Catadores de histórias

Cinema, lixo e sociedade na produção de Tania Quaresma

Por Alexandre Quaresma* | Foto: Waldir de Pina | Adaptação web Caroline Svitras

Tania Quaresma poderia a grossíssimo modo ser definida como uma rebelde nata. Ela se enquadra numa classe especial de artistas singulares que, com seu talento, sempre fazem (e fizeram) o que querem (ou quiseram), mas tudo sempre com muita qualidade e competência. E isso sem tomar o menor conhecimento do machismo hegemônico e castrador que dominava seu tempo de juventude, e que ainda domina – infelizmente – a própria narrativa histórica humana da atualidade. Começou sua carreira profissional muito cedo (aos 17 anos), para os padrões vigentes da época, como fotógrafa do jornal Folha da Tarde, do grupo Folha, em 1967, documentando os movimentos estudantis e operários de protesto contra o governo militar. Desde então, trabalhou para as mais importantes redes de TV do Brasil; fotografou os Jogos Olímpicos do México (1968); documentou a vida em Cuba; fez curso de cinema na Alemanha; e produziu diversos documentários, séries de TV, discos, shows e exposições multimídia. Seu primeiro longa – Nordeste: cordel, repente, canção (1975) – foi agraciado com os prêmios Air France de Cinema e Coruja de Ouro de melhor som. Destaca-se também na sua trajetória o longa metragem Trindade: curto caminho longo (1976-1979), que envolveu a nata da MPB instrumental. Desde então – juntamente com sua seleta equipe – produziu e dirigiu diversos projetos culturais e sociais, culminando com o sucesso de Catadores de história (2016). O filme recebeu três prêmios na mostra competitiva do Troféu Câmara Legislativa no Festival de Cinema de Brasília, em setembro de 2016: melhor trilha sonora, melhor fotografia e melhor filme de longa-metragem (júri oficial). Para que possa se envolver com seus projetos, seja de vídeo ou filme, faz-se indispensável o sentido social da coisa eternizada por meio de seu olhar singular, inquiridor e lúdico. Sua arte é retratar o real, e sua maior habilidade é compreender o outro que se encontra diante de suas lentes. Seu labor cotidiano plasmou uma história extraordinariamente nova no Brasil, na qual as mulheres também poderiam dirigir suas criações, sonhos e ambições imagéticas. Ela concedeu esta entrevista com exclusividade para os leitores da Sociologia.

 

Na produção da cineasta, em meio às pilhas de lixo, a vida urbana é perspectiva cada vez mais distante | Foto: Edmilson Figueiredo

 

Politicamente falando, e em meio ao caos reinante, como você enxerga uma possível solução para a crise política generalizada que vivemos hoje no Brasil?

Josué de Castro, nascido em 1908, fala por mim: “Será preciso mobilizar a opinião pública, com métodos modernos de comunicação de massa, capazes de criar uma cultura de massa, dinamizada por uma ideologia de igualdade. Esta mobilização da opinião pública só se pode fazer utilizando meios de intercomunicação, que são muito diferentes dos métodos de informação unilaterais, pelos quais os informadores não deixam filtrar à massa senão os conhecimentos e as ideias que interessam ao grupo dominante” (trecho do discurso “Estratégia de Desenvolvimento”, proferido por Josué de Castro em 1970 e presente no vídeo Josué de Castro – por um mundo sem fome, por mim dirigido em 2004).

 

Qual seria o papel do cinema na formação de uma massa crítica suficientemente capaz de reconhecer sua própria identidade?

Cinema no Brasil ainda é para poucos. Acredito ser preciso desenvolver uma estratégia mais para Robin Hood do que para Hollywood, e agilizar lançamentos populares solidários. O povo brasileiro precisa, com urgência, se ver e se repensar.

 

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*Alexandre Quaresma é colunista e colaborador de Sociologia.

Sociologia Ciência & Vida Ed. 69

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