Contra a violência

Socióloga comenta trajetória profissional dedicada às relações de gênero e pesquisa que ligam atos violentos contra mulheres ao consumo de entorpecentes

Por Lejeune Mirhan | Foto: Revista Sociologia | Adaptação web Isis Fonseca

Violência contra a mulher

Alexandra é socióloga, da cidade pantaneira de Corumbá, e luta contra a violência.  Hoje, seu foco de pesquisa, o trabalho acadêmico, é com foco em pesquisa sobre estudos feministas, violência contra as mulheres, direitos sexuais e reprodutivos, masculinidades, questão das drogas e o registro crítico da participação das mulheres na história do seu estado de MS.

Formada pela UFMS, fez especialização em Dependências Químicas pela Universidade para o desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), em 2006. Em 2010 fez mestrado em História na Universidade Federal da Grande Dourados. Possui formação complementar em Direitos Humanos pelo Programa de Incentivo à Produção Acadêmica em Direitos Humanos da SUR. É também professora de Sociologia na rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul.

Para entender sua luta social, conversamos com a Alexandra, que comenta sua trajetória profissional dedicada às relações de gênero e pesquisa que ligam atos violentos contra mulheres ao consumo de entorpecentes.

Qual sua experiência profissional na luta pelos direitos humanos e contra o violência?

Durante a especialização em Dependências Químicas tive contato com o Instituto Brasileiro de Inovações Pró-Sociedade Saudável do Centro-Oeste (Ibiss-CO), organização da sociedade civil que atua no campo dos direitos humanos desde 1993, em Campo Grande. Fui selecionada para o projeto Acelerando Passos, financiado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

O objetivo do Acelerando era enfrentar a violência sexual cometida contra crianças e adolescentes por meio de ações estratégicas que incluíam metodologias lúdicas de arte-educação para o público infanto juvenil em situação de rua e exploração sexual, o mapeamento dos pontos de prostituição de Campo Grande, a articulação com a rede de atenção, a realização de curso de formação continuada para educadores de organizações governamentais e não governamentais sobre questões relacionadas ao problema em foco.

A equipe do projeto mantinha contato frequente com as profissionais do sexo que agenciavam programas no interior do antigo terminal rodoviário de Campo Grande e seus arredores, espaços onde o consumo do álcool e outras drogas era comum, estratégia para obter informações sobre crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual e cárcere privado.

Em diversos casos, as trabalhadoras do sexo tornaram-se nossas parceiras, intermediando a aproximação com a adolescente em situação de exploração sexual. Trabalhei na articulação, sensibilização e mobilização da Rede de Atenção, bem como participando do mapeamento dos pontos de prostituição e das demais atividades promovidas.

No Ibiss-CO também atuei em fóruns, redes e outros projetos, como o Trançando Redes, patrocinado pelo Ministério da Saúde, que realizou mapeamento e diagnóstico das organizações da sociedade civil envolvidas na garantia dos direitos humanos das pessoas vivendo com HIV/Aids na região Centro-Oeste, trabalhei na elaboração de instrumental de pesquisa, realizando oficinas de formação para entrevistadores, e fui uma das investigadoras e sistematizadoras dos dados do estudo. Nesse período também participei ativamente do movimento feminista.

Em 2007, fiz trabalhos voluntários no Grupo de Apoio e Solidariedade Sul-Mato-Grossense Ação e Prevenção à Aids (Gass), elaborei o projeto Vida Posithiva, financiado pela Secretaria Estadual de Saúde.

Em 2008, fui técnica de monitoramento psicossocial no projeto Penas Alternativas e Violência de Gênero: sensibilização de homens autores de violência contra a mulher, desenvolvido pela Coordenadoria Especial de Políticas para Mulheres do governo do estado, com financiamento do Ministério da Justiça.

As atividades desenvolvidas incluíam a realização de entrevistas para formação de grupos, elaboração de relatórios técnicos, a realização de oficinas e o acompanhamento e monitoramento do cumpridor de penas alternativas condenado pela Lei Maria da Penha. Em 2012 voltei a atuar nesse projeto, dessa vez
como coordenadora.

Em 2009 atuei na coordenação local da pesquisa que resultou no “Dossiê sobre aborto inseguro para advocacy: o impacto da ilegalidade do abortamento na
saúde das mulheres e na qualidade da atenção à saúde reprodutiva em Campo Grande e Corumbá, Mato Grosso do Sul”.

A elaboração desse dossiê é fruto de projeto coordenado por duas organizações da sociedade civil, o antigo Ipas Brasil (RJ), em parceria com o Grupo Curumim
(PE), em vários estados do país, com a finalidade de gerar debates sobre a realidade do abortamento inseguro e o impacto de sua ilegalidade na vida das mulheres e nos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS).

No MS, o estudo, publicado em 2010, pretendeu contribuir para discussões sobre a implantação, de maneira eficaz e abrangente, de projetos e programas que
ofereçam maior cobertura aos direitos sexuais, reprodutivos e atenção às mulheres em situação de abortamento, violência e seus agravos.

Em 2010, já no mestrado, participei do projeto É proibido proibir: diálogos sobre autonomia reprodutiva e liberdade, financiado pelo Fundo Elas de Investimento Social (RJ), tendo sido uma das coordenadoras do mesmo. No final desse projeto me desliguei desse movimento e optei por uma atuação feminista mais autônoma e distante de opressões e partidarismos.

Conte-nos sobre seu trabalho “O tônico dos machos: o uso de psicoativos no contexto das masculinidades e a violência de gênero no campo”

O objetivo dessa pesquisa foi analisar o cenário do consumo de substâncias psicoativas, especialmente das bebidas alcoólicas, por homens e as relações dele com
práticas de violência contra as mulheres em um assentamento de reforma agrária chamado Bebedouro, localizado na zona rural do município de Nova Alvorada do Sul, no Mato Grosso do Sul.

A proposta desvenda os bastidores das relações de gênero, do consumo das bebidas alcoólicas e suas associações com práticas de violência contra as mulheres, identificando os valores socioculturais que justificam o ato.

A pesquisa trouxe à tona narrativas de mulheres e homens do campo que evidenciam traços dos discursos herdados das antigas campanhas antialcoólicas e dos
dispositivos culturais e jurídicos de legítima defesa da honra que vigoraram no Brasil nas primeiras décadas do século XX.

No caso do álcool, a medicina higienista do século XIX trouxe a necessidade de uma intervenção profilática de combate aos vícios exigindo novos regramentos de controle da vida social, sobretudo para garantir a produtividade do trabalhador nas fábricas.

Esse discurso foi reproduzido pelas campanhas antialcoólicas que chegaram ao Brasil na década de 1920. Constrói-se a ideia de que o álcool incapacita o homem
para o trabalho, levando também à explosão dos instintos mais bárbaros e irracionais.

A loucura alcoólica foi utilizada para absolver muitos crimes de violência contra a mulher, sob a alegação de que os homens não estavam conscientes dos atos praticados.

Essa é uma questão que vem sendo investigada pela historiadora Maria Izilda Santos Matos, professora da PUC-SP. De forma geral, as mulheres do Bebedouro
vítimas de violência envolvendo a alcoolização dos parceiros atribuíram à bebida alcoólica a responsabilidade pela violência sofrida. “Ele é tão bom, mas quando bebe vira monstro” ilustra o substrato de muitos depoimentos, o que revela uma tendência a desresponsabilizar os parceiros pelos atos praticados.

Entre os homens, o álcool foi invocado como vilão em muitas histórias de violência doméstica. São narrativas que atualizam a dominação masculina no controle da liberdade das mulheres e justificam a violência de gênero, sobretudo sob efeito da embriaguez.

Mas a violência também aparece como um meio de corrigir a parceira por divergir do homem em algum aspecto, pelo ciúme que sentiam de suas companheiras ou por elas não aceitarem as regras masculinas e a displicência com os serviços domésticos.

Confira a entrevista completa na Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 72!

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