Crianças e o consumo

Estudos de recepção para uma reflexão sobre o consumo e as relações das crianças com as mídias e suas representações sociais

Por Isabel Orofino* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

O debate sobre infância e consumo ganhou importância e visibilidade nos anos recentes. Os estudos de recepção se caracterizam como um campo particular no âmbito da pesquisa de comunicação, o qual oferece contribuições com aportes teóricos e metodológicos para uma reflexão sobre o consumo e as relações das crianças com as mídias e suas representações sociais. O artigo apresenta um debate teórico sobre recepção, consumo e infância em diálogo com um relato de experiência de campo pelo período de seis meses.

 
A pesquisa encontra-se na etapa da análise interpretativa dos dados empíricos recolhidos do convívio com 36 crianças, estudantes de 4ª série na Escola Municipal de Ensino Fundamental Morro Grande, na Freguesia do Ó, São Paulo. Discutem-se aqui questões teóricas sobre comunicação, recepção e consumo a partir das relações das crianças com as mídias. Busca-se identificar elementos representativos de um imaginário de consumo junto à infância brasileira contemporânea.

 

 

 

Introdução

Uma das questões centrais que o debate sobre a pós-modernidade coloca em pauta é a fragmentação da cena política com a emergência de múltiplos novos sujeitos. Na modernidade, a classe social foi protagonista da luta por direitos e no contemporâneo precisa necessariamente do diálogo com novas vozes organizadas a partir dos movimentos de mulheres, negros, índios, homossexuais, de gerações, religiosos, pacifistas, entre outros. Novos sujeitos políticos definidos pela própria vitalidade dos movimentos sociais; uma imagem em retícula.

 
A questão da infância e do lugar da criança enquanto sujeito social portador de direitos e deveres também ganhou maior organização e visibilidade nas décadas recentes. No Brasil e no mundo novas redes de mobilização foram criadas a partir do trabalho de ONGs, agências e institutos de pesquisas, por exemplo. Também, com as tecnologias de comunicação em rede, esses organismos construíram espaços de debate com ampla visibilidade.

 

Iniciativas de toda ordem tomaram corpo em oNGs, governos e outras instituições colocando em evidência a proteção do infante | Foto: Divulgação

 
O propósito deste trabalho é socializar alguns resultados de uma pesquisa teórica e empírica sobre recepção, consumo e infância. Em termos epistemológicos tomamos como ponto de partida os Estudos Culturais pela contribuição que oferecem para a reflexão sobre a questão das identidades nessa nova cena política. Nosso foco será a pesquisa com a criança em particular e os modos como a pesquisa problematiza a voz da criança, justamente do infante (que significa: aquele que não sabe falar). A partir desse recorte buscamos identificar inovações teóricas recentes, sobretudo no âmbito das relações entre estudos do consumo e estudos de recepção.

 
A pesquisa insere-se em um programa maior vinculado à Rede Obitel – Observatório Ibero-Americano da Tele-ficção, em particular a Rede Obitel Brasil. Nossa participação ocorre junto à equipe da ESPM/SP. No âmbito dessa rede nossa preocupação em particular volta-se para a problematização das relações das crianças com a telenovela com ênfase em aspectos de consumo de tecnologias, em especial os novos dispositivos de comunicação de base digital que permitem a conectividade em rede.

 
Dados econômicos evidenciam que houve um aumento significativo das práticas de consumo de aparelhos eletrônicos (em especial o telefone celular e o computador) por amplos segmentos das classes populares ao longo dos últimos anos no Brasil. Diante dessas evidências, este trabalho busca uma reflexão sobre as seguintes questões: Como e em que medida as crianças brasileiras (sobretudo nos anos recentes) adquirem e utilizam novos equipamentos de comunicação que permitem a portabilidade da informação em linguagem digital em potencialmente todas as esferas, espaços e tempos da cotidianidade? Como e em que medida se dá a construção de um imaginário de consumo por parte das crianças? Que representações sociais emergem do imaginário infantil contemporâneo?

 
As questões teórico-metodológicas constitutivas do campo da pesquisa de recepção são aqui problematizadas a partir de sua trajetória desde os Estudos Culturais britânicos em diálogo com a chamada pesquisa de recepção na América Latina, com ênfase para as teorias das mediações.

 

 

 

Infância, mídia e comunicação

A problemática das relações entre mídia e infância tem sido objeto de um longo percurso de investigações internacionais, realizadas a partir dos mais diferentes enfoques teórico-metodológicos. Em grande medida, no que se refere às relações com as crianças, os enfoques teóricos pesam para um lado em que a mídia é demonizada.
Com relação aos estudos críticos, há também uma desconfiança permanente com relação à presença das mídias nas sociedades modernas. Aqui a ênfase é a questão do poder econômico, da concentração da produção e da ideologia operando nos discursos a partir de diferentes formas culturais.

 
Em grande medida as pesquisas sobre a infância ainda colocam a criança no lugar do outro inferior. Prevalece, neste percurso histórico, por um lado uma visão moralista de preocupação com os excessos da violência e do estímulo à sexualidade precoce, e por outro lado (em um viés crítico) a condição de vulnerabilidade reflexiva da criança frente às textualidades midiáticas de produção comercial. São raras as pesquisas que se interessam pela condição da criança enquanto receptor ativo, capaz de “se defender”, de escolher ou de ressignificar o que a mídia coloca em pauta.

 
Nos interessa identificar a voz da criança. Nesse sentido, uma grande contribuição para nosso mapeamento teórico tem sido o trabalho de Bernard Charlot (1979), o qual discute a infância como lugar de ambiguidades, onde também residem conflitos, hierarquias e projeções próprias do ser humano. Isso nos ajuda a deslocar o conceito de infância para além da imagem da criança inocente, dependente, obediente, passiva. A sociedade adultocêntrica exclui a criança, mas isso não quer dizer que a criança não tenha o que dizer, ou que a criança não pense.

 

Conteúdo sexualizado: elemento nas discussões que demonstram clara desconfiança em relação à presença das mídias nas sociedades modernas

 
Estamos trabalhando a partir de paradigmas que localizam a comunicação social enquanto processo sócio-histórico, o que significa uma opção por teorias com foco no materialismo cultural e nas mediações sociais. Nesse conjunto encontram-se aportes que advêm das teorias marxistas da cultura (sobretudo em Walter Benjamin e Antonio Gramsci) e necessariamente dos estudos culturais britânicos (Raymond Williams, Richard Hoggart, Stuart Hall, David Morley). Também, de modo mais atualizado, o debate das teorias da estruturação (Giddens e Silverstone) e principalmente as teorias latino-americanas das mediações (Martín-Barbero e Guillermo Orozco). Com relação ao trabalho de recepção junto às crianças nosso principal aporte está no trabalho de David Buckigham, autor que tem realizado intensa produção sobre crianças, mídias e consumo. Esses aportes teóricos nos levam à construção de uma proposta de método dialético, crítico (materialismo cultural) e também compreensivo (hermenêutica) no âmbito da pesquisa qualitativa e de caráter etnográfico.

Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

 

Nesse sentido, as contribuições dos estudos culturais, em suas diferentes formas e lugares territoriais de abordagem (seja o Reino Unido, a América Latina, a América do Norte, entre outros), trazem uma grande contribuição para a superação da visão maniqueísta, pautada por frequentes oposições binárias, que demarca a trajetória dos estudos sobre mídia, infância e consumo. Os estudos culturais, em suas diferentes realizações, têm buscado problematizar as complexidades nas relações de apropriação e consumo das tecnologias e seus múltiplos discursos, compreendendo a cena sociomidiática como lugar de conflito e luta em torno do significado, como algo que não está dado a priori, mas que está em processo permanente de negociação. E que nem sempre atende os interesses do mercado, mas que também atende os interesses dos diferentes setores da sociedade civil (Canclini, 1995; Martín-Barbero, 1997).

 

 

 

A pesquisa de recepção

Compreender a cultura diferenciada da infância é o nosso desafio, mas desejamos realizá-lo a partir de uma epistemologia fundada na horizontalidade das relações, na problematização da alteridade e no respeito à diferença. Nesse sentido, compreendemos que as propostas realizadas sob a orientação de estudos culturais e estudos de mediações se contrapõem às abordagens funcionais e trazem inovações para a produção de conhecimento sobre a infância uma vez que fortalecem a ênfase em aspectos de sociabilidade e cultura, compreendendo o sujeito em sua integralidade e sobretudo a partir de seu contexto concreto de experiência.

 

O papel da alimentação nos estudos

 

Nossa proposta de trabalho busca verificar como se dão empiricamente as relações das crianças nos usos de novos dispositivos digitais, indagando-se sobre questões de inclusão digital e participação por parte de crianças de classe popular, justamente porque a classe foi e continua sendo um conceito estruturante.

 
Cabe destacar também que fundamentamos o nosso trabalho a partir de uma metodologia de pesquisa participante (Brandão, 1985) em que as relações de alteridade entre pesquisador e sujeitos da pesquisa se transformam tanto em convivência quanto em compromisso. Para o autor:

 

Quando o outro se transforma em uma convivência, a relação obriga a que o pesquisador participe de sua vida, de sua cultura. Quando o outro me transforma em um compromisso, a relação obriga a que o pesquisador participe de sua história. Antes da relação pessoal da convivência e da relação pessoalmente política do compromisso, era fácil e barato mandar que “auxiliares de pesquisa” aplicassem centenas de questionários apressados em outros que, escolhidos através de amostragens ao acaso, “antes”, seriam reduzidos a porcentagens sem sujeitos “depois”. Isso é bastante mais difícil quando o pesquisador convive com pessoas reais e através delas, com culturas, grupos sociais e classes populares. Quando comparte com elas momentos redutores da distância do outro no interior do seu cotidiano (Brandão, 1985, p. 12).

 
Para alcançar a meta de dedicar atenção, em profundidade, ao discurso produzido por crianças acerca da recepção da telenovela e dos imaginários do consumo, realizamos um trabalho de campo, de caráter etnográfico, com crianças de classes populares (C, D e E) estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental Morro Grande (EMEF Morro Grande). Nossa amostragem é de um grupo de 36 crianças com idade entre 10 e 12 anos que frequentavam a 4ª série do ensino fundamental. A permanência em campo se deu ao longo de seis meses, de julho a dezembro de 2010.
Temos a meta também de contestar aqueles estudos sobre mídia, crianças e consumo que resvalam em teorizações tendenciosas sobre essas relações e que “falam” pelas crianças sem de fato dedicarem tempo e atenção ao que elas têm a dizer sobre os processos de recepção, fruição, recusa e resistência em relação aos produtos midiáticos.

 

A mercantilização do prazer

 

 

Categoria sociológica

Consumo é definitivamente um conceito-chave para o entendimento da vida social contemporânea. E colocá-lo em discussão resulta em grande desafio, pois o debate se pauta por controvérsias. O consumo, enquanto categoria de análise, cria espaços de reflexão que necessariamente amarram dialeticamente tanto o material quanto o simbólico; o público e o privado; a estrutura e a agência; a dependência e a liberdade; o individual e o coletivo; a regra e a mediação, por exemplo.

 
Não iremos traçar aqui uma exaustiva análise das diferenciações históricas no uso do conceito, tampouco vou identificar todo o percurso epistemológico que atravessou a partir de análises econômicas, sociológicas, antropológicas, históricas, comunicacionais, entre outras.

 

A preferência das crianças segue sendo os programas dos canais abertos da rede televisiva

 
Trata-se de um longo percurso revelador de que o conceito possui uma história particular de desenvolvimento que atravessa diferentes paradigmas ao longo da produção das ciências sociais e humanas na modernidade.
Porém, atenta ao fato de que uma pesquisa científica sobre consumo precisa necessariamente explicitar qual a dimensão epistemológica do conceito que estará sendo solicitada para os fins de desenvolvimento dos trabalhos (Lopes, 1994) eu destaco que a proposta que apresento nas páginas que se seguem se insere no âmbito de uma teoria do consumo reflexivo, a partir de uma epistemologia da estruturação (Giddens, 1989) e das mediações (Williams, 1975; Silverstone, 1994; Martín-Barbero, 1997). Com isso destaco que: dada a centralidade desse conceito nas teorias contemporâneas da cultura, busco por extensão localizar a sua inserção na vida social concreta a partir das práticas de consumo midiático com o propósito de verificar relações de negociação, ressignificação e apropriação entre os sujeitos sociais e as estruturas, de modo dinâmico, dialético e contraditório.

 

 

Consumo na teoria social

Em grande medida a teoria social moderna privilegiou o debate e a reflexão sobre os processos de produção e de trabalho. O consumo foi relegado a outro plano, ao encontram-se associados conceitos como o de futilidade, luxúria, vaidade, vício, irracionalidade.

 
Em seu livro A era do consumo, Luiz Enrique Alonso apresenta um debate sobre as transformações radicais provocadas pela emergência da nova sociedade de redes e como esta trouxe à tona a importância do ser consumidor, este lugar social. Alonso arrisca a nos levar a imaginar uma nova sociedade em que o consumidor é agente de transformação, portador de uma nova “consciência de classe”.

 

Como é criada a consciência coletiva

O autor apresenta um panorama epistemológico para uma teorização sobre o consumo, do qual apresentamos algumas breves referências: em primeiro lugar, uma Sociologia “positiva” e clássica de ordem funcional em que há dois momentos: (i) um primeiro momento que deriva da economia clássica que compreende o consumidor como sujeito individualista, racional e soberano, o que o autor chama de “cânone individualista”; (ii) a visão da sociedade de massas em leitura positiva articulada ao fordismo, economia liberal de consumo opulento e voraz como qualidade de condição de sujeito. Como ideal de expansão da lógica industrial e capitalista.

 
Em segundo lugar uma Sociologia crítica, de base marxista e seus desdobramentos em que o consumo nas sociedades de massas é compreendido como produtor de falsas necessidades. A publicidade e a mídia entram em debate aqui como produtoras de alienação, falsas consciências, massificação etc. O autor destaca que há também uma Sociologia pós-moderna (o consumidor pós-moderno) que aqui é compreendida como visão cínica. Na crítica pós-moderna, diante da fragmentação total das identidades, o sujeito pós-moderno se perde em meio às múltiplas identidades e à profusão de textualidades em que tudo é simulacro, paródia, pastiche e replay.

 
Podemos inferir que há uma nova abordagem, uma Sociologia dos usos que compreende a sociedade multicultural a partir das práticas e ações efetivas dos sujeitos em suas manifestações de reflexividade (estruturação, usos sociais, mediações) em relação dialética às estruturas sócio-históricas. Remete à estruturação de Giddens, às práticas de Bourdieu, e também as táticas do Certeau.

 

Outra vida é possível

 

 

Comunicação, recepção e consumo

Raymond Williams (2007) nos ajuda a compreender que a emergência do simbólico enquanto mercadoria se verifica quando a própria sociedade industrial (e a expansão da forma mercadoria) vai demandar uma atividade de “propaganda” dos produtos, desencadeando então uma demanda social para um sistema de mídia que, destaque-se aqui, irá resultar em uma indústria cultural tão onipresente e poderosa quanto a indústria de bens materiais. Sobre a consolidação da indústria cultural Roger Silverstone (1994) destaca que fecha-se aí o ciclo de uma sociedade em que: a mercadoria é símbolo e o símbolo é mercadoria. Os ícones da indústria cultural são co-modificados, desejados, comprados, simbolizados e rearticulados nos múltiplos cenários da vida social.

 
Por outro lado, o valor de signo (e portanto uma dimensão simbólica e comunicativa para o fenômeno) e a impossível separação entre o material e o simbólico já está posta na discussão sobre o fetiche da mercadoria. O entendimento de que a mercadoria carrega em si uma dimensão simbólica, um valor de signo que “oblitera” o valor de uso e de troca já havia sido destacado nos clássicos da literatura sobre o tema, em especial a partir de Marx e com inúmeras repercussões e desdobramentos na teoria crítica até hoje, mais visivelmente na obra de Jean Baudrillard. No entanto, boa parte dos estudos críticos sobre consumo situa a atividade do consumidor como hipótese de reprodução da lógica dominante sem a exposição de evidências empíricas a respeito de como os agentes atuam na esfera de suas vidas pessoais cotidianas.

 
Eu acredito que é necessário ampliar esse acervo localizando também aquelas pesquisas que se voltam para a ação dos sujeitos sociais e as suas práticas na esfera da cotidianidade. Estudos que utilizem metodologias voltadas para as dimensões intersubjetivas das relações humanas, tais como a etnometodologia, o interacionismo simbólico (no âmbito de uma Sociologia compreensiva) e a etnografia (na pesquisa antropológica), podem nos ajudar a localizar o consumidor empírico e assim trazer novos aportes e renovações para os quadros teóricos desse debate. Há uma série de pesquisas sob a rubrica dos estudos culturais contemporâneos, com ênfase na atividade reflexiva e significativa das práticas de consumo de moda, corpo e identidade, por exemplo, que podem também trazer contribuições para esse debate.

 

 


Uma renovação teórica se faz importante, pois essa discussão está na ordem do dia, sobretudo no momento histórico que vivemos, quando a democratização do acesso aos bens materiais e simbólicos mobiliza a formação de um novo ethos em que as identidades são articuladas e construídas a partir de, entre outras dimensões, também os atos de consumo (Canclini, 1995). Verifica-se, portanto, o trânsito de um momento histórico em que a mercadoria, que mediava a distinção de classe pelo seu valor de signo (como destacado por Pierre Bourdieu), torna-se recurso, ferramenta na construção das identidades e diferenças no cenário plural e mediatizado da vida contemporânea. A mercadoria, no jogo de articulação das múltiplas identidades contemporâneas (classe, gênero, etnia, raça, orientação sexual, geração, entre outras), pode ser compreendida como recurso simbólico para os sujeitos de diferentes segmentos sociais na produção de suas narrativas de vida pessoal e de seus projetos reflexivos do eu (Giddens, 2002).

 
Sendo assim, um olhar histórico sobre o fenômeno pode estar indicando o trânsito de uma sociedade industrial e de consumo de massas para uma sociedade pós-industrial de consumo reflexivo, ou seja: aquela em que o consumidor assume um poder jamais experienciado em outros períodos, o poder de recusa tanto quanto o de escolha; o poder de simbolizar a mercadoria, de ressignificá-la, projetando no ato do consumo uma prática de mediação.

 

Conheça a Sociologia do Conhecimento

 
No âmbito da pesquisa de mídia e comunicação, a teorização sobre recepção/consumo cultural e simbólico é também diversificada. Com o desenvolvimento da indústria cultural, a produção acadêmica internacional registra diferentes perspectivas críticas, que destaco duas grandes vertentes: (i) aquelas abordagens marcadas por tons mais graves, reprodutivistas e apocalípticos (como Adorno, Bourdieu, Baudrillard); e (ii) um outro conjunto de autores que buscam as vias das contradições e conflitos e localizam a recepção/consumo cultural como lugar de luta simbólica, como espaço de intervenção e ressignificação da vida social (uma teorização que toma como ponto de partida as formulações desde Bakhtin, Gramsci, Benjamin, Williams, Silverstone, Martín-Barbero, entre outros). Não se trata aqui de recuperar toda essa trajetória. Porém, convém destacar que, para este projeto de pesquisa, estarei dialogando principalmente com os autores da segunda perspectiva, ou seja, aqueles que localizam a recepção/consumo cultural como lugar de mediações, isto é, de lutas e articulações em torno da produção social do significado. É no âmbito de toda essa ampla discussão que apresento alguns detalhes interessantes, verificados na pesquisa de campo ao longo dos seis meses do ano de 2010.

 

 

 

À guisa de conclusão

Algumas ilustrações sobre crianças, representações sociais e imaginários do consumo: ainda não é possível apresentar os resultados da análise interpretativa dos dados empíricos. Mas podemos oferecer algumas ilustrações que se destacaram ao longo dos trabalhos do ano passado. Em primeiro lugar, nossa reflexão sobre os imaginários do consumo (especificamente para este trabalho) teve início com a nossa participação em um evento promovido pelo Instituto Alana com o título Crianças do consumo, realizado em março de 2010 na cidade de São Paulo. Uma experiência no mínimo curiosa. Havia uma ênfase destacada ao discurso moralista contra o consumo e contra a mídia com uma agenda de luta pela proibição da publicidade direcionada à criança.

 
Ao longo dos dias que se sucederam em que o evento transcorreu os adultos que falaram em nome das crianças não apresentaram trabalhos empíricos com as crianças. Os dados eram sempre números, alguns assustadores, sobretudo com relação à obesidade infantil. O tema é amplo demais para ser tratado aqui, neste momento. O que se destacou foi a carência total de abordagens e propostas de trabalho que envolvam a participação da criança. Na defesa dos direitos da criança os adultos falam em seu nome sem sequer ouvi-la – foi o conceito que prevaleceu em nossa interpretação das falas durante o evento.

 

Do desamparo ao esquecimento

 
Durante os meses seguintes ao evento realizei a pesquisa de campo, indo semanalmente à Escola Municipal de Ensino Fundamental Morro Grande, na Brasilândia, Freguesia do Ó, São Paulo. E então “a criança” – sujeito abstrato – se materializa em crianças, com suas inteligências múltiplas, suas subjetividades e histórias de vida. Nos seis meses que frequentamos a escola interagimos com os estudantes da 4ª série, professores, trabalhadores da segurança, limpeza, cantina e profissionais da direção e da secretaria.

 
Junto à 4ª série, realizamos a pesquisa com o uso das seguintes técnicas: fotografia (produção de retratos e autorretratos); desenho do bairro e da casa; redações sobre o bairro e a casa; questionário de identificação e consumo de tecnologias; entrevista semiestruturada sobre recepção e imaginários do consumo; produção de 5 web-novelas com a participação das crianças.

 
As crianças gostavam do trabalho sobre a mídia. Nossa chegada em sala de aula foi sempre motivo de muita alegria e de, certamente, quebra de rotina. A turma era, segundo a direção, uma das mais dispersivas, com problemas de silêncio e concentração. Uma turma das mais bagunceiras. Não encontramos crianças necessariamente dóceis e indefesas. Encontramos crianças muito tímidas e oprimidas, crianças muito pobres. Mas não necessariamente obedientes, passivas e indefesas.

 
Foi possível verificar uma ampla inclusão digital por meio da aquisição de computadores para uso doméstico (PCs) com acesso à internet realizada nos últimos três anos por parte das famílias das crianças. Cerca de 80% das crianças informaram que a presença do computador com a internet se dá nos últimos três anos. Cinquenta por cento afirmaram ter ocorrido no último ano. Também verificou-se que 52% das crianças têm TV a cabo no espaço doméstico, o que amplia o repertório midiático. O que, no entanto, não parece diminuir a frequência aos canais de TV aberta, amplamente citados pelos programas de preferência no consumo cultural das crianças.
Dois momentos nos chamaram especial atenção e são significativos para o término dessa discussão. Eles trazem à tona o debate sobre a consciência de gênero de modo muito expressivo.

 
Em primeiro lugar, a fala da menina de 10 anos (o limiar entre a menina e a moça) ao responder sobre o que ela menos gostou do que viu na televisão naquele ano. Ela denuncia a violência contra a mulher a partir do relato do assassinato de Elisa Samudio, ex-namorada do goleiro Bruno, jogador de um time de futebol brasileiro, o Flamengo. Fato que o jornalismo melodramático e sensacionalista explorou de modo macabro por longos meses. Isso dialoga com o que apontou David Buckingham (2002), quando destaca que a criança distingue claramente a ficção da realidade apontando o que é o medo do fato concreto, narrado no telejornal e o medo do fato ficcional, narrado nos filmes, desenhos ou novelas.

 

Caso Bruno X Elisa Samúdio: acompanhamento do episódio evidencia consciência de gêneros das crianças, além do estranhamento da violência contra a mulher | Foto: Wikipedia

 
Ao perguntarmos para um menino se ele gosta de telenovela também ele denunciou a violência contra a mulher ao destacar que na trama de Passione o personagem Fred batia muitas vezes na Clara. A não naturalização da violência contra a mulher realizada pelo menino é reveladora de uma recepção negociada. Quem sabe como vive essa mãe desse menino? Quão agredida é a mulher de classe popular no Brasil para que a denúncia contra a sua violência venha à evidência na entrevista?

 
Ainda uma última fala, de um menino que, ao perguntarmos o que ele faria se encontrasse o gênio da lâmpada maravilhosa e pudesse fazer três pedidos, ele diz: (i) eu ajudaria a minha mãe a encontrar trabalho; (ii) eu daria uma casa para a minha mãe; (iii) eu daria casa para as pessoas pobres. O tão denunciado consumismo não aparece nessa fala em momento algum.

 
Não queremos defender aqui que as crianças não precisem da mediação adulta na construção das lutas por seus direitos enquanto cidadãs e consumidoras. O que queremos é argumentar em favor de metodologias de trabalho que necessariamente incluam a voz das crianças na problematização das ideias dominantes sobre a infância, pronunciadas pelos adultos. E, nesse sentido, a pesquisa de recepção oferece uma enorme contribuição.

 

 

*Isabel Orofino é professora do Programa de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da ESPM/SP; Pós-doutoranda pela Rede CLACSO em Infância e Juventude; doutora em Comunicação Social/ ECA-USP. Mestre em Educação/UFSC. É autora de Mediações na produção de TV: um estudo sobre o Auto da Compadecida (EdiPUC, 2006) e Mídias e mediações escolares: Pedagogia dos meios, participação e visibilidade (Cortez, 2005). Email:

iorofino@espm.br

(Este artigo foi apresentado ao Grupo de Trabalho “Recepção, Usos e Consumo Midiáticos”, do XX Encontro da Compós, na UFRGS, Porto Alegre, RS, em junho de 2011).

Adaptado do texto “Crianças, recepção e imaginários do consumo”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 45