Conheça a Sociologia do Conhecimento

Ideologias e utopias em tempos de crise

Por Thiago Mazucato* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

Dentre as várias sociologias mais especializadas que surgiram e se consolidaram ao longo do século XX, a Sociologia do Conhecimento despontou no cenário acadêmico e intelectual já no entorno da década de 1920. Surgiu como o fruto de um intenso debate epistemológico e metodológico que remontava ao final do século XIX, no qual se discutia, dentre outras coisas, a especificidade dos objetos a serem estudados pelas ditas ciências naturais e pelas ciências culturais (Rodrigues, 2005). Esse debate  envolveu grandes nomes da época, estando presente inclusive em importantes obras de Émile Durkheim (As regras do método sociológico, de 1895) e de Max Weber (A objetividade o conhecimento nas ciências políticas e sociais de 1904, e O sentido da neutralidade axiológica nas ciências sociológicas e econômicas de 1918).

 

Essas discussões epistemológicas e metodológicas suscitaram questões relevantes que escapavam tanto do âmbito da teoria social (mais próximas à Sociologia) quanto da filosofia social e da teoria do conhecimento (mais próximas à Filosofia), como é o caso da vinculação existencial do conhecimento, ou ainda sobre os processos de pensamento e de conhecimento e a sua dinâmica  política e social. Embora aspectos fundamentais a essas questões já estivessem presentes no debate intelectual há bastante tempo (é o caso da razão de Estado em Maquiavel, dos idola em Bacon, da suspensão dos juízos em Descartes, da alienação em Marx, dentre outros), somente na década de 1920 que essas questões serão mais rigorosamente sistematizadas por Karl Mannheim.

 

Émile Durkheim, presente nos debates que ajudaram a construir a Sociologia do Conhecimento | Foto: Wikipedia

 

De origem húngara, Mannheim teve formação em Filosofia sob orientação de Georg Lukács, com estudos principalmente sobre epistemologia (Soul and culture, de 1917), e após turbulentos acontecimentos políticos em seu país de origem, foi obrigado a exilar-se na Alemanha em 1920, contando com o apoio de Alfred Weber (sociólogo da cultura e irmão de Max Weber). Mannheim publica já em 1922 uma obra de peso intitulada Análise estrutural da epistemologia, na qual inicia a sua transição da Filosofia para a Sociologia, sugerindo aqui a possibilidade de constituir-se uma sociologia da epistemologia, precursora direta da sua Sociologia do Conhecimento (Kettler et al., 1989).

 

Pode-se notar por essa breve introdução ao seu itinerário intelectual que durante a década de 1920 Karl Mannheim empreendeu uma agenda de pesquisa em que colocou em relevo o processo de pensamento, que se desdobraria nos anos imediatamente subsequentes no processo de produção social do conhecimento, culminando na publicação de sua obra magna, Ideologia e utopia, em 1929 (Mannheim, 1972).

 

 

A sociologia em tempos de crise

Se levarmos em consideração o período de formação de Karl Mannheim, ainda na Hungria (vale lembrar que sua tese Soul and culture fora defendida em 1917), notaremos que o mesmo ocorre concomitantemente à Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e à eclosão da Revolução Russa de 1917. Por um lado, a guerra em âmbito mundial apontava para um contexto político de crise sem precedentes e, por outro lado, a revolução comunista na Rússia inaugurava um longo período de polarização ideológica também em proporções mundiais.

 

O otimismo do paradigma cientificista (o qual levara às últimas consequências o racionalismo e o evolucionismo) que orientava a reflexão de muitos intelectuais desde o século XIX encontrava-se bastante fragilizado, não somente pelo questionamento de pensadores críticos (como Marx e Nietzsche), mas pela própria realidade dos fatos. Na década de 1920 somar-se-ão a esses processos políticos já em curso a ascensão de ideologias fascistas e nazistas, as quais rapidamente se converterão em regimes políticos na Itália e na Alemanha.

 

Karl Marx: Mannheim vai além dos mecanismos utilizados pelo pensador para analisar a sociedade | Foto: 123RF

 

Na esfera econômica a crise também se impunha como realidade, indicando algum tipo de esgotamento do sistema capitalista mundial que necessitaria ser rapidamente corrigido para evitar que a crise alcançasse dimensões semelhantes nas esferas social e cultural, processos que a essa altura já não poderiam ser contidos, mas que se não fossem minimamente atenuados poderiam colapsar a democracia e ameaçar a liberdade, consideradas as grandes conquistas da humanidade no eixo ocidental do mundo.

 

Mannheim notara que desses processos políticos, econômicos, sociais e culturais em curso desde a Primeira Guerra Mundial até a crise da Bolsa em 1929, houvera consequências notáveis nos processos de pensamento e na dinâmica do conhecimento quando alçado à esfera da ação dos grupos sociais (Wolff, 1993). A partir dessa constelação de fatores as visões de mundo (Weltanschauungen) estariam impreterivelmente imersas em conteúdos ideacionais fragmentados, ou seja, cada grupo social tenderia cada vez mais a constituir a sua identidade a partir de ideias, conceitos, juízos, valores, em contraste com os demais grupos sociais, e tais contrastes poderiam assumir diferentes configurações, que iriam desde aproximações mais tranquilas até rivalidades extremas.

 

 

Categorias analíticas

Tomando como referência essa constelação das diferentes visões de mundo e do nível de contraste entre elas, Mannheim sugere inicialmente uma possibilidade de analisar a dinâmica da interação dos grupos sociais a partir esses elementos. É importante ressaltar que nessa configuração teórica que já constitui as bases da Sociologia do Conhecimento existe uma ontologia social que afirma que os indivíduos “pensam no mundo” (historiciza o processo de pensamento) e “pensam em grupo” (socializa e politiza o processo de pensamento). Dessa maneira as principais formas de pensamento ou estilos de pensamento que se cristalizam nos grupos sociais poderiam relacionar-se entre si basicamente de dois modos: harmônica ou conflituosamente.

 

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As interações harmônicas entre as formas de pensamento dos grupos sociais não se constituem em um problema político e social (embora possam se tornar importante objeto de estudo da Sociologia do Conhecimento). Por sua vez, as interações conflituosas possuem um interesse direto justamente por tensionarem a história e exigirem soluções que implicam em mediações políticas caso se queira evitar que tal configuração desemboque em guerras ou extermínios.

 

Surgem então duas importantes categorias analíticas elaboradas por Mannheim nesse esforço de limpar o campo conceitual: as ideologias parciais (em que um determinado grupo questiona apenas elementos parciais da visão de mundo dos grupos oponentes) e as ideologias totais (em que toda a visão de mundo dos grupos oponentes é questionada). Como o próprio Mannheim reconhece, Karl Marx já havia chegado a esse ponto com sua teoria da Ideologia, contudo era ainda preciso aprimorar o conceito de ideologia utilizado por Marx. Assim, qualquer grupo social estaria apto a questionar e deslegitimar as visões de mundo (de modo parcial ou total) dos grupos oponentes.

 

A Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim representava, portanto, um avanço significativo na análise das relações existenciais entre o conhecimento e o contexto (as relações sociais e políticas concretas) em que o mesmo fora produzido, “situado a meio-termo entre o individual e o social” (Mazucato, 2015, p. 28). Dessa forma os processos de pensamento alcançam a esfera social ao se configurarem enquanto conhecimentos (produtos ideacionais que são socialmente compartilhados), abarcando assim a “compreensão e explicação das relações entre a existência social e todos os produtos simbólicos dela resultantes – representações, valores e, no limite, fundamentos que orientam a relação simbólica com a realidade (sua ratio estruturante)” (Cepêda, 2014, p.64).

 

Karl Mannheim

 

Mannheim se propõe avançar um pouco mais o seu esquema analítico ao problematizar o próprio conceito de ideologia total, conforme apresentamos acima, estabelecendo uma clivagem em duas formas possíveis: a ideologia total restrita (exatamente como no modelo descrito anteriormente, em que um determinado grupo questiona toda a visão de mundo dos grupos oponentes) e a ideologia total genérica (em que todas as visões de mundo se tornam suscetíveis de questionamentos, inclusive a do próprio grupo social). O próprio Mannheim afirma que, ao se trabalhar com essas categorias, supera-se em definitivo a teoria da Ideologia de Karl Marx e alcança-se o nível teórico-analítico da Sociologia do conhecimento.

 

Outra categoria da Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim tão importante quanto a de ideologia é a de utopia, que também possuía uma carga conceitual historicamente constituída: Thomas More definira o termo no início do século XVI como significando um “lugar inalcançável” e Karl Marx atribuíra no século XIX um significado de “leigo ou não científico”.

 

Novamente Karl Mannheim sente a necessidade de um refinamento conceitual e atribui ao conceito de utopia o significado de conteúdos ideacionais de grupos sociais que se opõem à realidade existente e propõem avançar a história para frente, vislumbrando configurações políticas e sociais ainda não existentes. De acordo com a definição de Mannheim para o termo utopia, a burguesia já fora utópica ao se contrapor à realidade existente durante a Idade Média, tornando-se ideológica com o advento da Modernidade, quando seus conteúdos ideacionais (pensamentos e conhecimentos) assumem o status de grupo social dominante.

 

Thomas More autor de Utopia, propondo uma sociedade perfeita | Foto: 123RF

 

Diferentemente da teoria da Ideologia de Marx, que tinha um caráter mais rígido, a Sociologia do Conhecimento de Mannheim propunha conceitos mais dinâmicos como os de ideologia (particular, total restrita e total genérica) e de utopia para analisar processos políticos e sociais mais amplos. Esse aspecto dinâmico da Sociologia do Conhecimento de Mannheim pressupõe uma análise situacional dos processos políticos e sociais, tendo nos grupos sociais os atores centrais desses processos e os conteúdos ideacionais (pensamentos e conhecimentos) desses grupos como os objetos privilegiados dessa análise. Pela proposta teórica de Mannheim é possível compreender os processos políticos e sociais através da análise dos vínculos existenciais do conhecimento.

 

Utopia | Foto: Shutterstock

 

Instrumento democrático

Através de seus conceitos de ideologia e de utopia e dos pressupostos metodológicos (análise situacional), a Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim desponta desde 1929 como um instrumento analítico que permite a compreensão da natureza social do conhecimento (sua vinculação existencial com o contexto) e que pode contribuir para um aprimoramento das balizas teóricas e práticas da democracia.

 

Isso significa dizer, mais especificamente, que uma análise da realidade política e social que utilize a Sociologia do Conhecimento permitiria identificar e compreender os fatores que prejudicam o avanço da história, ou ainda determinados fatores que signifiquem ameaças à trajetória de construção da democracia. Em outras palavras, quando a situação de crise tende a acirrar os contrastes entre os grupos sociais, momentos em que as interações sociais tendem a ser de natureza conflituosa, somente uma boa compreensão da dinâmica dos processos e fenômenos sociais e políticos poderia contribuir tanto para evitar situações catastróficas quanto para planejar situações socialmente desejáveis.

 

Utopias buscam uma sociedade ideal, porem não perfeita

A Sociologia do Conhecimento pode constituir-se, portanto, em peça fundamental para planejar intervenções racionais na realidade política e social e alcançar e manter padrões satisfatórios de democracia. Contudo,como essa intervenção racional é provocada (não ocorre espontaneamente), seria preciso identificar os atores responsáveis pela análise da situação e  pela elaboração de planejamentos, justamente num contexto em que há um acirramento das diferenças entre os grupos sociais. Mannheim identifica na intelligentsia, o equivalente de intelectuais com suficiente grau de desvinculação social, o ator capaz de elaborar esta síntese e permitir o avanço da história.

 

Caberia, portanto, a determinados intelectuais que possuíssem algum grau de desvinculação social (é importante ressaltar “algum grau”, pois Mannheim não concebe os intelectuais como completamente desvinculados socialmente) a tarefa crucial para a manutenção da democracia em tempos de crise. Se Mannheim acertou ou não ao identificar na intelligentsia o principal ator político e social, constitui-se em questão controversa desde então, todavia o seu diagnóstico da realidade política e social e o instrumental analítico da Sociologia do Conhecimento mostraram-se extremamente efetivos para analisar e compreender os tempos que viriam: o governo nazista na Alemanha, a Segunda Guerra Mundial, os regimes totalitários, e até os dias atuais mostram-se de grande utilidade para se estudar e compreender processos e fenômenos políticos, sociais e culturais, principalmente em momentos de crise.

 

 

 

*Thiago Mazucato é sociólogo, mestre em Ciência Política (UFSCar) e doutorando em Ciências Sociais (Unesp), é autor de Ideologia e utopia de Karl Mannheim – o autor e a obra (Editora Ideias & Letras, 2014) e autor e organizador de Interfaces da Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim (UFSCar, 2015, em co-organização com Vera Alves Cepêda e Felipe Fontana) e Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim: teoria, método e aplicação (no prelo pela UFSCar, em co-organização com Vera Alves Cepêda, com capítulos de Herbert Marcuse, Bryan Turner, David Kettler, dentre outros). E-mail: t.mazuca@gmail.com

Adaptado do texto “A Sociologia do Conhecimento de Karl Mannheim”

Revista Sociologia ciência & Vida Ed. 66