Conheça a história do PP

Personalismo malufista marca trajetória da legenda, cuja formação remonta à história de vários outros partidos de mesma orientação conservadora

Por Dr. Alessandro Farage Figueiredo* e Dr. Fábio Metzger** | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Quando o regime militar chegou ao final encerrando um longo período de um restrito bipartidarismo (1964-1985) para uma democracia legítima e pluripartidária, o partido de situação conhecido como Aliança Renovadora Nacional (Arena) – que buscava unir os brasileiros em geral contra a ameaça do caos econômico, da corrupção administrativa e da ação radical das minorias ativistas – foi reestruturado como Partido Democrático Social (PDS), da mesma forma que o partido de oposição Movimento Democrático Brasileiro (MDB) se tornou o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Entretanto, na transição para PDS foram estabelecidas tensões internas entre seus maiores nomes, como José Sarney e Paulo Maluf. Isso criou uma luta interna, cujo resultado foi a criação de um partido dissidente, já em 1985, o Partido da Frente Liberal (PFL), que se aliou com o PMDB. Na década de 1980, sob a liderança de Paulo Salim Maluf, o PDS esteve à frente de duas eleições para presidente, nas quais saiu derrotado: a indireta de 1985, contra a candidatura de Tancredo Neves/José Sarney (quando a Frente Liberal que se tornaria o PFL se coligou na Aliança Democrática, junto com o PMDB), e a direta de 1989 (quando ficou em 5º lugar). No início dos anos 1990, o PDS se fundiu com o Partido Democrata Cristão (PDC), mudando o seu nome para Partido Progressista Reformador. Nos anos do governo FHC, ele se fundiu com outra legenda, o Partido Progressista, mudando o nome para Partido Progressista Brasileiro (PPB). Na virada dos anos 1990 para o 2000, mais uma mudança de nome foi feita, e o partido adotou a nomenclatura que se mantém até hoje: Partido Progressista (PP).

 

História política do PSDB

 

É importante notar que embora o PP e o DEM (antigo PFL) sejam partidos irmãos conservadores oriundos da Arena, ambos possuem suas singularidades, sendo o personalismo malufista e o eleitorado conservador urbano-industrial dos progressistas as distinções mais marcantes no caso do PP, enquanto a plataforma liberal e a ligação mais próxima com oligarquias do Norte-Nordeste são traços mais marcantes do DEM. Embora ambos mantenham fortes laços com a democracia cristã, especialmente com a corrente do conservadorismo cristão. Sendo que o PP herdou maiores influências do positivismo, a começar pela ideia de “progresso” no nome do partido oriundo do lema da bandeira nacional, um dos maiores símbolos do positivismo.

 

Faz parte do conservadorismo urbano-industrial a ideia de que a favelização pode ser solucionada pela engenharia civil em grandes e dispendiosos projetos como o “Cingapura” | Foto: Lukaaz/wikipedia

 

Diferentemente do DEM, que é formado como um guarda-chuva de oligarquias das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste junto com setores do liberalismo econômico das regiões Sudeste e Sul, somado a uma bancada cristã, de cunho conservador; o Partido Progressista se estrutura em torno da atuação política de Paulo Maluf, que naquele momento já era um político de destaque e considerado um potencial presidenciável representante tanto de um pensamento empresarial conservador paulista como do conservadorismo urbano-industrial de setores da classe média e baixa. É devido a essa corrente, que ficou notoriamente conhecida como malufismo, que tradicionais valores políticos paulistas, como a ênfase na realização de obras públicas iniciada por Washington Luís e perpetuada por Ademar de Barros (ademarismo), permaneceram no cenário político brasileiro contemporâneo. A ideia de um estado forte, ordeiro, urbanizador e pró-industrialização. Sendo importante destacar que embora o malufismo tenha se iniciado na Arena, dando apoio às ideias do regime militar, suas origens estão na República dos Bacharéis marcadamente positivistas, principalmente nos seus últimos mantenedores como Washington Luís, o primeiro fluminense a governar o estado de São Paulo e último presidente do Brasil da República dos Bacharéis; além de Ademar de Barros.

 

O eleitorado e o malufismo

O PP se estrutura em torno da atuação política de Paulo Maluf. | Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O PP conseguiu, em certo momento, conquistar um eleitorado fiel formado por eleitores de classe baixa, moradores de bairros urbanos centrais (não periféricos) focados em uma ideologia política conservadora urbano-industrial. Essa ideologia acredita firmemente em: a) um “estado forte” formado por um grande quadro de funcionários públicos especializados (tecnocratas), como professores, médicos, defensores públicos, engenheiros etc.; b) um “estado ordeiro” com forte aparato policial ostensivo e fiscalizador, como fiscais de postura, agentes de trânsito, policiais militares, guarda metropolitana armada etc.; c) um “estado urbanizador” que realize grandes obras públicas para o bem da sociedade; e d) um “estado pró-industralização” que estimule o crescimento do setor industrial, gerando empregos e um ciclo produtivo de arrecadação tributária que retorna para a sociedade em políticas públicas (keynesianismo) que significam mais desenvolvimento econômico.

 

Um ponto interessante sobre o eleitorado do PP é que os partidos que historicamente se consideravam de esquerda e oposição a ele como o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) acreditavam primeiramente que o eleitorado conservador dos progressistas era formado por uma elite paulista retrógrada e superficial, com herdeiros e socialites de famílias quatrocentonas e de barões do café, que votavam no PP por terem ojeriza à população de baixa renda e quererem concentrar as políticas públicas em benefício próprio. Os resultados das eleições do PP, principalmente as de Paulo Maluf nos anos 1980 e 1990, foram um choque para esses partidos denominados de esquerda e que acreditavam estar alinhados com as necessidades da população de baixa renda. O perfil econômico do eleitorado malufista é extremamente similar a parte considerável dos eleitores do PT dos anos 2000 e 2010, com a distinção de que o eleitorado progressista é de baixa renda residente nas áreas urbanas centrais, enquanto o eleitorado trabalhista é de baixa renda de áreas urbanas periféricas. E a classe alta paulista na verdade se encontra substancialmente no PSDB. Nesse ponto o PP se encontra até em uma posição eleitoralmente estratégica, visto que é mais fácil para ele conquistar votos tanto de eleitores do PT de baixa renda quanto do PSDB localizado na região central urbana, enquanto a migração de votos entre PSDB e PT é bem mais complicada devido à distinção socioeconômica e distância geográfica de seus respectivos eleitorados em São Paulo.

 

 

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Adaptado do texto “O conservadorismo urbano-industrial do Partido Progressista (PP)”

*Dr. Alessandro Farage Figueiredo é cientista político, jurista, sociólogo e demógrafo. Pós-doutorado em Desenvolvimento Internacional pela University of Denver. Pós-doutorando em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Cefet/RJ. Tem o website https://plus.google.com/+AlessandroFarageFigueiredo e seu e-mail é alefarage@gmail.com CV completo: http://lattes.cnpq.br/2773646156482036

**Dr. Fábio Metzger é cientista político, historiador, sociólogo e jornalista. Tem o blog https://politicavoz.wordpress.com/ e seu e-mail é fabiometzger@terra.com.br CV completo: http://lattes.cnpq.br/2834965313695158