Ciberdependência?

Por Alexandre Quaresma* | Adaptação web Caroline Svitras

 

A cibercultura e as realidades virtuais estão transformando radicalmente a nossa experiência psicossocial coletiva, ou seja, a forma como vivemos, nos comportamos, nos sentimos, nos compreendemos e a própria realidade ao nosso redor. E isso vem acontecendo de diversos modos diferentes. Se por um lado elas funcionam muito bem como ferramentas de hiper-conexão para humanidade, potencializando atividades e articulações sociais, profissionais, artísticas, de comunicação, entretenimento, diversão, estudo e lazer – isso, para citar apenas algumas –, por outro, elas também têm provocado uma reconfiguração da própria cultura que nos envolve e contém, pois vão permeando toda a nossa atividade social, mesclando-se progressivamente a todos os seguimentos da vida coletiva, absorvendo assim a nossa atenção, o nosso sentimento de gozo, e, o mais importante, a estruturação do significado seminal do que nós mesmos concebemos e conferimos às nossas singulares vidas em termos de valores e sentido. Sim, pois o sentido da vida, o seu valor, está, como sabemos, exatamente onde nós o colocamos, e a internet e os computadores, nesse sentido, também não fogem a essa regra.

 

E, de fato, seria ingenuidade crer que esses fenômenos sociotécnicos são apenas benéficos e positivos para as coletividades humanas, já que, como quase todas as tecnologias precedentes que criamos, elas vão abrindo portas, descortinando novos horizontes, criando novas perspectivas e potencializações, mas, concomitantemente a isso, vão também fechando outras, obliterando nossa visão da vida e se interpondo entre nós e a própria realidade que nos cerca, por meio de sua confortável e dissimulada ubiquidade. Numa só palavra, nós usamos computadores e internet por um motivo muito simples: eles funcionam, facilitam as nossas vidas, e – por que não dizer – nos dão um enorme prazer, ao nos distrair do que os psicanalistas chamam de real.

 

Do desamparo ao esquecimento

 

Mas como estabelecer um parâmetro plausível que possa orientar a nossa interação com essas possantes ferramentas? Alguns pretensos especialistas na matéria, e críticos desses comportamentos, alardeiam que bastaria ficar duas horas ou mais por dia conectado à internet, sem um objetivo concreto, comprovadamente útil e produtivo, para aí então já ser considerado um ciberdependente. Eles argumentam que essa sensação de prazer que obtemos ao vagar livremente pela rede de computadores, ou mesmo trocando mensagens e atualizando perfis nas redes sociais, acaba gerando um efeito de compulsão muito semelhante ao das drogas, pois, teoricamente, afastariam o usuário do resto de sua realidade factual, de seu contexto, do convívio social, presencial, familiar, atrapalhando seu desempenho acadêmico e profissional, e o que é pior, gerando vício e dependência.

 

 

Espelho societal

Não é difícil perceber que “isso tudo” é um reflexo da própria cultura consumista, superficial e vazia que construímos através da história, da lógica produtiva que o capitalismo tende a nos impor, em sua extrema superficialidade e falta de sentido, que não seja o da produtividade e do resultado. Todavia, um ponto que não deve passar despercebido, é que esses parâmetros nos são ditados e praticamente impostos por nossa própria concepção coletiva e milenarizada do que é ou deveria ser o melhor para nós mesmos, ou seja, do que é digno e virtuoso, e do que não é.

 

Enfim, o foco da referida discussão sobre ciberdependência estaria equivocado, pois, ao invés de tentar compreender as causas desses fenômenos, ele se restringe, na maioria das vezes, a tentar mapear e rotular todos aqueles que, por diversíssimas razões, não se enquadram nessas normas e padrões socioculturais, rotulando-os e estigmatizando-os como portadores de uma pretensa patologia. Sem dúvida, o ideal seria o próprio sujeito poder discernir o que é benéfico ou prejudicial para si mesmo, diante de seu livre-arbítrio e das expectativas que possui acerca de sua vida e de sua existência.

 

Foram consumidas no Brasil, em 2011, 3,5 toneladas de antidepressivos. É a lógica de receitar remédios para qualquer queixa sobre ânimo, humor e disposição | Foto: Shutterstock

 

Todavia, o verdadeiro problema que se coloca diante de nós é que, na prática, isso não é tão simples assim, pois, à medida que o mundo cotidiano vai se tornando mais árido e desconfortável, é cada vez maior o número de pessoas – e isso é um fenômeno global – que buscam refúgio e sentido na imersividade reconfortante do universo cibernético-informacional. O filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832), e sua sagaz teoria do utilitarismo, já demonstrava claramente que existem duas forças que, inelutavelmente, regem os seres humanos, em todas as suas relações com o mundo e consigo mesmo, do nascimento à morte, das quais, segundo ele, não se podem escapar, que seriam a dor e o prazer.

 

A tese utilitarista de Bentham pode parecer à primeira vista simplista e até reducionista, mas o fato é que suas ideias e teorias nunca foram tão atuais e úteis para compreendermos esse incomensurável caldeirão ferbulhante que o virtual e a cibercultura estão a erigir e consolidar. Grosso modo, Bentham sustenta que, diante da vida em sociedade, com sua multiplicidade de interesses e necessidades, direitos e deveres, torna-se importante conceber o que ele chama de “cálculo hedonístico”, que seria a soma dos prazeres e dores obtidos nas experiências concretas como critério para julgar a utilidade de uma ação.

 

Enfim, o principio de utilidade – em tudo diferente dos princípios úteis do capitalismo – seria, fundamentalmente, favorecer o prazer e evitar a dor, sempre, não só do indivíduo, mas também da sociedade. Útil, nesse sentido, na esfera pessoal, seria a busca da felicidade do sujeito, e, no plano societal, para o maior número de pessoas possível. E é justamente aí que a “coisa” se complica.

 

Prazer e racionalidade
O jurista e filósofo político Lysander Spooner, cuja vida e obra foram pautadas pela defesa do abolicionismo e do anarquismo | Foto: Commons Wikimedia

Lysander Spooner, em seu livro Vícios não são crime, já defendia veementemente o direito dos cidadãos de serem viciados, contanto que não causassem prejuízo a terceiros e à ordem pública. E, de fato, temos que concordar com ele, principalmente quando afirma que o pior que uma pessoa pode fazer, por meio de qualquer vício que possua – e isso também se aplica perfeitamente à ciberdependência –, é desorganizar sua existência, e tornar um caos a própria vida. Todavia, nessa virada de milênio, não param de surgir relatos e notícias de pessoas comuns que arruínam as suas vidas, perdem seus empregos, trazendo consequências desastrosas para suas famílias e para si mesmos, e, no limite, para a própria sociedade da qual fazem parte. E as motivações para esses desarranjos psicossociais estariam intimamente ligados às questões estudadas por Bentham, pois, na medida em que o real vai se tornando difícil, doloroso e até insuportável, igualmente aumentam os casos de dependência e sinistros relacionados ao uso compulsivo e não racional dessas extraordinárias ferramentas que, teoricamente, foram criadas para facilitar e melhorar a nossa existência. Seja ela pessoal ou social.

 

Sem entrar em detalhes específicos ou citar nomes, as notícias e exemplos de descontrole e compulsão não param de aparecer a todos os momentos, sem obedecer – frise-se – a categorias preestabelecidas, níveis sociais e econômicos ou mesmo limites geográficos e políticos. Numa pequena cidade brasileira, adolescentes combinam e levam às vias de fato a interrupção de suas próprias vidas, realizando suicídio coletivo, articulado pelas redes sociais. Na Inglaterra, mulher abandona o trabalho, os afazeres da casa, a família e a própria saúde devido à necessidade incontrolável de se manter conectada à rede. Na China, mãe compulsiva por jogos on-line dá a luz no banheiro de uma lan house, pois não conseguiu administrar seu próprio vício de jogar. Nos Estados Unidos, jovens deixam de comer, beber água, sair de casa, fazer outras atividades e passam mal, só para não terem que abandonar o prazer compulsivo da conexão ininterrupta. Professora se queixa publicamente em simpósio internacional sobre tecnologia e sociedade, pois seus alunos não conseguem obter o aproveitamento que poderiam, pois estão às voltas com seus tablets e telefones ao invés de prestarem atenção na aula. Além dos exemplos ilustrativos aqui citados, a questão premente é: até que ponto o universo do virtual pode se tornar mais atraente e satisfatório do que o próprio mundo presencial, a ponto de competir com ele e até, de certo modo, subtrair e substituir seu significado, importância em termos de prazer e realização?

 

 

O que faz você feliz?

Independentemente de quaisquer maniqueísmos e diabolizações, dos rótulos que a sociedade nos imponha e das premências e alteridades que a vida em sociedade exige, fazem-se necessários, mais do que nunca, bom senso e discernimento. O problema central, segundo o nosso rude entendimento, é que a nossa cultura cria, fomenta, estimula e ainda reconhece a tecnologia – seja ela qual for – como uma coisa a priori boa, benéfica, útil. Sempre como solução, e nunca como problema, no sentido epistemológico do termo. E isso implica a aceitação, consumo e adoção acrítica das mesmas sem que haja uma reflexão sobre o porquê dessas ações? A onda tecnocientífica, como um todo, tem vindo de mansinho, e vai reconfigurando a nossa percepção da realidade, incluídos aí nós mesmos, cidadãos comuns, como atores importantes que cristalizam e tornam hábito sólido qualquer novidade técnica.

 

O psicanalista francês Jacques Lacan nos faz lembrar de aspectos totalmente relacionados ao tema: dor, prazer, hábito, vício | Foto: Wikipedia

 

Quem dentre nós já não chegou numa loja ou empresa e se deparou com o funcionário ou atendente, que deveria atendê-lo, abdicando de fazê-lo ou fazendo-o de forma insatisfatória por estar completamente absorvido por uma dessas próteses informacionais portáteis. Quem – indo ou vindo do trabalho, num transporte de massa insuficiente e de baixa qualidade – consegue resistir às benesses de entretenimentos, informações e lazer proporcionados por esses pequenos aparatos pretensamente inteligentes? Poucos. E a razão é muito simples, e retoma os conceitos que apresentamos muito resumidamente acima, nos pensamentos de Bentham, Lacan e Spooner. Dor, prazer, hábito, compulsão, vício e prazer… É disso que se trata. Em outros termos, qual seria o sentido de se trabalhar num emprego qualquer, do qual não se gosta, e com ele só conseguir extrair um mínimo para a mera sobrevivência, por exemplo, e ainda “perder” diariamente dois pares de horas na ida e na volta, preso num engarrafamento ou dentro de um metrô ou trem superlotados? Quem, em sã consciência, tendo uma vida familiar e social medíocre, insatisfatória, degradante e completamente sem sentido, não irá buscar alternativas e lenitivos para a sua desfavorável condição?

 

Crise ou oportunidade?

Nós que diuturnamente elegemos as tecnociências e as tecnologias emergentes como nosso objeto de estudo e pesquisa, ou seja, vendo-os também como problemas, e não apenas como soluções, sustentamos que, mais importante e construtivo do que diagnosticar ou decretar arbitrariamente que tal ou qual pessoa seja viciado, dependente, compulsivo, ou qualquer coisa que o valha, seria, sem embargos, muito mais producente rever as razões que levam as pessoas comuns a fazerem escolhas radicais desse tipo, abdicando da realidade presencial, ou do real lacaniano, em prol de outras opções, sejam elas quais forem. O universo do virtual, o ciberespaço e a cibernética, como quaisquer outras tecnologias, por si, não podem ser as únicas responsáveis por esses fenômenos técnicos emergentes hiper-complexos que nós mesmos criamos, instituímos e usamos, nem muito menos serem capazes de nos oferecer as respostas satisfatórias que buscamos para esses dilemas que surgem junto com as benesses e confortos que elas (tecnologias) nos propiciam.

 

Crianças e o consumo

 

Aliás, nossa cultura está repleta desse tipo tosco de contradição, onde os esforços se concentram nos efeitos, e não nas causas; sempre nos sintomas, e não nas contingências e elementos que provocaram as crises; invariavelmente nas formas e aparências, e não na essência. Conclusivamente, e até para relativizar o estigma da ciberdependência, e também para tentar demonstrar que a lógica utilizada é equivocada, e, no mínimo, reducionista, torna-se relevante mencionar, por exemplo, que no Brasil, apenas em 2011, foram consumidas 3,5 toneladas de antidepressivos. Os psiquiatras – mas não só eles, já que qualquer médico pode prescrevê-los –, diante de alguma queixa do paciente relativa a humor, disposição, ânimo ou estado geral de espírito, não hesitam em receitar essas drogas que, partindo dos mesmos princípios e lógicas, tratam apenas os sintomas, e não as origens e causas. O juiz, o guarda de trânsito, o operário, o padre, a prima, o pai, a mãe e o irmão – arguimos – serão meros dependentes e viciados? Ou seriam vítimas da falta de sentido geral que acomete a pós-modernidade? Eis aqui a questão. Ponto.

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. Membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). Membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing.
E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 57