Conheça a Sociologia ambiental

O professor Adriano Premebida, doutor em Sociologia e pesquisador, avalia os problemas ambientais da Amazônia e nos informa acerca dos projetos que estão sendo desenvolvidos nessa importantíssima região, no sentido de conhecê-la e preservá-la

Por Alexandre Quaresma* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitars

A maioria dos problemas socioambientais mais graves que temos que enfrentar na atualidade é fruto de tecnologias que tanto nos ajudaram

Houve um tempo, longínquo, em que a atividade humana era imensamente menor do que a capacidade de regeneração dos sistemas vivos e cadeias tróficas da natureza. Por mais que interviéssemos nos ecossistemas, não éramos capazes de gerar danos significativos ou permanentes. O ser humano era, apenas, mais um ser em meio a toda a biodiversidade viva e, assim, admiravelmente, o que acontecia é que o próprio sistema tratava de se organizar por si, ou, na linguagem sistêmica e da complexidade, ele se auto-organizava. Não havia, ainda, uma supremacia humana definida e irreversivelmente determinada. O animal humano lutava por sua sobrevivência e permanência, dia após dia, e, o mais importante, ‘de igual para igual’ com os demais seres vivos.

 

 

Só que os tempos agora são outros. Hoje, somos mais de sete bilhões de seres humanos famintos e agônicos, espalhados pelos quatro cantos do planeta, e os impactos negativos dessa explosão demográfica já podem ser sentidos em diversos pontos da biosfera. Derrubada das matas e florestas, degelo polar, poluição de mananciais, degradação da camada de ozônio, aquecimento global, extinção maciça de espécies da fauna e da flora… A lista de desarranjos, por nós provocados, parece mesmo não ter fim. Um bom exemplo disso é a floresta amazônica brasileira, que tem sofrido, severamente, com o desmatamento, a poluição e as mudanças climáticas. E, principalmente, com a impunidade que brinda e estimula os infratores. A pergunta é: já existem pesquisas, dados e informações suficientes, que possam comprovar essa desfavorável realidade socioambiental?

 

Quem irá nos falar um pouco mais sobre esses assuntos tão instigantes, que envolvem a Sociologia da tecnologia, em relação à ecologia amazônica, é o professor Adriano Premebida, que é doutor em Sociologia (UFRGS), pesquisador e diretor técnico-científico da FDB, Manaus/AM. É vinculado a diversos grupos de pesquisa, como a Red Latinoamericana de Nanotecnología y Sociedad, do grupo de pesquisa Nanoendoambiental (Fiocruz), Jusnano (Unisinos) e do grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (Temas/UFRGS). É autor do livro Biotecnologias: dimensões sociológicas e políticas. Adriano Premebida e a FDB são responsáveis por gerenciar diversos projetos, de ampla envergadura, na pesquisa e coleta de dados na Amazônia brasileira. Ele, gentilmente, concedeu essa entrevista exclusiva à revista Sociologia.

 

COMO O SENHOR PERCEBE, SOCIOLOGICAMENTE, ESSA GALGANTE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL QUE INFRINGIMOS À BIOSFERA TERRESTRE?

Primeiramente, farei um preâmbulo sobre o ponto de vista sociológico no tratamento da degradação ambiental. A Sociologia somente elabora o ambiente como objeto de estudo por volta dos anos de 1970, particularmente nos EUA. Antes disso, as reflexões sociológicas sobre as relações entre natureza e sociedade eram esparsas, orientadas mais pelas limitações que o natural oferecia às interações das sociedades. Com a fundação da Sociologia ambiental, mas não apenas por isso, é bom dizer – basta ver a expressão histórica e política dos movimentos ambientalistas ou ecologistas –, este tema acaba influenciando outras especialidades das Ciências Humanas, forçando a questão ambiental a estar presente nos estudos sobre dinâmica industrial, na Sociologia rural, na Economia, nas engenharias, e na área da saúde, por exemplo. Especificamente aos programas de pesquisa da Sociologia, o ambiente ou, de forma mais elaborada, a questão ambiental, entra na análise como um conjunto de ideias e crenças que utilizamos para entender as dinâmicas de conflito e consenso próprios da vida em sociedade. Assim, o ambiente é percebido como uma entidade particular e real, que condiciona a vida humana, mas que é trabalhado pela Sociologia, muitas vezes, como algo externo à sociedade.
O SENHOR ACREDITA QUE AINDA HÁ TEMPO PARA NÓS E AS PRÓXIMAS GERAÇÕES REVERTERMOS ESSE DESFAVORÁVEL QUADRO QUE NOS ASSOMBRA?

Difícil prever. Principalmente, pela escassez de dados robustos, frutos de pesquisas de longa duração para simularmos e montarmos cenários mais fidedignos. Nossas previsões de futuro, geralmente, decorrem do imaginário e das sensações do presente. Por isso é complicado falarmos sobre quadros futuros da realidade. E, ainda, temos alguns processos randômicos, de difícil previsão. Dito isso, acho que o cenário não é auspicioso, se pensarmos nas principais metas de redução de gases de efeito estufa, e nos indicadores sobre a forma impetuosa, que transformamos ou deterioramos os fatores inerentes, que estruturam e estabilizam as interações entre diversos biomas, rios, lagos e oceanos. De um ponto de vista social, nós somos bem adaptáveis, sempre traçamos e criamos novos mundos de relativo convívio mútuo. Mas, por enquanto, não estamos preparados, considerando o modelo socioeconômico hegemônico, para mudanças climáticas e ambientais, que, porventura, sejam mais contundentes e frequentes. Penso em eventos extremos e, ciclicamente, muito próximos, quando comparamos sequências históricas conhecidas. Pela nossa estrutura global de conexões e dependência de grandes sistemas energéticos e de dados, a impressão é caótica, principalmente se pensarmos nos gigantescos aglomerados urbanos e nos setores econômicos primários, que dependem, fortemente, de fatores ambientais (solos sadios e recursos hídricos) e  relativa regularidade climática para plantios e/ou colheitas. Se conseguirmos alterar os modos de produção, as formas preponderantes de consumo conspícuo e as maneiras de interação e construção do ambiente, talvez tenhamos, ainda, como remediar alguns dos efeitos negativos sobre as gerações futuras. De um ponto de vista histórico, isso é possível, talvez, inevitável.

 

POR QUE É TÃO IMPORTANTE ESSA COLETA MINUCIOSA DE DADOS SOBRE AS FLORESTAS TROPICAIS E O CLIMA?

Sem estes dados, a maior parte do que se fala da Amazônia é especulação, sem muita fundamentação, extrapolação de dados laboratoriais, com controle muito precário, em vista da complexidade da realidade. Quanto mais se estuda a Amazônia mais se percebe o quanto a desconhecemos. Existe muita replicação de mitos sobre a região, mesmo por pessoas informadas, tomadores de decisão, gestores da área pública e mesmo cientistas. Estamos entrando em um período, com estes projetos e diversos outros não elencados, com pesquisas de primeira linha. Isso ajudará na geração de dados confiáveis e formação de pessoal. Para isso, foi preciso, antes, estruturar todo o sistema de ciência e tecnologia da região (destaco o papel ímpar da Fapeam, no Amazonas), capacitar pessoal e estabelecer os laços entre inúmeros agentes para elaborar os projetos, considerar as prioridades e buscar financiamento. É um trabalho difícil e de longo prazo. Sem estes dados sobre as florestas tropicais e o clima é difícil elaborar políticas públicas de forma efetiva e acertada. Este, além dos elementos intrínsecos do campo científico em si, é um dos principais objetivos destes programas e projetos como um todo.

 

Revista Sociologia Ed. 56

Adaptado do texto “Os segredos da Biosfera”

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera) e membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common Ground Publishing. E-mail: a-quaresma@hotmail.com