Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

O professor sueco Göran Therborn fala sobre a influência do marxismo no mundo e sua intensa relevância histórica como linha de pensamento

Por Lucas Vasques* | Fotos: Ana Yumi Kajiki/Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

O século 20 foi caracterizado, entre outros eventos de intensa relevância histórica, pela influência do marxismo como linha de pensamento em inúmeros cantos do planeta. A guerra fria, que polarizou forças e discussões durante décadas, a queda do Muro de Berlim, o fim da União Soviética e os conflitos nos países do Leste europeu colocaram em xeque a validade das teses de Karl Marx.

 

Para discutir essas e outras questões, o professor sueco Göran Therborn esteve no Brasil para uma série de conferências quando do lançamento do livro Do marxismo ao pós-marxismo? Considerado um dos sociólogos de formação marxista mais influentes do mundo, ele tem seu pensamento classificado como pós-marxista. Therborn se debruça em uma obra que procura entender as mudanças sociais e intelectuais entre os séculos 20 e 21, tendo como pano de fundo as teses marxistas e o papel da esquerda nas transformações políticas, econômica e sociais.

 

Göran Therborn | Foto: Divulgação

 

Segundo o autor, o livro não tem a pretensão de contar uma história de ideias. No entanto, apresenta propósitos bem claros: situar os espaços de pensamento e as práticas da esquerda, analisar a trajetória do marxismo no século 20 e antecipar o seu legado para o pensamento radical no século que começamos a viver.

 

Neste trabalho sucinto, a pergunta-chave que permeia a obra é a seguinte: o marxismo ainda é relevante? O sociólogo acredita que, diante da atual crise econômica, espalhada pelo mundo, as teses de Marx se mostram bem atuais.

 

Karl Marx | Foto: 123RF

 

Na avaliação de Therborn, o marxismo tem um futuro incerto. Contudo, ele acredita que sua principal fonte ainda tem muito a oferecer para a nossa época. “É bastante provável que Marx seja redescoberto muitas vezes no futuro; novas interpretações serão feitas e novas inspirações serão encontradas. A impressão que tenho é que ele está amadurecendo, como um bom queijo ou um vinho de safra, não recomendável para festas dionisíacas ou pequenos goles na frente de batalha. Ele é, de preferência, uma companhia estimulante para o pensamento profundo sobre os significados da modernidade e da emancipação humana”. Göran Therborn nasceu na pequena cidade sueca de Kalmar em 23 de setembro de 1941. Publicou diversos livros e colaborou com inúmeros veículos de imprensa. Atualmente, é professor de Sociologia na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Esteve no Brasil a convite da Editora Boitempo. Proferiu três conferências de lançamento do livro, em São Paulo, Porto Alegre e Belém.

 

Quanto tempo você levou para escrever Do marxismo ao pós-marxismo? O que o motivou aescrevê-lo? A obra ganhou relevância com a crise econômica? 

Os capítulos do livro foram escritos separadamente, o que dificulta calcular o tempo em que foi produzido. Mas levei diversos meses para escrever cada texto. Os problemas econômicos realçaram uma vez mais o fato de que crises recorrentes são inerentes ao desenvolvimento capitalista, e essa é a proposta central da análise marxiana. Crises em economias capitalistas não surpreendem, embora seja muito difícil prever as datas de seus surtos. Os problemas sociais estavam se acumulando, sobretudo sob as envelhecidas ditaduras e oligarquias árabes, como indico em meu livro. Os incipientes movimentos de protesto foram colocados em um livro que publiquei depois, em dezembro de 2010: The World. Mas eu não esperava a primavera de revoltas.

 

Qual é a sua posição em relação ao movimento Occupy Wall Street e suas ramificações? Você vê uma conexão entre esse protesto e a Primavera Árabe? Quais movimentos sociais você considera efetivos na busca de transformação do capitalismo? 

Sou bastante favorável aos movimentos Occupy, a seu compromisso cívico e pessoal por igualdade e democracia, à postura antiautoritária. Contudo, trata-se de um movimento fraco em números, organização e, sobretudo, fraco em ideias radicais. Houve certa inspiração no estilo de protesto da Primavera Árabe, tanto na Espanha(com o Movimiento 15-M e com o Democracia Real) como nos Estados Unidos. Movimentos centrados em questões de trabalho, moradia e meio ambiente a ser desenvolvidos na China e em outros países de industrialização recente serão cruciais para mudar a dinâmica capitalista. Ações como o Buen Vivir, nos países andinos, mostraram sua capacidade e é bem provável que amplos movimentos pós-capitalistas a favor da qualidade de vida apareçam na Europa ocidental e no Japão.

 

A esquerda levou um choque ao ser derrotada pelo neoliberalismo, nos anos 1980. Já houve uma recuperação. Que papel a esquerda pode exercer para ajuda r a solucionar a atual crise econômica mundial ?

Até agora, as propostas da esquerda foram pouco construtivas. Houve, principalmente, alertas keynesianos (teoria econômica  oposta ao neoliberalismo) de que a obsessão por cortes rápidos nos déficits vão acabar por aprofundar e prolongar a crise. O crash financeiro e a aceleração da desigualdade econômica não colocaram a esquerda na ofensiva social em lugar nenhum. Existiram, e ainda existem, alguns movimentos inovadores, como os que citei anteriormente. Contudo, eles não foram capazes de mudar os parâmetros básicos do jogo político nacional. Os grandes protestos na Grécia têm sido claramente lutas defensivas. O movimento estudantil chileno, contra a mercantilização do ensino superior, é uma exceção. Foi capaz e empurrou o arrogante governo Piñera para a defensiva.

 

No livro, você fala da s mudanças sociais e intelectuais entre os séculos 20 e 21. Quais foram essas mudanças e qual o papel exercido pela esquerda nesse processo de transformação?

As mudanças sociais mais importantes  são o começo do fim da hegemonia mundial euroamericana, o desaparecimento da União Soviética com o seu bloco socialista, o surgimento de uma sociedade muito menos patriarcal, as novas relações de gênero, machistas em grande parte do mundo, a desindustrialização e o aumento do capital financeiro nas regiões ricas do planeta. Transformações intelectuais são mais difíceis de definir, por serem voláteis e considerando que o século 21 ainda é muito jovem. Uma clara mudança é o surgimento de uma perspectiva planetária sobre o meio ambiente, bem como sobre questões sociais.

 

Qual é a análise que você faz da traj etória do marxismo no século 20 e qual é o legad o deixad o por ele para o século 21? 

Como muitos escritores e veículos liberais – incluindo Thomas Friedmann no New York Times e o londrino Financial Time – descobriram recentemente, para sua surpresa, no Manifesto Comunista a análise de Marx sobre o capitalismo global emergente ainda é uma abordagem insuperável da globalização capitalista contemporânea. Na crise atual, muitos economistas liberais, incluindo o presciente Nouriel Roubini (economista turco que previu a bolha imobiliária estadunidense), reconheceram a importância das análises de Marx acerca das contradições e da autodestruição do capitalismo. Assim, há uma compreensão panorâmica do que significa o capitalismo, a análise crítica de suas contradições, de suas crises e da exploração humana, além  de uma mensagem moral e política. Outro mundo é possível, mas terá de vir por meio dos esforços e das lutas dos oprimidos, pobres e discriminados.

 

Em resumo, como você vê o marxismo hoje?

O marxismo é uma unidade original entre filosofia, análise social e política. Boa parte dessa unidade foi rompida. Os políticos comunistas se desvincularam de Marx. Foi decisiva a transformação do capitalismo, com desindustrialização, revolução eletrônica e emergência do capital financeiro. Tudo isso deteve e inverteu a tendência de longo prazo anterior: propriedade coletiva, regulação pública e fortalecimento da classe trabalhadora. A queda da União Soviética foi um propulsor político, mas, sob uma perspectiva histórica de longo prazo, os impasses do socialismo soviético e da social-democracia europeia tiveram as mesmas raízes. O marxismo, como identidade coletiva, foi seriamente enfraquecido e é improvável que torne a ter a sua força anterior.

 

Como a queda do Muro de Berlim influenciou a traj etória do marxismo nos países la tinos e anglo-saxões?

O fim da Europa comunista não afetou diretamente o marxismo europeu. Na Europa latina, especialmente na França, seguida pela Itália, houve uma avalanche de antimarxismo e antiesquerdismo já antes, nos anos 1980, na sequência de uma recepção entusiástica a Alexander Solzhenitsyn (intelectual russo exilado na Europa). O marxismo britânico era, então, trotskista ou acadêmico e, por isso, foi pouco afetado. Com o tempo, não o que aconteceu em Berlim, mas o desaparecimento da União Soviética, em 1991, mudou radicalmente os parâmetros da política mundial, bem como do socialismo no mundo.

 

O que ocorreu na União Soviética  e em vários países do Leste europeu representa uma degeneração em relação às raízes social istas?

Para milhões de trabalhadores e povos pobres e colonizados ao redor do mundo, a União Soviética foi um farol de esperança, evidência material de que outro mundo era possível. Durante a depressão econômica dos anos 1930, quando havia desemprego em massa no mundo capitalista, quando o café brasileiro era queimado e o leite europeu derramado, para manter os preços em alta, a União Soviética lançou um enorme programa de desenvolvimento industrial. Essa transformação econômica e social também lançou as bases para a posterior derrota de Hitler e da Alemanha nazista pelos soviéticos. A União Soviética teve um significado histórico mundial, em grande medida moldando a história global do século 20. Creio que houve uma falha no processo.

 

Portanto, podemos dizer que os objetivos da Revolução Bolchevique foram mal conduzidos?

A Revolução Bolchevique foi realização de uma minoria revolucionária. E essa política de desenvolvimento moderno, a partir de cima, por uma vanguarda, marcou a experiência soviética até o fim, até a década final de estagnação. Ela se ligou à tradição modernizadora tsarista desde Pedro, o Grande (começo do século 18), adotando igualmente formas tsaristas de repressão, como deportações e exílios para a Sibéria e, sob Stálin, nacionalismo e concepção de Estado tsarista de grande potência. O vanguardismo interno, em seguida, intensificou, em vez de restringir, o louco terror stalinista dos anos 1930. Assim, a União Soviética foi, ao mesmo tempo, um farol de luz no mundo e uma casa de horror.

 

Qual deve ser a luta daqueles que ainda preservam o legado de Marx?

Organizar e apoiar a resistência à exploração capitalista, à brutalidade humana e às ameaças ao ambiente. Além disso, lutar por possibilidades de uma vida boa para a população mundial. Essas são proposições marxistas clássicas, mas alcançá- las hoje requer novas análises e inovações  criativas em matéria de organização e mobilização.

 

O neoliberalismo está perdendo força?

Muitas mudanças estão acontecendo sem uma causa comum. O crash financeiro do Atlântico Norte não estava conectado com a Primavera Árabe, por exemplo. O crash sacudiu as bases do sistema bancário anglo-saxônico. A crise de 2011 na Eurozona mostrou a capacidade de autodestruição das bolhas de fluxo de capital. A Primavera Árabe também destacou que a liberalização das economias árabes nada havia conseguido de significativo em relação ao desemprego e às perspectivas sociais dos grandes grupos de jovens. Por enquanto, nenhuma força política está argumentando que a única via para um futuro melhor são mais privatizações e desregulamentações. Por outro lado, nos países mais ricos nenhuma alternativa articulada apareceu.

 

Com esse panorama nada animador, a democracia está em perigo?

A democracia, no seu sentido mais limitado,de eleições livres e competitivas, não está em perigo. O amplo e diversificado estabelecimento do Estado de bem-estar social capitalista significa que os efeitos sociais dos choques econômicos, hoje,são incomparáveis com a miséria e o desespero criados pela depressão dos anos 1930. Na Europa ocidental não há movimentos fascistas com algum significado. O que há são xenófobos, principalmente islamofóbicos. Mas eles não ameaçam a democracia. Na Europa ocidental, a ameaça à democracia vem da tecnocracia. A crise na Eurozona levou à suspensão de governos democráticos, eleitos, na Grécia e na Itália. Na Europa oriental a situação é mais incerta.

 

A social-democracia mudou de rumo a ponto de se aliar ao neoliberal ismo europeu?

Sim, foi o que aconteceu nas derrotas social-democratas na Grã-Bretanha, na Hungria, em Portugal e na Espanha. Mas, como não há solução liberal, o pêndulo do ciclo eleitoral tende a mudar. A social-democracia alemã está crescendo em pesquisas e nas eleições provinciais, e a recente vitória do socialista François Hollande na França ainda é uma boa aposta.

 

Como você observa o futuro dos Estados Unidos?

Barack Obama revelou-se um presidente fraco, moderadamente conservador, subserviente aos interesses imperiais dos Estados Unidos, o que eu esperava. Está enfrentando uma notável reação da direita. O movimento Tea Party conseguiu explorar a crise financeira com uma linha de extrema direita, que habilmente deixou de lado questões da crise e da desigualdade econômica. Comparativamente, o movimento Occupy Wall Street é pequeno e pobre.

 

Os Estados Unidos deixaram de exercer grande influência no panorama internacional? 

Não acho que os Estados Unidos estejam decadentes, que é um termo moralista. Contudo, vejo o país em declínio e enfraquecido. O declínio é óbvio. Em dezembro, Hugo Chávez lançou uma nova organização latino-americana fora do controle dos EUA, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Antes de 2000 isso seria impensável. O declínio da influência estadunidense é acima de tudo geopolítico e ideológico. Suas bases são a ascensão de novos e grandes agentes econômicos (China, Índia, Brasil). Há perda de significado da liderança ideológica dos Estados Unidos, após o fim da guerra fria, e a óbvia incapacidade das receitas neoliberais anglo-saxônicas para a nova economia mundial. A tentativa de substituir a guerra fria por uma caçada em grande escala, a “guerra ao terror”, nunca foi levada a sério por ninguém fora do território dos EUA. Cada vez menos pessoas e políticos enxergam os seus interesses como coincidentes com os dos Estados Unidos. O risco de ignorar os interesses estadunidenses também diminuiu.

 

Existem outros aspectos em que esse declínio não é observado? 

É preciso enfatizar onde não há declínio ou onde ele é muito pequeno. Enquanto a relativa predominância econômica dos Estados Unidos decai significativamente, não se deve esquecer que boa parte da vanguarda da economia mundial ainda é estadunidense: Apple, Microsoft, Facebook, Amazon, Boeing. Eles ainda são o centro do entretenimento de massa e da pesquisa científica. São a única superpotência militar. Seus gastos militares são mais do que o dobro dos gastos de China, Reino Unido, França, Rússia e Japão juntos.

 

 Como você analisa os governos de esquerda na América do Sul? A influência política e econômica dessa região pode crescer global mente? 

A América do Sul se tornou uma região de luz, a única no mundo na qual a desigualdade está diminuindo. A influência do Brasil vai crescer. Possivelmente, a influência do México também, se o país conseguir recobrar uma liderança menos subordinada aos Estados Unidos. O panorama para a América Latina e do Sul, como um todo, é um pouco mais incerto. A fundação da Celac foi um primeiro passo bastante positivo.

 

Em sua análise, a ciência social brasileira exerce um papel importante?

Na primeira vez em que estive no Brasil, em 1978, fui ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que continua sendo uma instituição impressionante. A sociologia brasileira é, naturalmente, um ponto de referência para mim, como sociólogo. Quando trabalhei o tema da família (estudo publicado no livro Sexo e Poder) fiquei bastante impressionado com as informações coletadas e organizadas pelo IBGE. Em resumo, os brasileiros têm muitos motivos para se orgulhar de seus cientistas sociais.

 

Nesse livro, Sexo e Poder, você aborda a questão familiar. Como vê hoje a situação da família? Ainda sofremos consequências da revolução sexual dos anos 1960? 

O ano de 1968 iniciou um processo de emancipação das mulheres, que teve como desfecho um tremendo golpe no patriarcado e no machismo na Europa e nas Américas; muito menos no resto do mundo. É claro que esse grande avanço também trouxe consigo um preço, especialmente dentre os pobres e a classe trabalhadora nos Estados Unidos e na Inglaterra, ocasionando um grande número de mães solteiras, com crianças crescendo em situações de privação e pobreza.

 

A família convencional está desaparecendo ou apenas mudando, adotando novos modelos?

A família está começando a se tornar mais igualitária, havendo mais igualdade entre marido e mulher, e entre pais e filhos. O contato social entre adultos e seus pais tem se mantido. O patriarcado chegou ao fim na maior parte da Europa e das Américas, mas ainda governa em cerca de um terço a dois quintos da população mundial.

 

 

*Lucas Vasques é jornalista e colabora com esta publicação

Adaptado do texto “Do marxismo ao pós-marxismo”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed.42