Como é criada a consciência coletiva

Tornamo-nos uma espécie de consciência coletiva sensível e inteligente, que age e reage “autonomamente” ao sabor dos conteúdos e valores que circulam em nossas artérias e redes cibernético-informacionais

Por Alexandre Quaresma | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Um dos aspectos mais interessantes dessa época de ubiquidade informacional que experimentamos nos dias atuais, especialmente através dos meios de comunicação e do ciberespaço, é a capacidade extraordinária que adquirimos recentemente de agir e reagir de forma coletiva a acontecimentos ao nosso redor (sociedade), com extrema agilidade e relativa autonomia. Essa é – lembremo-nos – uma característica marcante dos organismos vivos, pois eles são formados por sistemas informacionais internos extremamente sensíveis e desenvolvidos, que lhes comunicam em tempo real sobre tudo que acontece neles mesmos e no seu entorno, ou seja, no próprio sistema corpóreo e também no acoplamento desse sistema com o ambiente (também um sistema) que o contêm, já que a sua existência e permanência dependem em tudo do bom funcionamento de ambos os sistemas (corpóreo e ambiental).

 

Desse modo, um evento em qualquer parte do corpo  de uma pessoa – claro, que seja considerado cognitivamente relevante –, o hipotético caminhar de um inseto sobre a pele dessa mesma pessoa, por exemplo, já que a mente trabalha com sobreposições contínuas e hiper-aceleradas de hipóteses – é imediatamente reportado ao cérebro em tempo real por seu sistema nervoso, para que o primeiro avalie o caso num átimo e possa ordenar novamente, por meio do último, uma ação qualquer que vise, no mínimo, identificar o ocorrido, avaliar a sua gravidade e verificar possíveis consequências.

 

O papel das religiões na atualidade

 

A ordem intencional que é inicialmente deliberada no cérebro e que se torna motora, ou seja, o simples ato de virar a cabeça e olhar para o que pretensamente seria um inseto sobre a pele, já é – tenhamos isso bem claro – uma reação em cadeia hiper-complexa que só é possível devido a essa forma de ubiquidade informacional extraordinária, que habitualmente se experimenta com o fenômeno da consciência.

 

É graças a essa consciência em muitos sentidos extraordinária, irrigada constante e ininterruptamente com torrentes informacionais e relâmpagos sinápticos, que essa pessoa poderá reagir ao acontecido, interagindo com o seu meio, na maioria das vezes no enfrentamento das infindáveis intempéries que o cotidiano lhe impõe. Essa simples informação (simples, diante das infindáveis informações que nos chegam pelos sentidos o tempo todo, do interior do corpo e do exterior dele) que chegou ao cérebro, essa ocorrência que se origina na superfície da pele, pode muito bem, hipoteticamente, ser apenas uma formiguinha, ou talvez um minúsculo besourinho, inofensivo e colorido, que alçará voo antes mesmo que se possa fazer algo a respeito.

 

Mas, por outro lado, pode ser também que tal ocorrência seja de fato muito relevante – e, nessas situações, antes de se averiguar, têm-se apenas equiprobabilidades –, e que ela (ocorrência) ou suas consequências levem a pessoa em questão a saber que tem sob a pele de fato um inseto peçonhento, desses venenosos que picam ou ferroam, e que além da dor podem levar a complicações de saúde mais graves, e, de acordo com isso, consciente disso, poder tomar providências, sejam elas quais forem.

 

Longe de querer diabolizar os insetos, pelo contrário, já que reconhecemos seu importantíssimo papel nos biomas terrestres e nas cadeias trocas da natureza de uma maneira muito ampla, mas um evento relativamente simples como esse, em que se sente apenas uma espécie de cócega na pele, e que não se consegue a priori identificar o que está de fato ocorrendo, pode determinar, no extremo, o ‘destino’ e a própria integridade desse mesmo sistema. E é justamente por isso que os sistemas vivos (organismos) se mostram nesse ponto muitíssimo complexos, e são informados de tudo que se passa com tanta rapidez, pois assim podem reagir também com celeridade, objetivando sempre que possível o reequilíbrio e a homeostase sistêmica, condição fundamental para a integridade e permanência de qualquer sistema vivo.

 

Conheça a Sociologia do Conhecimento

 

Enfim, visando em último caso a própria sobrevivência ou no mínimo a segurança, e, numa fração de segundo, toda essa intrincada cadeia de acontecimentos complexos se desenrola com bastante eficiência, ou seja, o sistema estava em estado natural de repouso, de calma, continuidade e tranquilidade com o meio, recebe um sinal, entra muito rápido em estado de alerta e atenção, incalculáveis processos lógicos e psíquicos são disparados e acionados, mutuamente, sincronicamente, e por fim, numa fração de segundo, depois de “longos” e “intermináveis” nanosegundos, é determinada uma ação específica.

 

A referida ação se consuma, o potencial perigo é identificado visualmente, debelado ou afastado, de acordo com a situação, para que o sistema retorne ao seu estado habitual de continuidade e equilíbrio, e, no nosso caso, para que o sujeito hipotético que se vê às voltas com insetos na pele possa se livrar dessa potencial ameaça e seguir adiante com sua singular existência, dentro da calma e normalidade em que estava, quando, de repente, “tudo isso” aconteceu. Ou seja, numa só palavra, somos sistemas vivos, sensíveis e inteligentes. E somos assim justamente para isso: para garantir a nossa permanência.

 

 

Sistema nervoso global

É muito interessante perceber que o mesmo está acontecendo com a própria humanidade, principalmente a partir do momento em que ela se hiper-conecta em nível planetário. Diante dessa notícias, informações, dados, imagens, sons, signos, e diante também da expansão massiva das redes informacionais humanas tecnologicamente suportadas (TVs, internet, telefones móveis, tablets, satélites, redes de fibra óptica, sem fi o e demais tecnologias correlatas), tornamo-nos uma espécie de consciência coletiva sensível e inteligente, que age e reage “autonomamente” ao sabor dos conteúdos e valores que circulam em nossas artérias e redes cibernético-informacionais.

 

Sim, porque essa nova forma onisciente de encarar a realidade social global nos está permitindo transformar a própria maneira com que percebemos essa mesma realidade. Se por um lado continuam ou até pioraram os entraves ao direito de ir e vir das pessoas entre países, por exemplo – seja por limitações políticas, econômicas ou culturais –, com a cibernética e a cibercultura, abre-se diante do sujeito uma imensidão de possibilidades de ação e interação, um extraordinário universo potencial e latente de oportunidades, gerando um contexto neoparadigmático no qual a localização geográfica do usuário não é mais um entrave tão determinante ou limitador, e onde há também uma certa independência cognitiva individual, ou seja, uma total ou quase total liberdade de exploração, expressão e ação, já que cada um faz na rede o que quer, na ora que quer e, salvo raras exceções, como quer.

 

Quem deseja pesquisar pesquisa; quem precisa se comunicar se comunica; quem anseia por se informar se informa e quem deseja se articular também pode fazê-lo, e assim é na cibercultura. A própria Primavera Árabe se mostra um exemplo emblemático desse tipo de reconfiguração da realidade que se constitui a partir das mídias e redes sociais virtuais, para em seguida ganharem o mundo num mesmo plano geográfico e espaço-temporal, e efetivamente mudar a realidade. As insatisfações provavelmente já estavam lá, e em grande medida ainda estão, mas foi a grande rede internacional de computadores que possibilitou a articulação estratégico-política necessária para que houvesse a transformação por meio da coesão popular. O mesmo vale para as ondas de manifestações que varreram o Brasil de ponta a ponta em 2013, e que ainda pipocam aqui e ali, em mobilizações menores e pontuais, como o rolezinho, por exemplo.

 

O que há por trás do ato de protestar?

 

Essas mobilizações épicas de 2013 foram articuladas por meio da internet, mas, rizomicamente, ganharam as ruas, estradas e avenidas de todo o país. Mobilizações que começaram no universo do virtual, mas explodiram no real com tanta intensidade e força que foram capazes de alterar a própria estruturação sistêmica que os continha, ou seja, a sociedade e a socioambiência. O que era para ser apenas um protesto localizado contra mais um aumento da passagem em São Paulo acabou se transformando no evento sociopolítico mais relevante das últimas décadas para o nosso país.

 

O que desejamos frisar é que essa ubiquidade informacional que funciona como extensão de nós mesmos e de nossas percepções também desempenha funções muito significativas e importantes sistemicamente, semelhantes às que os sistemas nervosos desempenham para o cérebro e a consciência, ou seja, toda essa onisciência e sensibilidade nos leva a uma condição de coesão e consciência global extraordinária, de fato muito semelhante à consciência singular no plano individual.

 

 

Emergências e dificuldades

O que se revela realmente extraordinário nessas relações que estabelecemos com o mundo por meio de nossas tecnologias são as façanhas que pessoas comuns podem realizar quando se juntam às demais autonomamente, partindo de seus próprios computadores e aparatos de comunicação, mobilizando centenas, milhares e por vezes milhões de pessoas. Há, então (na cultura), o que os teóricos da complexidade costumam chamar de emergência. Não se trata  de uma conta exata, mensurável e quantificável, pelo contrário, há a emergência quando o sistema se complexifica até um determinado nível ótimo, em que as próprias condições são capazes de propiciar o surgimento de elementos novos, inexistentes anteriormente no próprio sistema.

 

São ocorrências que se originam da própria dinâmica recursiva de complexificação do sistema, e, por isso mesmo, são imprevisíveis. Um bom exemplo desse tipo de emergência espontânea aconteceu durante um jogo de futebol na Espanha em que o lateral Daniel Alves do Barcelona e da seleção brasileira foi alvo de preconceito e discriminação racial por parte de um torcedor que arremessou uma banana em sua direção, logo quando este iria bater um escanteio.

 

Daniel Alves, demonstrando extraordinária  presença de espírito e também sagacidade,caráter mesmo, parou antes de empreender a jogada, caminhou até a fruta que se encontrava caída no gramado, apanhou a mesma, sem sequer olhar na direção do possível arremessador, descascou, comeu um bom pedaço, e em seguida, rapidamente, deu prosseguimento ao lance e também uma silenciosa lição de moral no discriminador.

 

O fato é que, imediatamente após o acontecido, correu  pela grande rede uma onda de manifestações contra o racismo não só no futebol, cujo lema é “somos todos macacos”. O protesto, teoricamente, teria sido iniciado por Neymar Júnior, outro craque da bola e do ciberespaço, que teria postado uma foto com uma banana na mão.

 

Em seguida outros grandes nomes do futebol começaram a se manifestar, e a “coisa” definitivamente extrapolou o contexto local e esportivo, já que até mesmo a ex-presidenta Dilma se solidarizou com Daniel Alves pelo Twitter, e, às vésperas da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, o movimento contra a discriminação racial ganhou rapidamente visibilidade na grande mídia mundial, gerando esse tipo de padrão emergente, que começa tímida e pontualmente com um gesto, ação ou clique, uma ideia, uma revolta, e acaba se transformando numa gigantesca mobilização planetária.

 

O que importa, e nós chamamos a atenção dos leitores para isso, é que estamos instaurando uma espécie nova de consciência global sensível e inteligente, que sente, age e reage autonomamente, um grande cérebro planetário, onde cada um – assim como fazem os neurônios – se liga e se conecta aos seus semelhantes, formando hiper-estruturas de extrema complexidade, e propiciando a emergência de novas possibilidades e potencializações, em espasmos sócio-sinápticos extraordinários, assim como se manifestam no cérebro as tempestades neurais das grandes ideias, amores e decisões.

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente, vinculado à Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera, e conselheiro editorial de Ciência e Sociedade do Comoon Ground Publishing. E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Adaptado do texto “Consciência coletiva”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed.54