A Sociologia no Mundo Árabe

Na história da Sociologia, Ibn Khaldun é seguramente uma referência no campo da reflexão sobre a história social dos povos e das civilizações do Mediterrâneo

Por Sérgio Sanandaj Mattos* | Foto: Reprodução Internet  Adaptação web Caroline Svitras

Há atualmente um interesse renovado na história da Sociologia e na história social dos povos e das civilizações do Mediterrâneo. Em que pese uma simplificação excessiva, este artigo, com seus acertos e deficiências, focaliza em linhas gerais a presença da Sociologia no Oriente Médio, o protagonismo árabe na International Sociological Association, e o papel do árabe tunisiano Ibn Khaldun, nos primórdios da Sociologia. Para uma visão simplificada da Sociologia no Oriente Médio, trata-se aqui de seguir três componentes: as instituições, a comunidade profissional e o conhecimento.

 

A Sociologia, nos seus primórdios, em termos de desenvolvimento histórico, agrega as contribuições dos pensadores sociais, filósofos helênicos e da Idade Média. Nesse percurso, conhecido como a etapa pré-sociológica, a Idade Média tem sido compreendida como referência de um tempo de ignorâncias e superstições na Europa. Entretanto, com a civilização islâmica e os árabes, de modo especial, observa-se um avanço e desenvolvimento, muito além do Ocidente, em termos de Filosofia, Sociologia e criatividade científica.

 

 

No período pré-científico, o árabe tunisiano Ibn Khaldun (1332-1406), considerado um dos maiores, se não o maior historiador, filósofo e sociólogo árabe, reconhecido como um dos pioneiros da Ciência Social moderna, muito antes de Comte, Marx, Spencer, dedicou-se à evolução da sociedade humana e tentou dar uma explicação racional para o progresso da história.

 

Influência da Sociologia colonial

No Marrocos, o escritor, crítico literário e sociólogo Abdelkébir Khatibi (1938-2009), considerado uma das maiores expressões das Ciências Sociais marroquinas, desenvolveu uma perspectiva de análise que buscou a descolonização do pensamento marroquino sobre si mesmo. Khatibi estudou Sociologia na Sorbonne de 1958 a 1964, onde em 1969 defendeu sua tese Le roman maghrébin, (O romance magrebino). Maghreb, que significa “poente” em árabe, é a região que compreende Marrocos, Argélia, Tunísia e Egito (Norte da África). Durante a era pós-colonial, Khatibi foi o primeiro sociólogo marroquino a interpretar e repensar a sociedade marroquina à luz da Sociologia colonial que tinha sido aplicada no Marrocos desde o século XIX.

 

Abdelkébir Khatibi, usando a filosofia de Jacques Derrida e Michel Foucault, compartilha a visão de que uma verdadeira descolonização só seria possível por uma crítica de dupla face, ou seja, uma desconstrução do logocentrismo e do etnocentrismo europeus e, ao mesmo tempo, uma crítica do saber e dos discursos elaborados pelas sociedades árabes sobre elas mesmas (KHATIBI, 1983). E, na Argélia, destaca-se o trabalho do sociólogo Abdelmalek Sayad (1933-1998), reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre a diáspora magrebina.

 

Acrescente-se a estes exemplos que na década de 1950, no momento da luta da Argélia pela independência do poder colonial francês, o sociólogo Pierre Bourdie escreveu em 1957 o livro Sociologie de l’Algerie (Sociologia da Argélia), que reflete a guerra contra a dominação da França. Os estudos na Argélia fazem parte dos primeiros trabalhos sociológicos do francês Pierre Bourdie.

 

A presença árabe no Brasil

 

E, na Palestina, uma das figuras mais vigorosas do pensamento sociológico na atualidade é Sari Hanafi, diretor do Centro de Refugiados Palestinos e da Diáspora que fica em Ramallah. O sociólogo Sari Hanafi, nascido em status de refugiado, como o filho de um palestino, tem trabalhado incansavelmente sobre questões de Sociologia política e econômica em relação à diáspora palestina e aos refugiados, a Sociologia das migrações e transnacionalismo. Sari Hanafi é professor associado na American University of Beirut e membro do Comitê Executivo da Arab Association of Sociology e da International Sociological Association. Cabe, ainda, mencionar a importância dos estudos de Edward Said, que em Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, mostra que o Oriente, tal como o concebemos, é uma invenção do Ocidente e que essas imagens foram sendo construídas e reconstruídas ao longo dos tempos (SAID, 1990).

 

 

Por fim, cabe frisar que a Sociologia no Oriente Médio, com maior ou menor êxito, tem possibilitado a abertura de novos caminhos à investigação científica social. Na contemporaneidade, sublinha-se o legado de Ibn Khaldun e reafirma-se uma nova dimensão da Sociologia, especialmente nos meios universitários. Há uma tradição de saber sociológico através de novas gerações e nas contribuições de importantes autores, nos quais se distinguem, especialmente, Samir Amin, Anwar Abdel Malek, Edward Said, Syed Farid Alatas, Said Arjomand, Abdelkébir Khatibi, entre outros.

 

Revista Sociologia Ed. 35

Adaptado do texto “A Sociologia no mundo árabe”

*Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (Asesp). É coautor do livro Sociólogos & Sociologia. Histórias das suas entidades no Brasil e no mundo (ss.mattos@uol.com.br).