Como é feita a política no Brasil

Não adianta reforma partidária sem uma transformação cultural de nossos políticos e da sociedade. Reduzir os partidos não fará com que os acordos espúrios deixem de acontecer

Por Yago Junho* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Já se vão mais de 2500 anos desde que Aristóteles escreveu que a política é a arte de fazer o bem comum. O insofismável Luís da Câmara Cascudo nos ensinou que arte vem do termo arts que vai ser o radical de articulação. Ou seja: arte quer dizer combinação de partes. Um pintor mistura as cores para nos oferecer uma figura de sentido estético. Um escritor combina palavras de tal maneira que formem significações. O que a política amalgama? Bem, o exercício da política deve combinar, da melhor maneira possível, saúde, infraestrutura, educação, lazer, desenvolvimento econômico, defesa contra ataques externos e por aí vai. Convenhamos que se a política é uma arte, então, é uma das mais difíceis. É uma arte desprovida de senso estético e, em não raros casos, as consequências de suas ações só aparecem muitos anos depois.

 

Outro fato complicador é que a política lida com a questão da representação. A ideia de representação nasce com o teatro. Toda peça teatral é composta de três elementos: autor/texto, ator e palco. O problema central de toda a representação reside na dificuldade de traduzir o texto escrito para o encenado. Toda a tradução implica necessariamente em traição. Na política temos o autor que é o povo, os atores que são os políticos e os palcos com o Executivo e, principalmente, o Legislativo. O distanciamento entre as demandas populares e o exercício político dos nossos representantes está na tradução que estes fazem dos anseios da população. A traição se instalou em seu grau quase máximo. Não é fácil acomodar interesses. Assim como é complicado solucionar os profundos problemas sociais e econômicos que se acumularam ao longo da história do Brasil.

 

Mesmo com esses empecilhos, reconheçamos que, desde o surgimento da República, em 1889, até 2013, inúmeros avanços foram alcançados pelo País. O Brasil saiu de uma condição agroexportadora para industrial. O padrão de vida da população aumentou em todos os seus indicadores. Estamos, ao que tudo indica, num ambiente em que a democracia é um valor universal. Bem ou mal fortalecemos a sociedade. Contudo, nossas instituições políticas, e aqui me refiro aos partidos, ainda não deixaram a fase oral de seu desenvolvimento. Já é truísmo afirmar que precisamos urgentemente de uma reforma política, que não é possível termos trinta e nove partidos políticos, pois não existem trinta e nove ideologias diferentes, que nossos partidos são meramente siglas de aluguel e por aí vai.

Mudanças

Os tucanos e a direita se deliciam com as prisões de José Dirceu e José Genoino. As esquerdas contra-atacam: quando vão julgar o mensalão tucano mineiro? | Foto: José Cruz – ABr

O grande problema no Brasil é que achamos que podemos mudar os hábitos simplesmente alterando as leis. Não adianta reforma partidária sem uma transformação cultural de nossos políticos e da sociedade. Reduzir os partidos não fará com que os acordos espúrios deixem de acontecer. Presenciaremos as mesmas práticas com um número menor de partidos. O problema, a meu ver, é de decadência de lideranças políticas com forte conotação ideológica. Falta carisma à política brasileira. Fecho com Leon Trotski quando ele dizia que a crise do proletariado nada mais era do que a crise de direção. A nossa crise política é uma crise de liderança. O debate político se concentra hoje em saber quem gerencia melhor o Estado. Daí a puerilidade do debate de ideias. Marx, do alto de sua sabedoria, salientou que em última instância o econômico determina. A economia reina soberana ditando como o Estado deve ou não se comportar.

 

Nos últimos vinte anos de hegemonia petucana, esse foi o grande debate. No sistema financeiro temia-se a eleição do ex-Presidente Lula em 2002 em razão da incerteza se ele iria ou não manter os fundamentos da economia brasileira. O Partido dos Trabalhadores (PT) teve que soltar uma carta para acalmar os mercados acerca desse tema. Não é em vão que as nas campanhas eleitorais as discussões se concentrem em saber quem roubou mais ou menos quando esteve no poder. Mensalão para cá, mensalão para lá. É privatização ou privataria? Os tucanos e a direita se deliciam com as prisões de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. As esquerdas contra-atacam: quando vão julgar o mensalão tucano mineiro? Livros são escritos, postagens no youtube e facebook vão se multiplicando de um lado e de outro. Quem desviou mais? Quem dá mais? Dou uma, dou-lhe duas e dou-lhe três. Façam suas apostas.

 

A reforma política começa por uma reforma na sociedade. É inegável que ao longo de nosso desenvolvimento histórico houve uma considerável perda da capacidade intelectual da sociedade brasileira. Claro que essa tragédia se reflete no topo de nossa pirâmide social, de onde sai a maioria dos políticos. A escola não é mais a formadora por excelência do brasileiro. A televisão e a mídia escrita são as formadoras da consciência política. Quem pauta a agenda política dos deputados e senadores são as publicações dos inúmeros escândalos de corrupção.

 

 

A eleição do caçador de marajás – o rei fino, jovem, sedutor e sofisticado – fez a cabeça do meio político com o tema da modernização. O quente é a desregulamentação da economia, privatizações, gerenciamento racional do Estado. Paradoxalmente, Collor iniciou a despolitização do discurso político. A política agora é uma questão administrativa. Para piorar ainda mais a situação, ninguém pode fugir ao modelo único de gestão estatal. Quem ousa pensar de maneira diferente logo é pichado de arcaico e saudosista. A ideologia foi “jantada” no salão de festas da Febraban.

 

 

 

Revista Sociologia Ed. 50

Adaptado do texto “Criminalização da política”

*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação em Santa Rita do Sapucaí (MG).