As teletelas do mundo real

Revelações de Edward Snowden sobre os segredos de segurança e as práticas de espionagem dos Estados Unidos, além de programas como Big Brother, nos remetem à obra profética 1984, de George Orwell

Por Aron Giffoni* | Adaptação web Caroline Svitras

Eric Arthur Blair, mundialmente conhecido como George Orwell, autor do livro 1984, trouxe a nós uma visão que, no ano de 1949 (ano de publicação do livro), não passava de mera ficção. Vou explicar o motivo disso, mas, antes, cabe apresentar uma síntese do livro para que o leitor que não conhece a obra tenha uma melhor compreensão do que será discutido neste texto e, também, para que se desperte um interesse futuro na leitura da obra.

 

A trama se passa na Oceânia e conta a história de Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade, um órgão que cuida da informação pública do governo. Nesse país existe, apenas, um partido, o IngSoc (que significa socialismo inglês) e o regime de governo adotado é o totalitário socialista. O chefe de Estado (se é que podemos dizer isso) era o Grande Irmão, o Big Brother. Em Oceânia, tudo era controlado pelo Estado, por meio de uma teletela, em que se podia ver e ouvir toda a programação que o IngSoc transmitia. O equipamento também servia como ferramenta de vigilância do Estado em relação às pessoas, pois se podia ver e ouvir o que todos faziam ou falavam.

 

Além das teletelas, o partido controlava o pensamento dos cidadãos por vários outros métodos, entre eles a Novilíngua. Na trama do livro, essa língua estava ainda em construção, mas, quando fosse finalizada, impediria que qualquer cidadão se manifestasse de forma contrária ao partido. Um idioma extremamente totalitário, criado pelos estudiosos do IngSoc. Um dos conceitos mais difundidos da Novilíngua é o pensamento duplo, ou Duplipensar, que torna possível ao indivíduo ter em mente duas ideias opostas e, ao mesmo tempo, acreditar e reproduzir as duas. Para exemplificar isso, podemos tomar os ministérios do IngSoc:

 

Ministério da Verdade: Todas as informações e documentos do passado eram falsificados por esse ministério. O objetivo era fazer com que nenhuma ideia de antes pudesse influenciar os cidadãos a se tornarem contrários ao IngSoc. O personagem principal da obra – Winston – é funcionário desse ministério.

Ministério do Amor: Esse era o responsável pela espionagem da população e pelo controle de desertores do partido. O controle se dava por métodos de tortura e lavagem cerebral.

Ministério da Paz: Responsável pela guerra. A Oceânia possuía dois inimigos: Lestásia e Eurásia. A guerra era divulgada amplamente e servia para conter o ânimo da população. O Ministério da Verdade sempre informava a vitória como sendo da Oceânia e nunca dos dois inimigos.

 

Diariamente, os cidadãos devem parar o trabalho por dois minutos e se dedicar a atacar, histericamente, o traidor foragido Emmanuel Goldstein e, em seguida, adorar a figura do Grande Irmão. Smith não tem muita memória de sua infância ou dos anos anteriores à mudança política e, ironicamente, trabalha no serviço de retificação de notícias já publicadas, “republicando” versões retroativas de edições históricas do jornal The Times.

 

A Polícia do Pensamento era encarregada de vigiar as pessoas e descobrir o que cada um pensava, por meio de seus atos e palavras. Certo dia, Winston conhece uma mulher que tem os mesmos pensamentos que ele a respeito do partido, e os dois passam a ter uma relação secreta, pois era proibido que duas pessoas que trabalhassem para o partido se relacionassem (o sexo era permitido, apenas, para a procriação). Os encontros se davam num quarto que, a princípio, não possuía teletela, mas ela estava escondida atrás de um quadro e os dois estavam sendo monitorados o tempo todo. Com a descoberta, a Polícia do Pensamento captura os dois e os submete a métodos desumanos de reintegração do pensamento.

 

Existem muito mais coisas a se falar sobre esse livro, mas considero suficiente o que foi sintetizado até aqui. A dica é fazer a leitura completa ou, então, assistir ao filme. A obra 1984 não foge à regra dos livros que viraram filmes. Portanto, leiam o livro primeiro e depois assistam ao filme. O livro é mais detalhista e nos faz objetivar conclusões muito pertinentes sobre o mundo contemporâneo.

 

Veremos agora o quão profética foi essa obra genial. O que ela tentava nos dizer no ano de sua publicação? Ficção ou profecia?

 

A teletela dos EUA
Edward Snowden revelou para a imprensa os segredos de segurança dos Estados Unidos, acessados quando prestava serviços terceirizados para a Agência de Segurança Nacional

O mundo ficou estarrecido depois que Edward Snowden revelou os segredos de segurança dos EUA. Francamente, eu já imaginava que isso acontecia, mas até que se provasse, ou que alguém plantasse a “sementinha da desconfiança”, era como se nada acontecesse. Snowden divulgou informações sobre os programas de vigilância do governo americano contra a população. As revelações publicadas, inicialmente nos jornais The Guardian e Washington Post, levaram Snowden a ser, ostensivamente, procurado pelas autoridades americanas.

 

Snowden teve acesso às informações reveladas quando prestava serviços terceirizados para a National Security Agency (NSA) – Agência de Segurança Nacional. Ao procurar os jornais para fazer as revelações, ele deixou o estado americano e seguiu para Hong Kong. O jornal The Guardian revelou que os serviços secretos de segurança norte-americanos rastreavam chamadas de telefones celulares da operadora Verizon e informações da internet vindas de servidores do Google e do Facebook.

 

Segundo o Washington Post, as autoridades federais dos EUA têm usado os servidores centrais dessas empresas para ter acesso a e-mails, fotos e outros arquivos dos usuários, permitindo a analistas rastrear movimentos e contatos das pessoas. Ao se apresentar ao mundo, Snowden disse que se sentiu na obrigação de denunciar, mesmo a um custo pessoal alto, os descomunais poderes de vigilância acumulados pelo governo dos EUA. Ele acrescentou que poderia ter permanecido anônimo, mas que considerou que sua mensagem teria mais ressonância se viesse de uma fonte identificada.

 

O Brasil foi alvo direto da espionagem americana e, juntamente com os outros países do Mercosul, rechaçou as atividades americanas de espionagem e deu força aos países que, eventualmente, viessem a conceder asilo político a Snowden. Ainda em discurso oficial, a ex-presidente Dilma Rousseff tratou da questão com ares de soberania ferida e segurança ameaçada.

 

Mediante essa exposição, como podemos ter certeza que nesse exato momento não estamos sendo monitorados? Como podemos caminhar na rua sem ter a sensação de liberdade restringida? Como publicar hashtags nas redes sociais sabendo que poderemos ser investigados por elas? Ou nunca pensaram que hashtags são palavras-chave, que podem ser monitoradas facilmente? Exagero meu? Não sei. Teorias de conspiração? Tampouco. O que sei é que desde as revelações de Snowden o mundo sabe que os EUA estão de olho nas teletelas instaladas pelo mundo, e, se nenhuma ação for tomada, sofreremos uma espécie de “espionagem consentida”. Com a expansão da internet e, especialmente, das redes sociais, podemos ser monitorados e manipulados. Nas redes sociais se fala de tudo! Nas redes sociais encontramos todos!

 

Quem nunca viu ou ouviu falar do clássico O show de Truman: o show da vida? Produção norte-americana de 1988, que mostra a vida de um homem que, inicialmente, não sabe que está vivendo na realidade construída de um programa da televisão transmitido 24 horas por dia para bilhões de pessoas ao redor do mundo. Truman começa a suspeitar da realidade e embarca em uma busca para descobrir a verdade de sua vida. A vida de Truman é filmada através de milhares de câmeras escondidas, sendo transmitida ao vivo para todo o mundo, em um cenário completamente construído e povoado por atores e a equipe do programa.

 

Enquanto as pessoas assistem a um homem tentando descobrir a verdade de sua existência, surgem algumas questões para reflexão na sociedade contemporânea. Mídia e sensacionalismo: o que pode ser feito para conseguir altos picos de audiência? Expor vidas ao olhar de milhões de pessoas e ver de perto como se comportam parece ser uma boa saída. Confinar pessoas e observar suas experiências e ações para depois julgá-las por meio de votação é, sem dúvida, o mesmo que praticar experimentos com ratos, privá-los da liberdade e, depois, descartá-los, pelo único motivo de terem reagido mal a alguma coisa, de não terem seguido padrões das diversas esferas da sociedade.

 

The Big Brother: o jogo

Criado no ano de 1999 pela empresa holandesa Endemol, o Big Brother é um reality show no qual pessoas seriam selecionadas para um confinamento dentro de uma casa, por um período aproximado de três meses, vigiadas 24 horas por câmeras, com imagens sendo transmitidas ao mundo todo. O nome do programa foi inspirado no livro 1984. A ideia é copiar as teletelas de Oceânia e transmitir ao maior número de pessoas, as quais julgarão os participantes, de acordo com suas condutas, morais, sociais, psicológicas e, por que não, sexuais.

 

Com isso, surge outro tema digno de reflexão. A publicidade exerce papel fundamental no financiamento desse tipo de programa. Marcas importantes no mercado de cosméticos, hipermercados etc. compram o seu espaço durante a exibição gravada e/ou ao vivo dos programas. Certamente, a ideia do merchandising caiu como uma luva, pois os altos custos de produção são financiados pelas cotas milionárias do horário nobre. É uma via de mão dupla, penso eu, pelo menos no que tange aos cosméticos.

 

O filme O show de Truman: o show da vida mostra a vida de um homem, que, inicialmente, não sabe que está vivendo na realidade construída de um programa de televisão, transmitido 24 horas por dia

 

Mas qual é a relação entre a espionagem americana, o livro de Orwell e os reality shows?  A obra 1984 e o Show de Truman nos remetem a refletir sobre o verdadeiro sentido do mundo. De acordo com Platão (na Alegoria da Caverna), os homens têm uma visão distorcida da realidade. Acreditamos em e enxergamos sentidos criados pela cultura midiática, e essa cultura nos passa informações e conceitos durante toda a vida, nos moldando de acordo com os padrões que, supostamente, são os ideais. Contudo, só é possível conhecer essa realidade a partir do momento em que nos libertamos das influências culturais impostas. Fazendo referência direta à Alegoria da Caverna, podemos dizer que o mundo é uma caverna e que tudo o que vemos através da sombra é o que nos é permitido ver, até então, presos a um submundo oferecido pelos meios de comunicação. Para conhecer mais, precisamos nos libertar das correntes que nos prendem a esse submundo da ignorância.

 

A descoberta da espionagem americana vem ao encontro dessa libertação dos padrões, pois, desde o 11 de setembro, os EUA vêm adotando uma postura antiterrorista extremamente ativa. Um país que já era nacionalista ao extremo (por natureza) agora se vê arraigado numa conduta de repressão não só com os norte-americanos, mas com o mundo todo. Querem saber tudo o que se passa pelas teletelas dos satélites, da internet, das redes telefônicas, na economia, na segurança nacional, no petróleo, enfim, em tudo o que for necessário para a manutenção do imperialismo americano. Assim como a Polícia do Pensamento vigia os habitantes da Oceânia, a espionagem americana vigia o mundo, para que não fujamos do padrão pacífico e não extrapolemos as fronteiras do que é considerado terrorismo.

 

*Aron Giffoni é sociólogo e especialista em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora – MG. E-mail: arongiffoni@hotmail.com

Fotos: Sociologia Ciência & Vida Ed. 52