Capitalismo e tecnologia

A máquina do capitalismo da informação é o computador, porém o aparato como tal é inocente: tudo depende de quem o maneja e com que finalidade. Uma vez expressado o egoísmo humano mediante uma fórmula, como já é o caso, permite calcular uma sociedade inteira

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: 123 REF | Adaptação web Caroline Svitras

Estimados leitores da Sociologia, o texto que se segue é o resultado da leitura crítica do livro de Frank Schirrmacher intitulado Ego: las trampas del juego capitalista (2014), obra que aborda de maneira muito interessante não apenas a nossa história técnica pregressa recente como também a tendência atual de nossas sociedades de aderir às novas técnicas e tecnologias, que vão surgindo progressivamente, oriundas das ciências de fronteira, e que prontamente ingressam na vida societal, provocando revoluções disruptivas, sem que essas mesmas sociedades consigam, nesse ínterim, mensurar as consequências e desdobramentos totais dessas mesmas dinâmicas e ações que colocam em marcha. Resumidamente, o referido autor constrói sua narrativa através de uma preocupação insistente e altamente fundamentada quanto ao presente e ao futuro de nossas sociedades diante das inteligências artificiais complexas, área que nós também pesquisamos há mais de cinco anos, apontando para cenários futuros de crise e reordenação técnica e psicossocial. Destarte, objetivando enriquecer a leitura e ampliar os horizontes com aportes teóricos de outros pensadores e autores que também se ocupam cotidianamente dessas mesmas questões, estabeleceremos um diálogo mais abrangente com as ideias, obras e conceitos dos mais importantes autores das ciências relativas às inteligências artificiais, que englobam a computação, a cibernética, o design de ambientes e softwares digitais, algoritmos inteligentes, entre muitos outros.

 

A origem

Se ignorarmos por um momento toda a história pregressa das IA (inteligências artificiais), que remonta mais de dois pares de séculos, com os primeiros autômatos da Europa do século XVIII, e com efeito toma corpo no final do século XX, poderíamos dizer que tudo começou “inocentemente” – de fato – durante a Segunda Guerra Mundial, com a paranoia beligerante dominante da vez, e que se consolidou definitivamente com o fim desta. Grosso modo, como ambos os lados possuíam arsenais nucleares suficientes para dizimar o inimigo e ainda destruir vários planetas Terra inteiros iguais ao nosso, iniciou-se um jogo brutal de tentativas de antecipação de jogadas táticas dos adversários entre si (União Soviética e EUA), que viria a transformar profundamente os rumos das sociedades pós-guerra, incluindo a própria Pós-modernidade. Os primeiros experimentos formais desse tipo com humanos foram realizados pelos (e com os próprios) militares, que trabalhavam horas a fio em bunkers secretos e subterrâneos, observando continuamente aquelas antigas telas verdes dos radares em salas escuras e lúgubres em busca de pontos luminescentes que pudessem representar ameaças inimigas.

 

O trabalho era extremamente monótono e entediante. Para mantê-los ativos e acordados, impuseram-lhes a ideia de que naquele “jogo” de vigília a luz poderia significar de fato a perda de milhares de vidas, já que os artefatos nucleares eram e ainda são relativamente compactos e fáceis de transportar e deflagrar. O objetivo era entrar na cabeça das pessoas, e esse objetivo moralmente duvidoso – para dizer o mínimo – foi plenamente alcançado. Em termos lógicos, tudo se baseava nas seguintes premissas e racionalizações.

 

No contexto do pós–Segunda Guerra de agrou-se uma lógica mercadológica baseada em previsão de comportamentos e na proteção de si: há sempre um inimigo “lá fora”

 

Em primeiro lugar há um inimigo “lá fora”, o outro, e, diante desse inimigo hipotético, pensa-se, preventivamente da seguinte forma: (1) eu penso, que ele pensa, que eu penso, que ele pensa que eu penso…, ou, em outros termos, o que meu inimigo sabe que eu sei que ele sabe que eu sei?, levando isso o mais longe que seja possível, e, em segundo, ter como certo e praticamente absoluto que (2) todos agem sempre egoisticamente e em benefício próprio, ainda que pensem que estão agindo altruisticamente e em prol da comunidade. E, como escreve Schirrmacher (2014, p. 23), se teoricamente “cada um atua exclusivamente em proveito próprio, é possível traduzir toda a complexidade do comportamento humano em linguagem matemática”. Todavia, antes de adentrar na referida temática, torna-se necessário conhecer alguns detalhes da história em questão.

 

Findada a Segunda Guerra propriamente dita, consumada por meio de combates, bombardeios e confrontos, deflagração de artefatos nucleares e dizimação de cidades inteiras, inicia-se a Guerra Fria, e com ela permanece consolidada a lógica egoística e paranoica, e foi então que a teoria dos jogos e a teoria do equilíbrio de Nash passaram a desempenhar papel central na política de segurança das duas grandes superpotências de então. Teorias que viriam a desencadear um processo que se estende até os dias atuais, já que essa lógica egoísta e paranoica acabaria se transformando no principal modelo seguido mundialmente, inicialmente pelos mercados, mas que logo abarcaria toda a nossa sociedade. Schirrmacher (2014, p. 24) nos informa que “esse modelo mental rápido deixou de permanecer circunscrito às estratégias de rearmamento e de guerra. Não era unicamente um instrumento, senão que se converteu em uma educação subliminar, durante décadas, para o egoísmo. O computador demonstrou o quão surpreendentemente longe se podia chegar se todos os cálculos se baseiam nessa motivação. Era uma máquina inocente, porém a matéria com a qual a alimentaram deixou de ser, como se tem assinalado com razão, um sistema de instrução para converter-se em um sistema de doutrinamento”. E diante desse contexto, como escreve Schirrmacher (2014, p. 149), “havia retornado a Guerra Fria, mas em forma de uma Guerra Fria que foi declarada pela sociedade a si mesma”.

 

Novo tempo, velha lógica
Schirrmacher | Foto: Wikipedia

Com a queda do muro, com os acordos nucleares e todas as demais transformações que ocorreram, adentramos num outro momento histórico, um tempo veloz e cibernetizado, em que a mesma lógica egoísta e paranoica – pasmemos – passaria a ser também a lógica geral. Em outros termos, o usuário desse novo aparato técnico ingenuamente acredita usar um sistema que de fato, na verdade, faz uso dele próprio. Outro pioneiro nesse campo de otimização comercial das inteligências artificiais foi Newell. “A máquina do capitalismo da informação é o computador, porém o aparato como tal é inocente [informa-nos Frank Schirrmacher (2014, p. 12)]: tudo depende de quem o maneja e com que finalidade. Uma vez expressado o egoísmo humano mediante uma fórmula, como já é o caso, permite calcular uma sociedade inteira.” Esse é exatamente o caso das IA que atuam como agentes negociantes de ações nas bolsas de valores do mundo todo. Elas eram alimentadas, como escreve Schirrmacher (2014, p. 78), “com fórmulas da teoria dos jogos, e realizavam operações de estoque cada vez maiores.

 

Desse modo, pela primeira vez o ‘egoísmo’ deixou de ser exclusivamente um atributo do ser humano e passou a ser executado também por programas de computador”. “Esse grande experimento social com as pessoas da sociedade civil começou com a automatização do processo de negociação nos mercados financeiros”, informa-nos Schirrmacher (2014, p. 91), e atualmente encampa progressivamente todos os setores estratégicos da vida contemporânea: fornecimento de energia, monitoramento de fronteiras, controle de reatores nucleares, patrulhamento ostensivo, previsão meteorológica, armas de guerra complexas como os drones autômatos estadunidenses, que já eliminaram milhares de pessoas, ou mesmo um simples motor de busca na internet: lá estão elas, as inteligências artificiais. A lista de aplicativos cibernético-informacionais de automação é simplesmente interminável, e o mesmo vale para técnicas de computação e processamento de dados. Computação massivamente paralela, algoritmos evolucionários, softwares heurísticos, inteligência coletiva e distribuída, redes neurais, sistemas emergentes, biocomputação. Eis o mundo que estamos construindo. A pergunta pertinente que nos apresenta Schirrmacher (2014, p. 91) é a seguinte: “Por que a rede e o telefone móvel e as poderosas que estão por trás desejam saber o que vamos fazer a seguir?”. E ele mesmo nos responde: “Porque o que fazemos e pensamos são jogadas”. E essas jogadas – prosseguimos nós –, se e quando previstas corretamente, traduzem-se em oportunidades comerciais fabulosas. Que negócio extraordinário não é poder descobrir e prever algo que nem mesmo os próprios sujeitos consumidores sabem ainda? O que vão querer, fazer, falar, vender, comprar? Sim, é isso mesmo: referimo-nos àqueles famigerados anúncios de produtos e serviços segmentados que aparecem do lado direito das nossas telas de computador o tempo todo, reforçando a certeza intrusiva de que eles foram customizados e direcionados exatamente para nós, de acordo com nossas próprias escolhas e preferências. “A venda de anúncios não só gera benefício, senão também fluxos de dados sobre os gostos e hábitos do usuário. Dados que o Google [informa-nos Schirrmacher (2014, p. 92)] grava e processa para predizer o comportamento futuro do consumidor, melhorar os produtos e vender mais anúncios. Essa é a alma e coração do ‘Googlenomics’. É um sistema de constante autoanálise: um laço de reacoplamento baseado em dados, que não só é o futuro do Google, senão também o futuro de todo aquele que faz negócios on-line.” Numa linguagem mais coloquial e objetiva, bisbilhotar o comportamento dos usuários mundo afora, a partir de seus próprios padrões de comportamento, torna-se e tornar-se-á cada vez mais a fórmula do sucesso comercial, seja a que preço for.

 

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Sociologia Ciência & Vida Ed. 69

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É autor dos livros Humano-pós-humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.); Nanotecnologias: Zênite ou Nadir? E-mail: a-quaresma@hotmail.com