Analisando o fantástico para problematizar o real

Por Fabricio Basílio* | Fotos: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Consenso entre os pesquisadores da área, o fantástico enquanto gênero literário surge no século XIX como uma oposição ao pensamento racionalista e cientificista do Iluminismo. Numa espécie de “revanche do irracional” o fantástico emanava das obras de autores como Jan PotockiE.T.A. Hoffmann, Edgar Allan Poe, Guy de Maupassant, que tinham o intuito de criar um efeito aterrorizante sobre o leitor a partir do descompasso com a realidade. É apoiado nesses e em outros autores que, a partir da década de 60, teóricos estruturalistas vão assinalar os elementos constitucionais do gênero fantástico em narrativas literárias que criam uma “hesitação” (Todorov, 2010) ou uma “ambiguidade permanente” (Furtado, 1980) entre o natural e o sobrenatural.

 

Ao analisar essencialmente obras literárias do século XIX, Tzvetan Todorov opta por findar a experiência do fantástico com o surgimento da Psicanálise. Para ele (2010, p. 169): “Os temas da literatura fantástica se tornaram, literalmente, os mesmos das investigações psicológicas”. O autor reforça essa ideia da seguinte maneira:

 

A psicanálise substituiu (e por isso mesmo tornou inútil) a literatura fantástica. Na atualidade, não é necessário recorrer ao diabo para falar de um desejo sexual excessivo, nem aos vampiros para aludir à atração exercida pelos cadáveres: a psicanálise, e a literatura que direta ou indiretamente se inspira nela, tratam-nos com termos diretos. Os temas da literatura fantástica coincidem, literalmente, com os das investigações psicológicas dos últimos cinquenta anos.

 

A afirmação de Todorov é refutada por grande parte dos autores que, ao invés de sepultarem o fantástico, avistam uma fissura entre o fantástico produzido no século XIX e o produzido no século XX por autores como Franz Kafka, Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges. Obviamente existem desconformidades entre temáticas e estéticas, entre obras e movimentos, como, por exemplo, as variações produzidas na América Latina e na África Lusófona, pois como alerta Rick Altman (1984, p.12, tradução nossa), “nenhum gênero permanece imutável durante as muitas décadas de sua existência”.

 

O primeiro a notar essa ranhura foi Jean-Paul Sartre em seu artigo “Aminadab, ou o fantástico considerado como uma linguagem” (2005). Para Sartre (2005), o fantástico não aceitaria delimitação entre seu meio e o universo natural e, dessa forma, a inserção de um elemento fantástico em um ambiente real o naturaliza. De outra forma, se a inserção de um elemento fantástico for capaz de convencer o leitor implícito de que sua composição não pertence ao natural, então todo o universo passaria a ser considerado insólito, mesmo que isso não seja constatado inicialmente. Ou seja, para Sartre (2005, p. 136): “O fantástico contemporâneo ou não existe, ou estende-se a todo o universo”.

 

Complementando essa definição, David Roas (2014) aborda o fantástico (tanto o tradicional quanto o contemporâneo) a partir da transgressão da realidade:

O Sobrenatural é aquilo que transgride as leis que organizam o mundo real, aquilo que não é explicável, que não existe, de acordo com essas mesmas leis. Assim, para que a história narrada seja considerada fantástica, deve-se criar um espaço similar ao que o leitor habita, um espaço que se verá assaltado pelo fenômeno que transtornará sua estabilidade.

 

O fantástico põe como dilema primordial a representação do irreal, do que não existe e que brota em um mundo aparentemente natural/real. Essa representação estabelece um jogo discursivo duplo e perpétuo entre o real e o sobrenatural (Reis, 1980, p. 4). Afinal, como aponta David Roas (2014), o fantástico necessita ser capaz de “transbordar” a concepção de realidade. O sobrenatural então surge na exceção, como o incomum, por meio da ameaça que pretende abalar as concepções socioculturais vigentes. Como sugere Roberto Reis (1980, p. 4), a percepção de realidade deriva de condicionamentos culturais e ideológicos, que erguem “uma barreira que separa o real do irreal”. Sintetizando: o fantástico é sempre um problematizador do real.

 

Assim, ao se deparar com um fato insólito, nos obrigamos a confrontar a realidade diegética com o mundo que o cerca e a ponderar que esta pode não funcionar do modo como é delimitada pela ideia sociocultural de real. Obviamente, toda obra obriga o receptor a projetar sua visão de mundo para interpretar o universo criado no texto, mas “a literatura fantástica obriga, mais que qualquer outro gênero, a ler referencialmente os textos” (Roas, 2014, p. 112).

 

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Adaptado do texto “Não pode ser, mas é”

*Fabricio Basílio é graduado em cinema pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFF (PPGCOM-UFF) – fabricio.cineuff@gmail.com