As crises internas do PSDB

Por Dr. Alessandro Farage Figueiredo* e Dr. Fábio Metzger** | Fotos: Wilson Dias/Agência Brasil

Um dos pontos característicos do PSDB que vai diferenciar seu posicionamento político do PMDB e em certos aspectos aproximar do seu rival nas corridas eleitorais presidenciais, o PT, é a relação direta que o partido possui com o eleitorado paulista. São Paulo não somente é um dos principais berços políticos do partido como também é seu maior capital político nas eleições. Tal peso é decisivo, de maneira que o estado já lançou quatro candidatos à Presidência da República para o partido: Mário Covas (1989), Fernando Henrique Cardoso (1994 e 1998), José Serra (2002 e 2010) e Geraldo Alckmin (2006).

 

Um dos problemas do PSDB é exatamente a quantidade de “caciques” e correntes internas em disputa, o que gera, em diversos momentos, divisões que favorecem os adversários. Essa situação chega ao ponto de enfrentamentos diretos entre grupos do PSDB de São Paulo e lideranças de outros estados (especialmente o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves), além de disputas entre políticos do PSDB paulistano e do interior paulista. Na eleição para prefeito de São Paulo de 2008, o então governador de São Paulo, José Serra (PSDB), apoiou o então prefeito Gilberto Kassab (DEM), de tal maneira que o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) acabou não indo nem para o segundo turno. Depois, em 2016, a situação se repete em um forte embate na pré-candidatura em que os principais políticos da capital liderados por Serra apoiam o vereador Andrea Matarazzo, enquanto o grupo de Alckmin fica ao lado do ex-secretário municipal João Doria Jr.. Esse último conflito foi chamado de “guerra do cashmere”, pelo fato dos dois pré-candidatos gostarem de usar cashmere, dos conflitos serem bastantes diretos e ardilosos e por estar em jogo a prevalência de um grupo sobre o outro para definir aquele que será o candidato à Presidência do país pelo partido em 2018. No nível federal, em 2006 e 2010, apesar de contar com o apoio formal de Aécio Neves, nem Alckmin nem Serra conseguiram capitalizar os votos do político local. Aécio Neves reelegeu-se governador em primeiro turno em 2006, elegeu o seu sucessor Antonio Anastasia em segundo turno em 2010, e a si mesmo como senador, ao mesmo tempo que os então concorrentes à Presidência da República pelo PT, Lula e Dilma, obtiveram mais votos que os candidatos tucanos em nível nacional; o que foi decisivo em favor das candidaturas petistas.

 

O tucanato na oposição

Durante os anos da liderança do PT na Presidência da República (2003-2016), o PSDB vive um declínio, devido à mudança no cenário político nacional. Embora seja possível marcar a queda do PSDB com a derrota eleitoral do candidato tucano José Serra para o petista Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, atribuindo a responsabilidade à queda de popularidade do PSDB no final do governo FHC, o fenômeno político que de fato assinala o declínio tucano frente ao eleitorado é durante as eleições gerais de 2006. Nesse ano, o PSDB enfrenta sérias disputas internas, que se tornam uma constante dentro do partido, e não consegue sustentar a candidatura de José Serra, que é trocado pelo candidato Geraldo Alckmin, um erro tático segundo a teoria do Recall. Para complicar ainda mais o cenário, o PSDB se vê diante da alta popularidade de Lula na Presidência. A campanha de Lula explora, via marketing político, um discurso antiprivatizações, mirando o adversário, que substituiu as propostas da terceira via por um discurso meramente keynesiano, mas que na prática tinha similaridades ao do concorrente. Com isso, a candidatura do PT de 2006 neutralizava o discurso oposicionista tucano. O que fez com que o PSDB perdesse parte substancial do seu eleitorado fiel, que passou a se sentir traído e a considerar os sociais-democratas como uma oposição fraca e até mesmo passiva. Alckmin chegou a utilizar na campanha um colete com as marcas das estatais, o que influenciou na perda de votos no segundo turno.

 

Lula e Dilma obtiveram mais votos que os candidatos tucanos em nível nacional; o que foi decisivo em favor das candidaturas petistas | Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

Desde a publicação da “Carta aos Brasileiros”, o PT passou a seguir uma rota política com algumas semelhanças às do PSDB, reduzindo suas propostas mais radicais por políticas mais palatáveis de centro para um amplo espectro de atores políticos e eleitorais. Da mesma forma que o PSDB se movimentou da social-democracia para a terceira via, o PT caminhou do trabalhismo sindical e da Teologia da Libertação latino-americana para o keynesianismo norte-americano. Essa aproximação foi tão forte e efetiva que o sociólogo Felisberto Vasconcelos chegou a cunhar as expressões “petucano/petucanato/petucanismo” para identificar o fenômeno. Como consequência, o PSDB amargou quatro derrotas eleitorais presidenciais para o PT (2002, 2006, 2010 e 2014). Perdeu a eleição de 2014, que era considerada praticamente ganha, segundo a teoria do voto econômico frente à crise econômica iniciada em 2012, deixou de ser considerado o líder da oposição pelo eleitorado tanto nas ruas, que em protestos de impeachment não permitiam a presença de atores políticos tucanos, quanto no próprio cenário político em que teve seu capital político diluído frente a novas legendas como a Rede, que apresenta um perfil social-democrata ecológico, o Novo, que é um partido ideológico liberal que tem o livre-mercado como proposta institucionalizada, além dos diversos candidatos liberais e conservadores que surgiram dos movimentos sociais que passaram a ocupar o lugar da oposição em aberto. Essa diluição foi tão significativa que durante toda a eleição presidencial o PSDB se viu diretamente ameaçado pelas propostas social-democratas da coligação PSB/Rede, que, após um desastre de avião com a morte trágica do candidato Eduardo Campos, conseguiu lançar a candidata Marina Silva como um símbolo de proposta ecossocial-democrata modernizadora (esquerda progressista).

 

História política do PSDB

 

Tal desgaste fez com que em 2016 o PSDB mudasse seu marketing político mais uma vez e se voltasse com uma proposta novamente de terceira via travestida de discurso liberal, mas agora com um tom radical, para competir com os movimentos vitoriosos do impeachment de Dilma Rousseff do PT, com a candidatura do empresário João Doria. Nessa estratégia, o PSDB pretendia retomar tanto seu eleitorado paulistano como reduzir suas perdas para novos atores políticos, principalmente os liberais dos novos movimentos políticos pós-2012 e novos partidos, e sufocar o “petucanato” político aplicado pelo candidato à reeleição Fernando Haddad.

 

Com a conquista em 2014 do Senado por José Serra e de Geraldo Alckmin para governador, o PSDB voltou ao seu protagonismo paulista. Ao mesmo tempo, a candidatura de Aécio Neves acaba sendo derrotada em nível nacional. Em 2016, o PSDB teve importante vitória em São Paulo, com Doria se elegendo prefeito. Mesmo consolidados em São Paulo, os tucanos atualmente encontram seu capital político em contração. O espaço oposicionista deixado pelo PSDB foi sendo, ao longo dos anos, ocupado pela direita liberal-conservadora radicalizada de fora da política eleitoral: movimentos sociais, como o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados Online e o Vem pra Rua, e divulgadores mais antigos, como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Joice Hasselmann, Rodrigo Constantino e até youtubers recentes como “Nando” Moura, Daniel Fraga, Professor Maro etc.. Na própria capital paulista, no Legislativo, houve um claro crescimento de candidaturas como as de Fernando Holiday (DEM) do Movimento Brasil Livre e Janaina Lima (Novo) do Vem pra Rua, movimentos liberais radicais, em detrimento à posição mais branda do PSDB.

 

Na eleição para prefeito de São Paulo de 2008, o então governador de São Paulo, José Serra (PSDB) – à direita na imagem, apoiou o então prefeito Gilberto Kassab (DEM), de tal maneira que o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) acabou não indo nem para o segundo turno

 

Em termos gerais, a crise do PSDB se deu entre 2006 e 2016, devido às suas fortes movimentações entre o pensamento social-democrata, da terceira via associada à direita liberal, uma esquerda keynesiana e novamente a uma direita liberal, o que fez com que houvesse forte ruído no seu diálogo com o eleitorado. O PSDB teve seu capital político retraído por uma esquerda que identificava a social-democracia como “neoliberal”, enquanto surgia uma direita liberal-conservadora mais radical, ocupando espaços anteriormente ligados ao capital político do PSDB.

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 69

*Dr. Alessandro Farage Figueiredo é cientista político, jurista, sociólogo e demógrafo. Pós-doutorado em Desenvolvimento Internacional pela University of Denver. Pós-doutorando em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Cefet/RJ. Tem o website https://plus.google.com/+AlessandroFarageFigueiredo e seu e-mail é alefarage@gmail.com

**Dr. Fábio Metzger é cientista político, historiador, sociólogo e jornalista. Tem o blog https://politicavoz.wordpress.com/ e seu e-mail é fabiometzger@terra.com.br

Adaptado do texto “A social-democracia europeizada e a terceira via centrista do PSDB”