As mulheres e a Revolução

Livro de Wendy Goldman é essencial para que a sociedade possa seguir lutando e afirmando o verdadeiro sentido do feminismo e do socialismo

Por Irene Maestro Guimarães * | Foto:  Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A estadunidense Wendy Goldman é uma reconhecida historiadora da Rússia e União Soviética, tendo desenvolvido diversos trabalhos que abordam a questão da mulher na Revolução Russa. A mulher, o Estado e a Revolução, considerado em 1994 o melhor livro no campo da história escrito por uma mulher, agora traduzido e publicado no Brasil pela Boitempo, é uma contribuição ímpar sobre o tema. Apesar das especificidades do contexto dessa experiência, os debates suscitados em torno dos direitos das mulheres e da complexidade de sua realização são de extrema atualidade, tornando a leitura fundamental para aqueles instigados pelos ideais de “amor livre”, bem como a todos que lutam por uma nova sociedade, livre de exploração e verdadeiramente comprometidos com o fim da opressão sobre as mulheres.

 

Para os bolcheviques, a sobrecarga suportada pelas mulheres era um conflito para o qual o capitalismo “jamais seria capaz de fornecer uma solução sistemática”. Sua visão sobre a emancipação política, social e econômica das mulheres baseava-se em quatro elementos: união livre, libertação das mulheres pelo trabalho assalariado, socialização do trabalho doméstico e definhamento da família.

 

Entretanto, ao tomarem o poder e se depararem com o desafio de implantar medidas que avançassem nesse sentido, enfrentaram a dura realidade de um país arruinado pela guerra, fome, epidemias e profundas limitações econômicas.

 

Muitas divergências desenvolveram-se sobre o papel dos pais e do Estado na criação dos filhos; o papel da família na transição; a sexualidade sem entraves e a vulnerabilidade de mulheres e crianças em uma sociedade anterior à contracepção; o “amor livre” e as desejadas uniões baseadas no mútuo sentimento.

 

Diversas modificações legais profundamente avançadas foram aprovadas: reconhecimento do casamento de fato, legalização do aborto, facilitação do divórcio e sua transferência para a esfera administrativa, pensão, responsabilidade pelos filhos ilegítimos, refeitórios coletivos, creches nos ambientes de trabalho, restrições ao trabalho de gestantes e lactantes, lares para as crianças. Porém, contraditoriamente, ao confrontarem-se com a vida real, muitos desses avanços geraram consequências desastrosas para as soviéticas.

 

Num primeiro momento, o Estado assume a responsabilidade sobre a criação das crianças, mas sua dificuldade em arcar com tal política colocou milhares de crianças em situação de penúria: as instituições eram precárias, insuficientes e com falta de abastecimento. Centenas de milhares de crianças não tinham lar, morriam de fome, frio e doenças e vagavam sem assistência.

 

Por sua vez, a aprovação do divórcio beneficiava de forma desigual homens e mulheres. Estas, em sua maioria pobres, vítimas do desemprego, baixos salários e ausência de serviços estatais, eram dependentes do casamento com um trabalhador assalariado.

 

 

Além disso, era muito difícil uma mulher lograr obter a pensão, e, se a conseguia, seu baixo valor não permitia que sustentasse a si e a seus filhos. Soma-se a isso o fardo de criar sozinha os filhos. Aos ex-maridos também era impossível sustentar-se sem uma parcela de seu já muito reduzido salário.

 

A entrada das mulheres no mundo do trabalho também era marcada por desigualdades. Elas eram as primeiras a serem demitidas, as últimas a ser contratadas, recebiam os menores salários e possuíam a menor qualificação.

 

Enquanto não houvesse condições objetivas, tais como pleno emprego, bons salários, serviços de coletivização do trabalho reprodutivo, que permitissem a independência material da mulher, sua libertação seguiria sendo um mito.

 

Em 1936 aprova-se uma lei que contraria toda a concepção libertária dos anos 1920. Cinicamente, sob o argumento da mudança das condições econômicas, inicia-se um processo de inversão ideológica no sentido de fortalecer de forma repressiva a família, num recuo para preservá-la como unidade indispensável à exploração econômica e controle social. O Estado deixava de assumir a responsabilidade pelas funções da família, que recairiam novamente sobre as mulheres.

 

Todo o esforço de debate e mobilização sobre a estratégia revolucionária atrelada à emancipação das mulheres, detalhadamente apresentado, mesmo sob as difíceis condições da revolução, foi frustrado juntamente com seus rumos, notadamente sob o stalinismo.

 

Conclui a pesquisadora que:

A tragédia da reversão no campo da ideologia não foi simplesmente a de ter destruído a possibilidade de uma nova ordem social revolucionária, ainda que milhões tenham sofrido e morrido precisamente por esse motivo. A tragédia foi que o Partido continuou se apresentando como herdeiro genuíno da visão socialista original. (…) E a maior tragédia de todas é que as gerações subsequentes de mulheres soviéticas, desconectadas dos pensadores, das ideias e das experiências geradas por sua própria Revolução, aprenderam a chamar isso de “socialismo” e “libertação”

 

Esse livro é essencial para que, a partir de um melhor conhecimento das dificuldades e contradições das experiências passadas, possamos sintetizá-las e seguir lutando para que as revoluções sigam outros caminhos, afirmando o verdadeiro sentido de feminismo e do socialismo!

 

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 52

*Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mestranda em Direito Político e Econômico na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Membro da Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de São Paulo.