Como podemos entender os jovens de nossa sociedade?

Objeto de culto da sociedade, a juventude é, por vezes, classificada como uma fase de transição. É definida muito mais pelos problemas que enfrenta do que por suas particularidades. Afinal, o que é ser jovem e quais são seus desafios?

Por Diogo Tourino de Sousa, Arthur Fontgaland, Mariane Reghim, Mauro Pena e Raul Nunes | Fotos: Shutterstock

Objeto de culto da sociedade, a juventude quase sempre é pensada na chave dos problemas que enfrenta e/ou de suas carências, quando comparada a outros contextos históricos. Seja na temática da criminalidade, do tráfico e consumo de drogas, do alcoolismo, ou na acusação de que os “jovens de hoje são despolitizados”, ser jovem nos dias de hoje é objeto de desejo e crítica.

 

Quase nunca, porém, a juventude é pensada como um ator dotado de demandas específicas, sobre quem recaem cobranças e imposições de um mundo repleto de discursos normativos, capazes de criminalizar comportamentos e pouco dispostos a compreender os fenômenos que os envolvem.

 

 

Juventudes

Ao entrarmos em sala de aula, nos deparamos com jovens que estão vivendo um momento específico de suas vidas, momento este que pode e deve ser entendido a partir de diversos aspectos nele envolvidos.

 

Gosto musical, programas de TV, sítios da Internet, grupos de amizade, preferência religiosa e a vivência da sexualidade apresentam aspectos que devem ser explorados pelos(as) educadores(as) para além de atitudes individuais, ou seja, como resultados de um contexto que é produzido e reproduzido socialmente sem, no entanto, deixar de atentar para as particularidades de cada pessoa.

 

Como podemos entender a juventude e toda sua complexidade e diversidade a partir do olhar sociológico? A juventude, de uma maneira ampla, deve ser entendida como uma categoria inventada por nossa sociedade e que existe para (de)limitar e indicar possíveis caminhos pelos quais quem nela se encontra possa guiar seus passos.

 

Definir quais critérios podem determinar se uma pessoa é jovem ou não é uma tarefa árdua devido à complexidade desse grupo, como veremos adiante, mas dois fatores são fundamentais: (1) o de (in)dependência financeira e (2) a autonomia referente a escolha de seu próprio destino. Esses fatores estão relacionados, pois a questão financeira muitas vezes, mas nem sempre, é determinante na autonomia atribuída às ações e escolhas que serão tomadas e a maneira como a juventude será vivenciada.

 

Há, entre as correntes sociológicas, duas maneiras de explicar a juventude, que serão exploradas neste texto. (1) Primeiro aquela que se concentra nas características homogeneizadoras da juventude, ou seja, as características em comum e, em seguida, (2) aquela que se atenta às especificidades de cada jovem, principalmente a partir de sua classe social.

 

 

Como característica unificadora, a juventude é classificada pela sua faixa etária, e, consequentemente, pelo seu comportamento, ou seja, “como um conjunto social cujo principal atributo é o de ser constituído por indivíduos pertencentes a uma dada ‘fase da vida’” (PAIS, 1990: 140). Há uma ênfase no olhar geracional, na qual a juventude está no mesmo bojo, desde que tenha nascido na mesma época e, dessa maneira, vivenciado as mesmas experiências, compartilhado semelhantes maneiras de pensar e ainda seja contraposta aos mesmos grupos etários que não o seu.

 

Juventude e a sexualidade

 

Outro fator importante, desse ponto de vista, é a maneira como as gerações se relacionam e lidam com suas tensões. Mas de maneira geral ela varia nos seguintes opostos: em alguns fatores, a juventude seria como um “receptáculo” que absorve as tradições das gerações anteriores e a elas dão continuidade e, em outros, há uma ruptura, ou seja, uma nova interpretação da realidade.

 

Tal perspectiva não é, porém, consensual. Dentre as críticas a essa corrente, destacamos o argumento de José Machado Pais (1990), que questiona:

 

“A juventude é, nesta corrente, vulgarmente tomada como uma categoria etária, sendo a idade olhada como uma variável tão ou mais influente que as variáveis socioeconômicas e fazendo-se uma correspondência nem sempre ajustada entre uma faixa de idades e um universo de interesses culturais pretensamente comuns” (PAIS, 1990: 157).

Partindo dessa crítica, a segunda corrente foca sua atenção em localizar o(a) jovem em sua classe social, de modo que “as culturas juvenis são sempre culturas de classe, isto é, são sempre entendidas como produto de relações antagônicas de classe” (PAIS, 1990: 157).

 

Desse modo, não há uma cultura juvenil determinada pela idade, e, sim, uma cultura de classe determinada pelas condições concretas existentes que, conforme essa corrente, teriam um significado político e seriam transpassados de acordo com as relações entre as classes. De outro modo, as identidades estariam muito mais ligadas ao contexto no qual se encontram do que a idade que possuem.

 

Um jovem de 19 anos, negro, trabalhador na construção civil, que cresceu sem o pai não compartilha as mesmas vivências e experiências que uma jovem de 25 anos, branca, que nunca, até então, precisou trabalhar, e está se preparando para o mercado de trabalho, ou, ainda, um índio de 15 anos que, provavelmente, já seja considerado adulto de acordo sua cultura. O que há em comum entre essas três personagens? E quais são as diferenças entre elas?

 

 

Enquanto a primeira corrente nos ajuda a pensar nos termos consonantes, como ter idades próximas, a segunda nos leva aos termos que os distanciam, como a condição econômica. Os exemplos estão polarizados para proporcionar uma melhor visualização dos pontos de vista, pois, como sabemos, as realidades se cruzam muitas vezes, tornando a apreensão dos fatos mais complexa. Por exemplo, mesmo tão diferentes, as personagens podem gostar de assistir o mesmo programa de televisão e, assim, compartilhar significados (além da linguagem e nacionalidade).

 

Desse modo, olhar sociologicamente para a juventude é identificá-la como um “grupo” que é ao mesmo tempo homogêneo – se focarmos em questões como a entrada no mercado de trabalho e a violência – e ao mesmo tempo heterogêneo – até nas mesmas questões. Assim como a autonomia e a independência financeira podem significar diferentes possibilidades como o dinheiro que será destinado para viagens, consumo ou para a criação dos(as) filhos(as).

 

Importante ressaltar, ainda, que a juventude não deve ser entendida como uma fase de transição ou passagem, na qual os(as) jovens estariam aprendendo a se comportar para a vida adulta; além disso, podemos pensar em juventudes, entendendo o seu tempo, a pluralidade de grupos, associações e movimentos que estão presentes na sociedade, respeitando as muitas e diferentes realidades juvenis e os elementos comuns com os quais todos(as) os(as) jovens se identificam.

 

Jovens têm estilos de vida, necessidades e demandas diferentes entre si e das pessoas de outras faixas etárias; é por isso que se reconhecem enquanto ser jovem. O importante é fazer com que suas necessidades sejam atendidas, as diferenças sejam garantidas e as desigualdades extintas.

 

Nesse sentido, temos que pensar as juventudes em suas particularidades, sempre tomando o cuidado de não generalizar proposições, visto que uma multiplicidade de fatores perpassa sua definição e a vivência dos fenômenos em questão.

 

Assim, se por vezes a juventude é pensada na chave dos seus “problemas” – criminalidade, drogas, desvios –, ou na chave das suas “carências” – despolitização –, a proposta aqui é discutirmos, por meio do tema da sexualidade, como os jovens enfrentam alguns dos desafios relativos a ele, sempre tendo como pressuposto a necessidade de compreensão dos fenômenos, para além do discurso moralizante.

 

Revista Sociologia Ed. 46

Adaptado do texto “A juventude e seus desafios”

*Diogo Tourino de Sousa é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFV, bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela UFJF, doutorando em Ciência Política no IESP/UERJ, e Coordenador de Gestão de Processos Educacionais do PIBID/CAPES na UFV. Já lecionou Sociologia e Filosofia no Ensino Médio e atualmente é pesquisador do CEDES/PUC-Rio e do Laboratório de Estudos Hum(e)anos (UFF).  E-mail: diogotourino@gmail.com

**Arthur Fontgaland, Mariane Reghim, Mauro Pena e Raul Nunes são licenciandos(as) em Ciências Sociais na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e realizam pesquisas sobre o ensino da Sociologia na educação básica, com o desenvolvimento de métodos e técnicas para a adequação da disciplina à realidade escolar, envolvendo discussões sobre sexualidade e juventude.