Animações como recurso didático

Analisar o cinema a partir de seu contexto histórico e social faz desta arte uma importante ferramenta de educação escolar e propõe um olhar além da tela, com profundidade e construção crítica

Por Cláudio Pinto  | Adaptação web Caroline Svitras

 

Quando se fala em cinema de animação, logo vem à mente toda a família reunida harmoniosamente sentada em frente à televisão assistindo a um desenho animado para todas as idades. Ou então toda a peripécia da tecnologia da computação gráfica que faz milagres encantadores com as imagens e personagens, tornando tudo tão real. E há até aqueles que defendem esse tipo de cinema como forma de lazer despretensioso e ingênuo como fuga dos problemas angustiantes do mundo contemporâneo. Mas quando pensamos o cinema de animação em todas as esferas de seu alcance na sociedade – em todas as idades, mas, principalmente, crianças e adolescentes – devemos ter uma atenção detalhada (e cuidadosa) das mensagens apresentadas nos diálogos, posturas, conceitos e ações dos protagonistas, mesmo que estes sejam um simples e simpático ratinho ou uma inofensiva formiguinha, e até adoráveis brinquedos que povoam a imaginação infantil (ou de adultos).

 

Não pretendemos desmontar os sonhos e as fantasias, tão úteis e (até) necessários na construção e reconstrução humana na natureza, e tampouco/somente elencar imagens ou conceitos apresentados nas obras fílmicas dessa categoria. O que propomos é ampliar o horizonte de análise passando pelo conhecer dos indivíduos envolvidos na produção, os roteiros e o contexto histórico que permeiam e conduzem os diálogos e as ações dos personagens tão singelos e inocentes.

 

Há várias literaturas que abordam o uso do cinema na educação escolar com análises de obras – dos clássicos ao – e sugestões pedagógicas para entendimento e compreensão de conceitos e categorias das mais variadas áreas das Ciências. Mas nossa ação propositiva é uma discussão do possível uso dessa categoria do cinema – desenhos animados – como recurso didático escolar diante das mudanças que marcam o capitalismo, no momento atual, que influenciam a educação e a formação de crianças e jovens.

 

Há de se considerar o potencial educacional do cinema de animação, o qual pode ser explorado no processo ensino-aprendizado quando o professor ou um articulador consegue fazer o uso pedagógico dessa ferramenta indo muito além do conteúdo ilustrativo de imagens e cores, das fantasias das fábulas infantis ou do mero apoio didático aos planos de ensino/aula e projetos pedagógicos escolares. Cabe ainda pensar/discutir o que se quer da educação escolar – com a adoção desse recurso e diante do sujeito-receptor – no contexto problemático e crítico do mundo do trabalho do capital, do mercado de trabalho e da publicidade.

Finalizamos esses comentários com dicas pedagógicas aos educadores que desejarem fazer uso do cinema de animação como prática educativa, de análise de realidade e, portanto, de superação dos modelos formativos tradicionais e a partir da práxis abrir caminhos possíveis que conduzam a ações experimentais de emancipação humana. Mas não temos a pretensão de indicar receituários, e sim uma proposta de trabalho educacional – além dos vários existentes e sugeridos por vários autores – que proporcione uma experiência concreta (de partida e de chegada) de todos – educador e educando – que valorize o viver coletivo, nas ações e nos estudos, e possibilite aos alunos um conhecer ou revisitar os conceitos de criticidade, solidariedade, liberdade e emancipação. Se a muitos educadores faltam condições materiais de trabalho e/ou os caminhos seguros (sugestões) e as ferramentas adequadas que possibilitem a si e ao aluno o exercício da autonomia, da criticidade e da ação cidadã, o desenho animado é o recurso didático e a proposta de ação que pode (e deve?) ser usado nas escolas perante o perfil de aluno carregado de aspectos pós-modernos.

 

Portanto, fixar esses objetivos e ação num “círculo de cultura”, como ação orgânica, pode viabilizar e capacitar o educando a desvelar o mundo pronto mostrado nos desenhos animados (ou outras categorias) e, assim, estes se tornam pretexto aos sujeitos-receptores para o debate, discussão e aprofundamento teórico.

 

Concluímos que a adoção de uma pedagogia crítica deve passar pela escolha minuciosa de um conteúdo que colabore para a transformação e emancipação do indivíduo (aluno) como ser, nos níveis de produção ou como membro (indivíduo) de uma classe para que saiba e possa distinguir e inter-relacionar o saber designado pelos gregos e mostrado nas palavras: doxa, sofia e episteme. Educar é fixar objetivo político que só se torna possível com informação e conhecimento de qualidade, veículos fundamentais para se discutir com embasamento os conceitos, ideologias e visões de mundo.

 

Portanto, é o educador e a obra fílmica (pretexto) que deve conduzir as pesquisas, os estudos, as leituras e reflexões dos temas para que, a partir dos embates, se possa ampliar a visão de mundo, aprofundar o conhecimento e ter clareza dos passos a trilhar no mundo atual para propor mudanças necessárias e, assim, trilhar a construção de cidadãos mais críticos e reflexivos.

 

Adaptado do texto “Cinema de Animação: um recurso didático possível”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 35