Lucas Vasques é jornalista e escreve para esta publicação.

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 49

Adaptado do texto “Está na hora de a criança ser ouvida”