BARBÁRIE e TERROR, ou, a “conta” chegou

Enquanto um de nós humanos estiver em situação de risco, violência, miséria, escravidão e desabrigo, todos nós também estaremos presos e ancorados nessa energia horrenda e mutilante

Antes de qualquer coisa, é preciso algumas ponderações estruturais que, a partir deste instante, servirão de fundamentações e premissas para as nossas reflexões. A primeira delas é um tanto quanto óbvia, mas, ainda assim, merece ser mencionada. Desde os tempos mais antigos, que remontam à própria origem da vida gregária humana na Terra, nós percebemos que o enfrentamento da realidade circundante se tornaria mais eficiente e prático se fosse encarado grupalmente, no que poderíamos chamar de trabalho conjunto. E deixar o estado natural que precedeu a civilização e passar a viver em sociedade não foi tarefa fácil.

Temos um problema global nas mãos. Que diz respeito a toda a humanidade. Mas, verdade também é que nas crises mais atordoantes e fatídicas, aquelas que exigem mais de nós, como seres humanos, é que  oferece uma das maiores e mais extraordinárias qualidades humanas: a criatividade

 

O bom selvagem, para poder abandonar sua condição de plenitude animal – como nos ensinou Jean-Jacques Rousseau – e se adaptar à vida gregária, precisou abdicar dessa autonomia e liberdade, animal e instintiva, e passar a seguir rigorosamente o Contrato social, sob pena de ser punido ou expurgado do próprio sistema societal que, pouco a pouco, se constituía. E, como ser humano é ser complexo, contraditório e diverso, faz-se necessário, fundamentalmente, lograr êxito em tolerar o outro (ou os outros), bem como suas complexidades, contradições e diferenças. Mesmo porque, sem isso, restaria apenas a barbárie. Pois, como Thomas Hobbes sabiamente detectou, antes da socialização, os seres humanos viviam numa eterna guerra de todos contra todos, o que, convenhamos, reduz e muito as chances de sobrevivência e permanência, seja do indivíduo, seja da espécie. Nossos ancestrais descobriram que enfrentar o mundo que os circunscrevia seria muito mais fácil e eficiente se o fizessem em grupo. Todavia, se por um lado essa nova dinâmica grupal trouxe inquestionáveis benefícios, por outro também exigiu um enorme esforço e dedicação psicossocial da própria espécie. Mas, não nos enganemos, pois as contradições entre o animal humano selvagem e o humano social civilizado persistem e nos desafiam até os dias atuais. Diante dessa conjuntura, a Sociologia é justamente a disciplina que vai se ocupar de tentar entender essas dinâmicas estruturantes que buscam conciliar a animalidade e a civilização de cada um, e, principalmente, esclarecer como os membros dessa socialização se organizam e se relacionam entre si. Um segundo ponto importante a ser destacado em termos de premissa é o seguinte: é impossível tentar argumentar racionalmente com alguém que coloca um cinto de explosivos no próprio corpo e parte fortemente armado para ações terroristas suicidas, pois ele crê firmemente que está fazendo o correto, ainda que esteja sendo ostensivamente manipulado, seja raso de raciocínio, tenha sofrido lavagem cerebral ou qualquer outra coisa que o valha, pois, ao fim e ao cabo, o resultado sinistro final será o mesmo: o terror da barbárie, a banalização da vida humana e a degradação da própria humanidade. Além disso, é preciso compreender também que esse momento histórico delicado que vivemos é o reflexo, um exsudato de um processo de colonização brutal, que remonta, em primeiro momento, a diversas culturas, e, em dimensão maior, ao Império Romano e ao colonialismo recente, que põe seus pés e suas garras na África e Oriente Médio, com a Guerra Santa, e, a posteriori, com as demais conquistas de terras e povos, que vão alimentar a futura Renascença, bem como às ocupações que têm seu ápice em todo o século XIX, num contexto renominado como Mercado Capitalista. E se o Velho Mundo está preocupado – como pretenderiam alguns -, pode-se dizer que está justamente pelos retornados desse mesmo processo de ocupação colonial que ele mesmo, outrora, iniciou. Ou seja, ao que tudo indica a “conta” finalmente chegou.

A nossa história pregressa é muito clara quanto a isso: violência gera violência, que gera mais violência, e assim por diante. E mais: outro fator determinante nesse contexto, que desde sempre foi (e ainda é) o gatilho que gera o extremismo do terror, é a questão da intolerância, que pressupõe o equívoco obnubilante de olharmos o outro e querermos que ele seja igual a nós, e, em muitos casos, exigirmos isso. Como já escrevemos em nossa coluna Cibercultura, no 58, intitulada Je suis Sociologie!, “um dos maiores problemas nesse tipo de contexto – podemos sustentar – é, com certeza, a intolerância. Quando o outro – por ser diferente e ter suas crenças e seus credos também diferenciados – passa a ser um problema, uma alteridade insuportável, um inimigo a ser combatido, e não apenas o diverso, exótico e até – por que não dizer – complementar; quando a fraternidade e a humanidade não podem ser ouvidas pela rudeza dos corações surdos e pelo amargor das almas agônicas a se digladiar; e, principalmente, quando exigimos que esse outro seja igual a nós, impositivamente, arbitrariamente, incondicionalmente: surgem então o terror, a barbárie, o genocídio”.

GLOBALIZAÇÃO DE QUÊ E PARA QUEM
Tudo isso – é bom que se diga – diz respeito também a essa globalização sectarista e extremamente parcial que aí está, cultuada pela mídia como um avanço civilizatório da humanidade, que só globaliza de fato o livre trânsito de capitais financeiros e corporações, mas que não o faz com as pessoas comuns – especialmente as menos privilegiadas -, que são ostensivamente impedidas de transitar entre as fronteiras dos países, e que encontram enormes dificuldades e empecilhos para ir e vir, e ainda arriscam suas vidas – já despedaçadas, desestruturadas e completamente destruídas – em migrações ilegais, por vias alternativas e extremamente perigosas, que, muitas vezes, roubam-lhes a única coisa lhes resta: as suas vidas. Porém, o que não se menciona é que o Velho Mundo tem uma dívida moral perante os desesperados que buscam uma vida melhor no interior desse mesmo império construído às custas deles. Em casos extremos como esses, a força bruta e a violência simplesmente não funcionam.


Quando o extremista terrorista fundamentalista detona sua bomba, mandando pelos ares tudo que existe ao seu redor, incluindo ele mesmo, ele só o faz porque as suas vítimas não são identificadas e significadas por ele como semelhantes

ENCRUZILHADA CIVILIZACIONAL

Encontramo-nos numa encruzilhada, onde, segundo o nosso rude entendimento, restam apenas duas grandes opções (ou caminhos) para a superação da atual crise. Começando pela melhor e mais virtuosa hipótese – e também a mais improvável e difícil de se concretizar, ainda que seja a que oferece certamente maiores chances de êxito de sanarmos as causas dos problemas -, que seria mudarmos o nosso paradigma egoísta e beligerante, e, através de uma ação coordenada globalmente, iniciarmos um novo ciclo de ações inteligentes e estratégicas para combater as causas, e não apenas os efeitos, por meio de um círculo virtuoso e humanístico, onde pudéssemos enxergar e compreender o outro como ele de fato é, ou seja, como um ser humano complexo, contraditório e diferente de nós. Em teoria parece simples, todavia na prática definitivamente não é, pois quando o extremista terrorista fundamentalista detona sua bomba, mandando pelos ares tudo que existe ao seu redor, incluindo ele mesmo, ele só o faz porque as suas vítimas não são identificadas e significadas por ele como semelhantes, sendo apenas meios para alcançar outros fins, que, pretensamente – pelo menos para ele -, justificariam esses meios brutais e indignos. É simples: quando um drone militar estadunidense elimina um alvo inimigo importante – independentemente de sua culpa, ou de ser um carrasco brutal e cruel -, a sociedade que dá a referida ordem de disparo fatal contra o referido pretenso inimigo registra tudo em vídeo de alta resolução e o divulga na mídia para o mundo inteiro ver e se admirar com o feito, esta sociedade quer mandar um recado relativo a questões de poder e vingança, mas, concomitantemente, também acaba mandando um outro recado que, por seu turno, diz respeito a toda a humanidade, e que também revela a natureza da própria relação hegemônica dominante, que, a um só tempo, exemplifica a desimportância e a banalização da vida. Até porque, sem embargos, se (e quando) somos bárbaros com os bárbaros que nos afligem, aterrorizam e atacam, tornamo-nos tão bárbaros quanto eles Não há dúvidas quanto a isso. No caso do carrasco eliminado pelo drone recentemente – pelo menos, segundo o nosso entendimento – fez-se o contrário do que se deveria fazer, pois matar pessoas sumariamente sem lhes oferecer a chance de defesa, de contraditório, e, no mínimo, um julgamento justo, somos tão brutais como nossos pretensos inimigos. Correto seria capturá-los vivos, apurar todos os seus crimes e violações dos direitos humanos e seus atos de guerra, e em seguida julgá-los e puni-los exemplarmente, segundo os ditames da lei. Aliás, como essa turma de extremistas radicais se tornou inimiga pública não só dos principais atores envolvidos (EUA, União Europeia etc.), mas de toda a humanidade, talvez seja hora de nos unirmos planetariamente através da própria ONU, fortalecendo-a novamente, como à época de sua criação, e organizarmos uma operação inteligente e massiva com o máximo de tropas possíveis, mas com o mínimo de disparos e confrontos, usando principalmente a inteligência e as tecnologias, e, em especial, adotando estratégias eficientes e menos conflitivas, como bloquear os recursos financeiros, cercar as regiões críticas impedindo a chegada de suprimentos e o trânsito de malfeitores, oferecendo dinheiro para obter informações e assim por diante. Talião e sua famigerada máxima – olho por olho e dente por dente – já consumiram olhos e dentes demais.

SABERES HISTÓRICOS SEPULTADOS
Há também, subjacente a tudo isso, o que Michel Foucault chama de saberes históricos sepultados, que ocultam enormes atrocidades e desumanidades que ele classifica como “organizações sistemáticas” e “ordenações funcionais”. Durante os julgamentos de Nuremberg, bem como durante o julgamento de Eichmann – conta-nos Umberto Galimberti, em entrevista concedida a nós e publicada recentemente na revista Filosofia Ciência&Vida, nos 107 e 108, intitulada O humano na idade da técnica -, que os generais questionados quanto à responsabilidade de suas ações respondiam sempre a mesma coisa: “Eu simplesmente seguia ordens”. Gitta Sereny, em suas 170 entrevistas com Franz Stangl, diretor do campo de concentração de Treblinka, pergunta, essencialmente, sempre a mesma coisa: como fazia para eliminar cinco mil pessoas por dia e, especialmente, o que sentia. Franz Stangl não entendia a pergunta e continuava a repetir a mesma ladainha: “Chegavam três mil pessoas às onze da manhã, que deviam ser eliminadas até às três da tarde, porque outras duas mil chegavam e deviam ser eliminadas até o dia seguinte. O método havia sido criado por Wirth. Funcionava. E uma vez que funcionava, era irreversível. Executá-lo era o meu ‘trabalho’ (Arbeit)”. Günter Anders escreveu uma carta de 60 páginas para o piloto americano que lançou a bomba sobre Hiroshima. Quer entender de onde ele tirou força e motivação para fazer uma coisa do gênero: lançar uma bomba atômica sobre um povo que não conhecia e onde nunca tinha estado, sabendo dos efeitos que produziria. O piloto nunca respondeu a carta, mas, tempos depois, durante uma entrevista a um jornal, perguntado sobre o que teria dito a Anders, sua resposta foi: “Nothing, that was my job” (Nada, era o meu trabalho). Em outras palavras, se considerava um bom piloto, porque sabia quando e como o botão devia ser pressionado. O que era necessário era apenas uma habilidade técnica. Este era o seu “trabalho” e, além disso, não era o responsável. A palavra “trabalho”, plena de considerações positivas, na era da técnica é muito perigosa, porque limita a responsabilidade à boa execução de ordens, e a responsabilidade em relação ao superior, sem qualquer consideração sobre os efeitos de suas ações. A responsabilidade termina aí. E isso significa passar do agir ao puro e simples fazer. Esta é a era da técnica como frequentemente nos lembra o presidente dos Estados Unidos, quando diz que vai permanecer no Iraque até terminar “nosso trabalho”, como se fosse apenas uma “tarefa”, sem responsabilidade final, indício de uma completa ausência de responsabilização em relação ao que está realmente “acontecendo”. Numa só palavra, há um distanciamento entre o ato e as consequências desses, onde, segundo a lógica hegemônica, pensar por si e ter livre arbítrio e consciência das consequências de suas ações são inapropriados. E isso se aplica a ambos os lados dessa guerra sem fim. E é justamente aqui que as “organizações sistemáticas” e “ordenações funcionais” que Foucault identificou acham seu lugar, e o mais importante, que estão intimamente relacionadas com um outro conceito foucaultiano importante, que se resume no seguinte: todas as relações são relações de poder. Em especial, nesse caso que analisamos, poder de dominação, que se traduz em interesses e poderes econômicos, que por sua vez estão ligados ao petróleo e às armas, e assim por diante. O que queremos dizer objetivamente é que as guerras e conflitos movimentam cifras astronômicas, e, é claro, existem grupos que lucram alto com toda essa parafernália que se faz necessária para esses infames conflitos. E, para esses grupos gananciosos e acríticos – sem meias palavras -, quanto mais guerras e conflitos armados acontecerem, melhor.

Nessa linha de raciocínio e argumentação, barbárie por barbárie, nós ocidentais e pretensamente civilizados, também  zemos as nossas, e elas foram tão brutais quanto essas que criticamos

E QUANTO A NÓS?
E, nessa linha de raciocínio e argumentação, barbárie por barbárie, nós ocidentais e pretensamente civilizados, também fizemos as nossas, e elas foram tão brutais quanto essas que criticamos, ou mais. Qual a diferença entre o massacre, dizimação e destruição de culturas ameríndias da América do Sul ou do Norte, o holocausto nazista, as decapitações e mortes na fogueira da santíssima inquisição cristã, as degolas da Revolução Francesa e os atos brutais dos extremistas? Do ponto de vista humanístico, absolutamente nenhuma. Em todos esses casos estavam em jogo relações de poder, intolerância com relação às crenças alheias, oportunistas perversos orquestrando e se beneficiando politicamente do caos, e pessoas manipuláveis a serviço dos últimos completamente convencidas de que estavam fazendo o que era certo, ou, como já mencionado, “fazendo apenas o seu trabalho”.

O que precisa ser dito, mas de modo geral é ignorado ou omitido, é o fato de que o modelo adotado mundialmente, de divisão rígida de territórios apenas por nações soberanas e independentes, já não está servindo às necessidades e demandas atuais. Uma desgraça incauta e imprevista em Fukushima, Japão, significa, por exemplo, irreversivelmente, uma desgraça global, com desdobramentos e consequências transnacionais, que extrapolam o lugar de origem, ou seja, a radiação que vazou não respeitou as divisas e fronteiras – e nem poderia ser diferente -, e se espalhou livremente por vários países, e, no extremo literal, no planeta, pois foram quantidades extremas de material radioativo e contaminante liberados na biosfera.

O mesmo vale para a atual crise dos refugiados que fogem para a Europa, fato que se relaciona diretamente com o caos insuportável de seus países de origem, crises locais estas que, indubitavelmente, têm conexões claras com a indústria da guerra, cujas armas foram fabricadas nesse mesmo Ocidente pretensamente civilizado que agora se vê barbarizado e perplexo, contexto que está ligado à de sigualdade, à concentração de renda, ao desrespeito recorrente dos direitos difusos da humanidade, que, grosso modo, como nos ensina Hans Jonas, resume-se a, em primeiro lugar, resguardar as condições mínimas para que haja futuro, e se estende a vários outros direitos difusos de todos os seres humanos, como a preservação ambiental, que dialoga e sustenta o que chamamos hoje de humanidade. Todavia, temos que admitir que essa desinteligência intolerante coletiva se arrasta há milênios. Mas isso definitivamente não significa que tenha ou vá fi- car assim sempre.

Numa só palavra: temos um problema global nas mãos. Que diz respeito a toda a humanidade. Mas, verdade também é que nas crises mais atordoantes e fatídicas, aquelas que exigem mais de nós, como seres humanos, é que floresce uma das maiores e mais extraordinárias qualidades humanas: a criatividade. Numa linguagem menos empertigada, podemos dizer metaforicamente que é caindo que se aprende a levantar e a não cair outra vez nas mesmas condições. Encurtando o assunto, temos um incomensurável desafio pela frente. E um dos pontos centrais reside na imagem que fazemos de nós mesmos, da natureza que nos abriga e sustém, e, principalmente, da nossa relação com ela. Enfim, precisamos mudar a nossa relação com a natureza, que já dá sinais claros de fadiga, e mais importante do que isso: precisamos rever a própria globalização, no sentido dessa globalização alcançar e incluir a ampla maioria da coletividade humana. Fica muito mais simples se sustentado de outra forma: a própria globalização, a internet, a ubiquidade informacional que atingimos, e a velocidade que nos mobilizamos é tal, que já agimos como um grande e onisciente organismo cibernético global. E é justamente por esse conjunto de fatores e muitos outros mais que esses autores não conseguiram elencar, que a crise na Síria, país situado num outro continente tem tudo a ver comigo, com você e com todos, ainda que seja mais visível e sensibilizante presencialmente e in loco do que pela TV ou pela internet. Assim, há que se preocupar com os sintomas desse gigantesco organismo social que começa a se dar conta de si, ou seja, começa a pensar, e logo existir, e uma vez que o paradigma emergente da vez se consolide (no nosso caso, a consciência da nossa condição de terráqueos), nunca mais poderemos enxergar o mundo, o planeta, a sociedade e a natureza da mesma maneira. Até porque, como já escrevemos em nossa coluna de cibercultura dessa revista, cujo título na ocasião era Je suis Sociologie!, “hoje, praticamente já não existe essa ‘coisa’ de ver e significar o mundo em termos de França, Brasil, Irã, Rússia, Japão ou quaisquer outras nações que se queira elencar, pois nada mais ocorre isoladamente, em países ou sociedades específicas, sem que haja repercussões extras nacionais, e sim globalmente, numa forma nova e emergente de consciência coletiva planetária, extremamente politizada, sensível e sensitiva, que age e reage ao sabor dos acontecimentos que ocorrem nela mesma. E é aqui que a cibercultura desempenha um papel decisivo, já que interconecta essa consciência coletiva sensível e emergente, gerando essa onisciência holonômica. Tudo se passa como se o mundo fosse, de fato, um enorme e único organismo social, como provavelmente deve ser, e o que se constata é que essa enorme nação global viva pulsa, fervilha, transforma-se, construindo por si mesma sua condição, seu caminho, sua história, seus valores, suas tradições, mitos e símbolos, e nesse processo, nesse árduo e contínuo trilhar – buscando, entre outras coisas, assimilar essa sua nova identidade plurinacional” e una.

Petróleo » Essa história que narramos no decorrer deste artigo é também a história (1) do petróleo, como principal matriz energética desde a Revolução Industrial, e (2) de um mercado que nunca inclui e nunca incluiu em suas preci cações o custo social e nem o custo ambiental de suas produções e comercializações… Pois é, ao que parece, a “conta” chegou. Dos polímeros de plástico, que lentamente ocupam os oceanos e envenenam a cadeia alimentar do nosso planeta, adoecendo animais e humanos, até o caos e o horror de explosões e decapitações, na emergência absurda de uma barbárie anacrônica e aparentemente superada pela civilização e seu mal-estar – “tudo isso” diz respeito a essa mesma história de exploração e luta pelo poder e pelo petróleo. Um exemplo emblemático recente, e muito instrutivo historicamente, foi a invasão bárbara do Iraque pelos EUA, com a desculpa infame e deslavada desse país possuir um arsenal de armas químicas, que poderia ameaçar a coletividade, teoria que nunca se con rmou de fato, ou seja, pelo contrário: revelou-se uma monumental e conveniente falácia, que, pelo menos naquele momento, acabou justi cando a invasão. Mesmo porque os invasores e invadidos sabiam exatamente o que estava em jogo: as reservas de petróleo daquele país, tanto é que, ao partir, os vencidos que se evadiam incendiaram os referidos poços de petróleo, o que causou enorme dano ambiental e exaustivos esforços para controlar os incêndios. Retomando o que já foi mencionado, este é mais um bom motivo para fortalecermos o nosso rumo às energias alternativas e mais limpas e ao desenvolvimento impreterivelmente sustentável, fazendo desta crise global uma oportunidade de mudança planetária e igualmente radical, para criar – quem sabe – uma realidade mais digna, humana e fraterna.

A fraternidade seria a única qualidade capaz de lidar com tamanhas atrocidades e desumanidades. O mundo de nitivamente não precisa de mais armas, guerras, con itos, massacres, pilhagens, refugiados, explorações, desumanidades e barbáries. É chegado o momento de tomarmos consciência de nossa cumplicidade

O CAMINHO DO PREGUIÇOSO
Mas, abrindo mão de quaisquer utopias mais humanistas para a espécie humana – mesmo que a contragosto -, temos que considerar a provável e nefasta hipótese – em tudo desfavorável às coletividades – de que cada um de nós só pense em si e que os refugiados, a crise no Oriente Médio, o outro, o estrangeiro, o meio ambiente e os mais necessitados sejam mandados literalmente “aos diabos”, como dizia o alagoano pai de meu pai – já que esse é o caminho do preguiçoso -, e que, de acordo com essa lógica, as nações mais ricas e poderosas do planeta combatam apenas os sintomas, ignorando as causas (econômicas, políticas, sociais) e utilizando, como remédio e terapia, força bruta, poder bélico, bombas, tiros e canhões. Mesmo porque essas pessoas menos favorecidas e desesperadas, que incomodam a Europa com suas necessidades, só fazem sentido no esquema societal clássico vigente e hegemônico que é cultuado e perpetuado limpando mesas, recolhendo a sujeira, vigiando e guiando os carros, abrindo e fechando portas e todos esses serviços menores que abundam no ambiente societal. E, de preferência, executando-os (todos esses serviços teoricamente indignos, mas completamente fundamentais à manutenção de nosso modo cômodo de vida), se possível, em total silêncio. De preferência, que façam isso tudo e ainda sejam invisíveis, pois vê-los poderia despertar conflitos contraproducentes à sociedade capitalista. Numa analogia à realidade brasileira, por exemplo, os nordestinos, que construíram as grandes cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e as grandes capitais, só são bem-vindos, úteis e minimamente aceitos socialmente apenas na construção das ruas, avenidas, pontes e edifícios que, depois de prontos, eles dificilmente irão utilizar. E o pior: eles ainda são discriminados por serem oriundos da região Nordeste, uma das mais desprivilegiadas do país, mas cuja bravura e disposição desse povo para o trabalho – além de outros aspectos humanos como honra e amizade – são sabidamente inigualáveis. O que dizer dos que tornaram o mundo uma prateleira de mercado, e, assim, passaram a tratar das mais diversas questões de modo tabular, raso, nos mostrando suas expectativas, tracejos estatísticos, que recortam irrequietos o que ainda entendemos como realidade em seus planos, níveis, quedas, depressões, lucros, despesas, custos, lucros outra vez mais, prospecções de ganhos, instalações outras essas que tracejem a vida, vidas, realidades massivas e particulares, também o que definimos como cultura, sociedade e tudo o mais quê? Como ficarão as respostas que não aconteceram em referência ao envolvimento milenar com a dominação e ocupação de terras e culturas de outros povos que resulte num ódio que dê “justificações” a qualquer um que se carregue de explosivos e cause um dano simbológico tão absurdo que nem haja mais que providenciar em contrário se, não, a contradita também armada e difusa que possa em propósito perspectivo bem urdido e sustentado pela mercancia armamentista responder com tanto peso de fogo que crie outra cultura da violência-em-direito-de-resposta que já se tenha a plena garantia da aceitação mais efetiva e sem maiores discussões a respeito, a questionar tais absurdos de parte a parte, como se isso fosse apenas a parte-pior do negócio, e que esse tenha muitos outros itens positivos que “justifi- quem” as atitudes de ambos os opostos?

A tragédia que se deu no estado de Minas Gerais, no coração do Brasil, desdobrou-se em consequências que ultrapassaram em muito as fronteiras e divisas desse mesmo estado, afetando toda a região Sudeste, já que as milhares de toneladas de lama e rejeitos de mineração altamente contaminantes foram seguindo os cursos d’água e afluentes

A degola, como ato antropofágico e catártico antigo, remonta à longuíssima barbárie que precedeu a civilização. Sua ocorrência, nos dias atuais, indica uma condição de extrema fragilidade civilizacional, em que a mutilação do corpo da vítima pretensamente significaria triunfo.

ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES
Usando uma linguagem simples, podemos afirmar com alto grau de certeza que nós, terráqueos, temos que nos dar conta de que temos apenas essa “bolinha azul” perdida no meio da imensidão do cosmo e mais nada. Se nós a destruirmos – é bom que se diga -, não haverá alternativa, será o nosso fim. É importantíssimo que percebamos isso a tempo. Essa nossa condição coetânea de cumplicidade e fragilidade. Termos a capacidade de compreender, receber, amparar e ajudar o outro fragilizado e em condição de risco e ameaça, simplesmente por humanidade, por ele ser um semelhante digno de respeito, apoio e proteção como nós. É muito conveniente e midiaticamente atrativo para os espectadores inertes e impotentes mundo afora iluminar os monumentos mais representativos das nações do mundo com as cores da bandeira francesa, em sinal de solidariedade, mas o que isso significa ou como isso modifica a crise em si que aí está? Aliás, no que se refere a isso, nós mesmos já chamávamos a atenção dos leitores da Sociologia para os sinais e sintomas da entropia que se avizinhava, e que agora se agiganta e nos atordoa e aturde. Buscando e perseguindo um fundo de sentido ou razão qualquer plausível para as atrocidades impetradas por esses mesmos grupos extremistas radicais no início desse mesmo ano (2015), em artigo intitulado Logus espermático (Razão seminal), dizíamos que os “trinta e nove mortos barbaramente assassinados na praia do hotel de alto luxo para turistas na Tunísia, que ocorreu no mesmo dia – atentados coordenados através das redes sociais -, e essa morte específica por decapitação em solo francês [incluindo o selfie que o terrorista fez com a cabeça degolada] trazem consigo uma enorme carga simbólica a ser decifrada [pois são sintomas claros de um problema muito maior].

Em seu universo restrito e tosco de entendimento, em seu exíguo horizonte de compreensão, em sua brutal desumanidade e cegueira, o terrorista sobrepuja o sistema e de fato pontualmente barbariza a civilização”. Destarte, o monumental desafio que se coloca diante de nós (humanidade) no momento é ter que ressignificar a nossa própria condição existencial humana, e, de acordo com isso, também ressignificar a nossa relação com o outro (ou outros), com o diferente, com o meio ambiente, incluindo necessariamente suas necessidades e anseios. O que dizer quando o mundo é exposto à venda nessa enorme prateleira de mercado em todas as suas perspectivas referenciais éticas e morais, e passem a ter “um peso midiático” ao avaliarmos situações como, por mero exemplo, o desastre de Minas Gerais e o último atentado de Paris? No caso de Minas, todos os animais aquáticos morreram! Toda a microfauna, também. Todas as plantas, o lençol freático, as nascentes, mas “há esperanças, pois que todos os imóveis da região foram devidamente locados para as vítimas e valorizados”, disse a moça na TV. Todavia, o que não é mencionado, e nem muito menos percebido e significado, é que a tragédia que se deu no estado de Minas Gerais, no coração do Brasil, desdobrou-se em consequências que ultrapassaram em muito as fronteiras e divisas desse mesmo estado, afetando toda a região Sudeste, já que as milhares de toneladas de lama e rejeitos de mineração altamente contaminantes foram seguindo os cursos d’água e afluentes, principalmente do rio Doce, e agora podem também prejudicar – dizem os especialistas – toda a vida marinha da costa brasileira, devido a um sistema complexo de correntes que espalhará isso pelo oceano Atlântico, e cujas consequências certamente não serão benéficas. Ou seja, novamente um acidente local gera consequências continentais, e, se levarmos ao pé da letra, trata-se de uma catástrofe ecológica global, já que é a tal da “bolinha azul” que está sendo, mais uma vez, mutilada e destruída.

Para encerrar essas reflexões, faremos nossas as palavras do ex-presidente do Uruguai José Mujica, cuja vida cotidiana é um exemplo vivo de suas ideias vanguardistas de extrema humanidade. Em visita recente ao Brasil, e falando para um público de estudantes revoltosos e insatisfeitos com a atual crise de corrupção, ele, com grande sabedoria, afirmou in verbis: “Nada é mais bonito que a vida. Mas, na vida há que se defender a liberdade. É possível esparramar a vida pelo universo. A vida humana. Mas, para isso, é preciso que comecemos a pensar como espécie, não só como país. A generosidade é o melhor negócio para a humanidade. (…) Nunca haverá um mundo melhor se não lutarmos para melhorarmos a nós mesmos. Faça da sua vida a aventura de não apenas sonhar um mundo melhor, se não lutar por ele, gastar a vida lutando por ele”.Ademais – e reforçando essa ideia de fraternidade global -, ousaríamos afirmar que, enquanto um de nós humanos estiver em situação de risco, perigo, ameaça, violência, miséria, escravidão, desnutrição, indignidade e desabrigo, todos nós (humanidade) também estaremos presos e ancorados nessa energia horrenda e mutilante, pois, mesmo que ignoremos, somos todos irmãos, vivemos num mesmo planeta, temos as mesmas necessidades, e gozamos das mesmas condições de sensibilidade e fragilidade. Por isso a fraternidade é – segundo o nosso entendimento – a única qualidade capaz de lidar com tamanhas atrocidades e desumanidades. O mundo definitivamente não precisa de mais armas, guerras, conflitos, massacres, pilhagens, refugiados, explorações, desumanidades e barbáries. É chegado o momento de tomarmos consciência de nossa cumplicidade compartida com respeito ao planeta e à própria civilização humana, tomando consciência de vez que estamos juntos e irreversivelmente conectados numa única e mesma realidade.

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia.
**J. Bamberg é sertanejo, professor, pesquisador, artista e humanista, conselheiro e presidente da instituição ICCD/I. KAAPIKONGO – do Brasil de Dentro.

¹ Em respeito às vítimas dos atentados em Paris do dia 13/11/2015, e todas as outras vítimas sem nome que se somam às estatísticas da barbárie e do horror extremista e fundamentalista.

Revista Sociologia Ed. 62