Condições de trabalho no Brasil

O modelo de desenvolvimento brasileiro não apresenta refúgios para a classe trabalhadora

Por Ruy Braga | Foto: Elaza Fiúza/ABR Brasília | Adaptação web Caroline Svitras

 

As greves dos trabalhadores tornaram-se objeto de inúmeras controvérsias. Nos longos dias da paralisação, a mídia destacou um debate a ser retomado aqui: se o governo federal controla a CUT, como explicar um embate tão longo entre os trabalhadores e o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a ECT? Se a CUT controla a maioria das federações e sindicatos engajados nesses movimentos, como interpretar as derrotas que as assembleias sindicais impuseram aos acordos negociados com as empresas por seus representantes? Para além da concorrência de elementos específicos, como o desconto de alguns dias não trabalhados, a iminente privatização dos correios ou o endurecimento dos bancos estatais nas negociações, um processo salta aos olhos de quem acompanhou a radicalização dos trabalhadores no país: estávamos diante de uma verdadeira rebelião das bases em relação ao controle governamental exercido sobre os trabalhadores pelos sindicatos.

 

No começo de 2011, foram as greves nos canteiros de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que deram o alerta. A greve dos professores do ensino fundamental e médio em diferentes estados e o sucesso da atual campanha nacional pelo investimento de 10% do PIB na educação lograram organizar a indignação das bases.

 

Ao analisar todos esses movimentos, arriscaria duas hipóteses: objetivamente, os ganhos salariais não acompanham a elevação da produtividade do trabalho. Em outras palavras, os trabalhadores estão se matando em condições cada dia mais deterioradas de trabalho sem uma contrapartida salarial que minimize o aumento do estresse, do adoecimento e da fadiga física. Subjetivamente, os trabalhadores começam a perceber que o atual modelo de desenvolvimento econômico pilotado pelo governo federal simplesmente não os favorece. Ao contrário, o casamento da “comodificação” da economia com a financeirização do capital limitou de tal maneira a ação do próprio governo que já não há mais espaço para concessões.

 

A Sociologia pública do trabalho presente no livro Saídas de emergência (Boitempo Editorial ), organizado por Robert Cabanes, Isabel Georges, Cibele Rizek e Vera da Silva Telles, exige uma reflexão crítica acerca do atual modelo de desenvolvimento social pilotado pela burocracia lulista. Por meio de minuciosos relatos etnográficos, somos lançados à infernal realidade da classe trabalhadora paulistana vivendo na periferia da grande metrópole e inseridos nas entranhas do áspero e degradado universo limítrofe entre o legal e o ilegal, cuja principal marca é a experiência da precariedade social em suas mais diferentes formas: mercado de trabalho, violência policial, ambiente familiar, vida comunitária, participação religiosa e resistência política. Depois de ler os registros contidos no livro fica fácil compreender por que a paciência dos trabalhadores está se esgotando.

 

Apesar de toda a propaganda governista em torno da desconcentração de renda entre aqueles que vivem do trabalho, uma conclusão nada óbvia começa a se impor à consciência dos subalternos: o atual modelo não tem nada a oferecer a eles. Em um mundo tomado pela indignação contra a maneira como os governos estão destruindo o futuro a fim de salvaguardar lucros de bancos e de grandes grupos privados, tal conclusão pode se tornar politicamente explosiva.

 

*Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, autor de diversos livros.

Adaptado do texto “Sem saída”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 66