A sociologia do trabalho

É importante ter um olhar retrospectivo sobre o tema para se chegar a uma síntese histórica sobre as origens, a trajetória, a importância fundamental e os principais desafios que ainda estão por vir da Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho (ALAST)

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O reconhecimento de importantes organizações reflete os diversos ramos da matéria, como a Sociologia Política, além da econômica, educacional, religiosa, jurídica, cultural etc. Um dos campos fundamentais é a Sociologia do Trabalho

 

Nesta edição, vou dedicar um olhar retrospectivo sobre a Sociologia do Trabalho e uma síntese histórica sobre as origens e trajetória do tema. A Sociologia, num sentido restrito, compreende o estudo científico dos fenômenos da sociedade, isto é, os fatos sociais, da vida associativa, das origens, da estrutura das mudanças, do desenvolvimento nas relações sociais, da vida social e do comportamento social. É um vasto campo de pesquisa e se configura em vários ramos de estudo. A Sociologia pode ser geral ou especial. Como sabemos, encontra-se subdividida em diversas áreas, que, embora tenham princípios muito semelhantes, diferem, especialmente em seu objeto central de estudo. O reconhecimento de importantes organizações sociológicas reflete, também, os diversos campos ou ramos de estudo da Sociologia (política, econômica, educacional, religiosa, jurídica, cultural etc). E um dos campos que trata dos fenômenos sociológicos, com ênfase no contexto espacial e ocupacional, é a Sociologia do Trabalho.

 

Segundo Alejandro Blanco, “(…) a Sociologia do Trabalho surge na América Latina por volta dos anos 50 e 60 do século passado, combinando a tradição mais empírica da Sociologia norte-americana com a das grandes teorias da Europa” (BLANCO, 2007).

 

Convém lembrar que a Sociologia do Trabalho, especialmente na América Latina, “(…) sempre esteve muito marcada pela situação política da região. Em um determinado sentido, sempre foi uma disciplina militante”, como assinala a socióloga Laís Abramo, em importante trabalho a respeito do seu desenvolvimento e desafios na região (ABRAMO, 1999).

Resenha do filme Trabalhar Cansa

 

A Sociologia do Trabalho passou por diversas fases em sua evolução. O melhor entendimento dela, até então, exige a compreensão das etapas de seu desenvolvimento na América Latina. A socióloga Laís Abramo, em sua obra Desafios atuais da Sociologia do Trabalho na América Latina: algumas hipóteses para discussão, se reportando às grandes etapas de desenvolvimento da disciplina, destaca três períodos: “(…) a primeira vai do surgimento da Sociologia do Trabalho latino-americano (anos 50) até o final dos 60, quando o tema principal, que sobreterminava a discussão, era o da modernização, entendida como a passagem de uma sociedade agrária e tradicional a uma sociedade urbana e industrial, e o que se tratava de discutir eram as condições de emergência de uma classe trabalhadora ‘adequada’ a esse processo de modernização. A segunda se desenvolve de meados dos anos 70 até fins dos 80, quando o central passa a ser a polaridade Democracia vs. Ditadura e o que se discute, fundamentalmente, são as possibilidades de reconstrução de uma classe trabalhadora e de um movimento sindical desorganizado e fragmentado pelos regimes militares. O terceiro inicia-se no final dos anos 80, quando o que passa a estar no centro da discussão é a crise do taylorismo fordismo e o surgimento dos ‘novos modelos de empresa’, os processos de ajuste estrutural e de globalização da economia a escala internacional e seus impactos sobre as situações de trabalho. Essa trajetória está marcada por um movimento teórico e metodológico complexo, no qual vão se transformando ou superpondo-se distintos níveis de análise e diferentes diálogos multidisciplinares. Em grandes linhas podemos dizer que, na primeira etapa, predominava uma Sociologia, em grande parte, subordinada à economia do desenvolvimento, que, por sua vez, estava marcada por fortes elementos de um determinismo estruturalista. Na segunda etapa ocorre uma recuperação da perspectiva do sujeito, e a Sociologia do Trabalho dialoga com e se nutre da História, da Ciência política e da Sociologia dos movimentos sociais. Na terceira etapa, se por um lado se verifica uma tendência a aprofundar o movimento iniciado na fase anterior em direção ao exame dos processos de trabalho e ao diálogo com disciplinas tão díspares, como a Antropologia e a Engenharia Industrial, se fortalece, também, outra vertente, na qual a tendência é a metamorfose da Sociologia do Trabalho em uma Sociologia do managment e, outra vez, sua subordinação à economia e à desaparição dos sujeitos” (ABRAMO, 1999).

 

Na década de 1990, período fortemente marcado pela redemocratização e, paradoxalmente, por uma profunda crise que se abate sobre o mundo do trabalho, surge a Alast, uma organização científica para o intercâmbio acadêmico e uma associação civil, cujo objetivo geral é iniciar e/ou coordenar iniciativas de colaboração entre cientistas latino-americanos dedicados ao estudo do trabalho.

 

O que é trabalhismo?

 

Na década de 1950, na América Latina e Caribe, surgem diversas organizações científicas, profissionais, nacionais e internacionais da Sociologia e dos sociólogos. Obra de referência, única e indispensável, Nueva historia de la Sociologia latinoamericana, de A. Poviña, descreve não só importantes momentos da trajetória, mas revela, em linhas gerais, os antecedentes históricos e os elementos formadores das múltiplas modalidades de organização e expressão científicas e profissionais dos sociólogos e da Sociologia na América Latina.

 

 

Golpes militares

Na década de 1960, os sucessivos golpes militares em diversos países da América Latina provocaram uma verdadeira diáspora de sociólogos. Nos anos 70, um movimento latino-americano pelos temas da Sociologia do Trabalho e a influência das mobilizações populares e de um sindicalismo recuperado ganha força e chama a atenção para algumas obras. Os temas abordados, de forma dinâmica e de acordo com sua natureza, sempre que possível, estão vinculados à realidade latino-americana.

 

Na passagem dos anos 70 para a década de 1980, sob a lógica de uma “democratização progressiva da sociedade”, tem início um ciclo de reformas da sociedade. Nos anos 90, em uma conjuntura marcada pela globalização e por transformações no mundo do trabalho, começa um novo ciclo político e emergem alternativas em diferentes países da América Latina, a partir de um profundo debate sobre o passado e o futuro da região.

 

Entenda as novas relações de trabalho

 

Fundada em novembro de 1993, no I Congresso Latino-Americano de Sociologia do Trabalho, realizado no México, a Associação Latino-Americana de Sociologia do Trabalho, atualmente denominada Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho, surge para promover iniciativas de colaboração entre cientistas e pesquisadores latino-americanos dedicados ao estudo do trabalho. Desde então, vem realizando um congresso a cada três anos. Até o momento, já realizou sete encontros em diferentes países da América Latina e Caribe: México (1993 e 2010), Brasil (1996 e 2013), Argentina (2000), Cuba (2003), Uruguai (2007). Assim como os congressos, a sede da associação é itinerante, circulando entre países a cada três anos.

 

Márcia de Paula Leite, socióloga, pesquisadora e professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi uma das organizadoras da pesquisa Trabalho e qualificação profissional | Foto: Divulgação

Em tempos recentes, tem publicado vários livros, a partir de uma seleção de trabalhos e conferências de seus congressos. Em 1998, juntamente com a Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo, lançou a Série II Congresso Latino-Americano de Sociologia do Trabalho, que compreende três volumes, com textos selecionados dentre os apresentados no II Encontro, realizado no Brasil, em Águas de Lindoia, em dezembro de 1996, pela Alast. São eles: A ocupação na América Latina: tempos mais duros, organizado por Nadya Araújo Castro e Cláudio S. Dedecca; Trabalho e qualificação profissional, organizado por Márcia Leite e Magda Neves; Gênero e Trabalho na Sociologia Latino-Americana, organizado por Laís Abramo e Alice Rangel de Paiva Abreu.

 

 

Além das recentes publicações de livros, a Alast mantém a edição da Revista Latino-Americana de Estudos do Trabalho, que tem como objetivo estimular o debate, a discussão e a difusão acadêmica, em torno do campo da Sociologia do Trabalho. A revista é publicada em língua portuguesa e em espanhol (CARVALHO & MATTOS, 2005).
Por ocasião do VI Congresso, realizado no México em 2010, a Alast passa a adotar a denominação de Asociación Latinoamericana de Estudios del Trabajo – Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho (Alest), tendo em vista a percepção de que “(…) os novos estudos do trabalho têm sido interdisciplinares e adotam teorias de diversos ramos de conhecimento”.

 

 

Debates

A entidade é responsável pela realização de vários congressos da Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho. O primeiro ocorreu na Universidade Nacional do México, na Cidade do México, entre os dias 22 e 26 de novembro de 1993. Em 1996, na cidade de Águas de Lindoia, São Paulo, Brasil, entre 1º e 5 de dezembro, tendo como tema geral O mercado de trabalho no contexto da globalização: desafios e perspectivas, efetivou-se o II Congresso Latino-Americano de Sociologia do Trabalho. A Argentina sediou o III, realizado em Buenos Aires, entre os dias 17 e 21de maio de 2000, tendo como tema central El trabajo en los umbrales del siglo XXI (O trabalho nos umbrais do século XXI). O IV foi realizado em Havana, Cuba, de 9 a 13 de setembro de 2003, tendo como tema El trabajo en America Latina en los comienzos del siglo XXI: perspectivas de su carater emancipador y de su centralidad (O trabalho na América Latina nos inícios do século XXI: perspectivas de seu caráter emancipador e de sua centralidade). O Uruguai sediou o V Congresso, realizado em Montevidéu, entre 18 e 20 de abril de 2007. Em 2010, no México, de 16 a 22 de abril, efetivou-se o VI Congresso. Com a participação de estudantes e pesquisadores da América Latina e de outros países, o evento reuniu 749 propostas de comunicações elaboradas por 997 pesquisadores de 24 países: México, Argentina, Espanha, Uruguai, Colômbia, Brasil, Chile, França, Canadá, Venezuela, El Salvador, Cuba, Peru, Porto Rico, Costa Rica, Bolívia, Itália, Equador, Suécia, Guatemala, Panamá, Nicarágua, Reino Unido e Alemanha. Os países com mais trabalhos propostos foram México, Brasil e Argentina, nessa ordem.

 

O Brasil sediou o VII Congresso, realizado na Universidade de São Paulo, Cidade Universitária, entre os dias 2 e 5 de julho de 2013, tendo como tema geral O trabalho no século XXI. Mudanças, impactos e perspectivas, reunindo 519 participantes inscritos, de países como Brasil, México, Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Bolívia, Cuba, Venezuela, Equador, Peru, Haiti, além de observadores e, também, de representantes de outros países do mundo (CARVALHO e MATTOS, 2005; RAMALHO, 2013).

 

A Cidade Universitária, na USP, foi sede do VII Congresso, em 2013, que apresentou como tema central
O trabalho no século XXI. Mudanças, impactos e perspectivas, reunindo 519 participantes inscritos | Foto: Divulgação/Wikipedia

 

Por fim, é importante ressaltar que, diante da nova morfologia do trabalho, reestruturação produtiva, das mudanças que têm impactado o setor, nesse início de século, novos saberes e práticas, em sintonia com as especificidades históricas e estruturais das sociedades latino-americanas, vêm estimulando, atualizando e aprofundando a extensa agenda de debates da Sociologia do Trabalho e da Associação Latino-Americana de Estudos do Trabalho.

 

 

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia: Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo.

E-mail: ss.mattos@uol.com.br

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 52