Cooperação e Divisão do trabalho em Marx

Uma análise do desenvolvimento da maquinaria e da grande indústria em O capital, principal obra de Karl Marx

Por Angelina Michelle de Lucena Moreno | Foto: Shutterstock | Adaptação web Isis Fonseca

Este artigo tem por objetivo analisar o desenvolvimento histórico da maquinaria e da indústria a partir da obra do filósofo, teórico político, historiador,  economista e militante Karl Marx (1818-1883). Para tal, faremos uma incursão nos conceitos de “cooperação”, “maquinaria” e “grande indústria” presentes nos
capítulos 11, 12 e 13 do Livro I de O capital (2013 [1890]). A partir desses elementos, revisitaremos conceitos que consideramos centrais para a contribuição teórica de Marx, a partir do desenvolvimento e da expansão do sistema capitalista na Inglaterra.

O desenvolvimento da grande indústria na Inglaterra e a expansão do modo de produção capitalista para as demais partes do globo foi objeto recorrente na obra de Marx. Suas primeiras publicações tiveram como cerne o “acerto de contas” com a Filosofia alemã, e posteriormente a crítica ao socialismo utópico e a teoria do valor-trabalho inglesa (Lênin, 1979 [1913], p. 71-72) Dentre elas, a análise da sociedade capitalista realizada nas obras Manuscritos econômicos filosóficos (2004 [1844]) e Ideologia alemã (2007 [1933]) se diferem metodologicamente quando comparadas com as obras de sua maturidade.

Essas primeiras obras estiveram ancoradas, sobretudo, em uma abordagem filosófica do processo de trabalho e no pressuposto do distanciamento do homem com o seu ser genérico, além do estranhamento e da alienação no processo de trabalho. Essa abordagem é abandonada por Marx quando comparamos esses conceitos com a sua obra máxima O capital, do qual o processo de produção capitalista é analisado detidamente sob uma nova abordagem.

Segundo Marx, a produção na sociedade capitalista aparentemente esteve pautada na produção de mercadorias. Aplicando uma metodologia que tem por finalidade desvelar a aparência dos processos, Marx inicia sua obra a partir do conceito “átomo” de mercadoria, em que “a mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa que, por meio de suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de um tipo qualquer” (2013 [1890], p. 113). Contudo, o modo de produção capitalista traz implicações muito mais profundas do que somente a produção de mercadorias.

Nesse sentido, o método de Marx está ancorado no materialismo histórico-dialético, que tratar-se-ia de um método que analisa a própria história e indica como o homem cria suas próprias ferramentas e interage com a natureza em uma realidade contraditória, transformando o meio em que vive. A partir desses pressupostos, analisaremos no próximo tópico como inicialmente as cooperativas transformaram-se historicamente em corporações pela complexificação da divisão do trabalho.

Cooperação e divisão do trabalho

Segundo Karl Marx, a expansão da produção capitalista é uma das características mais importantes para a sobrevivência do sistema de produção capitalista. No capítulo 24 do Livro I da obra O capital (Marx, 2013 [1890]), intitulado “A assim chamada acumulação primitiva”, Marx indica que para além da transformação
das antigas cooperativas em grandes indústrias, o próprio processo de expansão do sistema capitalista se consolida historicamente a partir do século XV e XVI na Inglaterra.

Com a expansão dos cercamentos de terra e da expropriação dos camponeses, uma grande massa de trabalhadores foi desapropriada de suas terras devido ao aumento do preço da lã. Como processo subsequente, a dissociação dos meios de subsistência desses trabalhadores resultou no êxodo dos camponeses para as
grandes cidades. Para a sua sobrevivência, só restou a esta massa de trabalhadores vender uma única mercadoria: sua força de trabalho.

Para Marx, “a produção capitalista só começa, de fato, quanto o mesmo capital individual emprega simultaneamente um número maior de trabalhadores, quando, portanto, o processo de trabalho aumenta seu volume e fornece produtos numa escala quantitativa maior que antes. […] Com relação ao próprio modo de produção, a manufatura, por exemplo, em seus primórdios, mal se diferencia da indústria artesanal da corporação, a não ser pelo número maior de trabalhadores simultaneamente ocupados pelo mesmo capital. A oficina do mestre-artesão é apenas ampliada” (2013 [1890], p. 397).

No capítulo 11 do livro I de O capital, Marx indica uma mudança substancial na venda da força de trabalho, na medida em que o trabalho objetivado em valor passa a ser constituído por uma grandeza média. Nesse sentido, a indústria não contabilizaria o trabalhador individualmente, mas um “coletivo” de força de trabalho (2013 [1890], p. 397). Dessa maneira, a lei geral da valorização consistiria no emprego, pelo produtor individual, de um número cada vez maior de trabalhadores.

A essa forma de trabalho, no qual muitos indivíduos trabalham em um processo de produção conjunto, é dado o nome de cooperação (Marx, 2013 [1890], p. 400). É possível indicar algumas implicações imediatas pelo uso da cooperação, segundo Marx. A principal trata-se da redução do valor investido na produção, com a concentração de trabalhadores em um mesmo processo de produção e da consequente diminuição do valor da força de trabalho.

Em outras palavras, a jornada de trabalho coletiva produziria maior quantidade de valor, além de diminuir o tempo de trabalho necessário para a produção de mercadorias, do que empregando individualmente o mesmo número de trabalhadores e colocando-os para trabalhar em locais separados. As consequências da expansão industrial capitalista apresentariam condicionalmente a concentração dos meios de produção nas mãos de poucos capitalistas, tornando a cooperação um arquétipo do desenvolvimento da produção capitalista.

Contudo, Marx também destaca que a cooperação sempre existiu na história humana. Em que medida é possível diferenciar a cooperação “tradicional” da cooperação “capitalista”? Essa forma específica de cooperação pode ser explicada da seguinte forma: “A cooperação no processo de trabalho tal como a encontramos predominantemente nos primórdios da civilização humana, entre os povos caçadores ou, por exemplo, na agricultura da comunidade indiana, baseia-se, por um lado, na propriedade comum das condições de produção e, por outro, no fato de que o indivíduo isolado desvencilhou-se tão pouco do cordão umbilical da tribo ou da comunidade quanto uma abelha da colmeia. Essas duas características distinguem essa cooperação da cooperação capitalista” (Marx, 2013 [1890], p. 409).

Adaptado de Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 65!