Crise da civilização

Michael Löwy relaciona ecologia e capitalismo, sugerindo a construção de um ecossocialismo contra as relações de exploração do sistema vigente

Por Fábio Py* | Foto: José Cruz/ Agência Brasil | Adaptação web Caroline Svitras

O livro de Fabio Mascaro Querido Michael Löwy: marxismo e a crítica da modernidade é de importância para a Sociologia crítica brasileira, pois (convincentemente) traça a trajetória, ideias e razões pelas quais anuviam quase 60 anos de atividade intelectual de Felix Michael Löwy, conhecido como Michael Löwy. Ousadamente compõe seu corpus literário tão vasto dividindo a caminhada intelectual do professor do EHESS (Paris) em seis partes/ênfases vernizadas com altas doses de um marxismo heterodoxo avesso a dogmatismos. A primeira temática atacada pelo autor é justamente um dos últimos interesses do autor: a ecologia. Como bem indica Fabio Mascaro Querido, Michael Löwy relaciona a temática ao lastro do capitalismo moderno quando, no contemporâneo, consolidaria junto à lógica exploradora numa crise ecológica – crise de civilização. Para ele, uma saída para relação exploradora (desigual) seria da construção de uma ecologia social, ou ecossocialismo, o qual ajudaria até a renovação de utopias marxistas.

 

Nas palavras de Fabio Mascaro Querido, Michael Löwy enfrenta assim o tema: “existência da ‘crise ecológica’ – ou melhor, da crise do modelo civilizatório vigente – desdobra-se, portanto, um parâmetro a partir do qual se recolhem aportes para renovação crítica do marxismo” (p. 43). Assume que “desde meados da década de 1970, é possível perceber a emergência vertiginosa de uma crise ecológica sem precedentes resultado do ímpeto destrutivo do capitalismo que, naquele momento, reorganiza significativamente os parâmetros de acumulação e reprodução ampliada do capital” (p. 27). O que vem se compondo para Michael Löwy é um aprofundamento de múltiplas crises “econômica, ecológica, sociais, e políticas, que se determinam e se sobredeterminam” (p. 29). Obrigando-o a formular um ecossocialismo como corrente de ação que engloba “as teorias e os momentos que aspiram e subordinam o valor de troca de uso, organizando a produção em função das necessidades sociais e das exigências de proteção do meio ambiente” (p. 28).

 

Seguindo no livro sobre uma figura tão singular como Michael Löwy, o autor localiza sua trajetória individual no segundo capitulo. Distingue os momentos de estudos da USP até a docência nos EHESS, desde o “Grupo do Capital” da USP, na militância luxemburgista do início da juventude com dois personagens fundamentais: Lukács, destaque nas discussões no “Grupo do Capital”, e Lucién Goldmann, com quem fez sua tese de doutorado – inspiração direta na construção de uma sociologia marxista da cultura para perceber a teoria da revolução no jovem Marx. Interessante que ao mesmo tempo, pelas posições diferentes de seu orientador, Michael Löwy se define como um “neogoldmaniano de esquerda”, amparando-se especialmente na obra de Rosa Luxemburgo contra qualquer autoritarismo do comunismo vulgar. Conjuntamente, na sua tese de doutoramento apoiou-se no próprio Georg Lukács assumindo a categoria totalidade “continuadora da ciência revolucionária de Marx” (p. 54). Outro ponto de influência de Goldmann firma-se no livro Le Dieu cachê, quando liga o pensamento de Pascal e o teatro Racine, discutindo nesse traço a chamada “visão trágica do mundo” (p. 62).

 

Na década de 1960 ingressa na Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), seção francesa da Quarta Internacional, relacionando-se ativamente com o trotskismo. Por meio desse assumiu um marxismo dialético junto à teoria do desenvolvimento desigual e combinado tencionando o imperialismo, rompendo com o evolucionismo e o eurocentrismo. Por Trotski supõe uma “reflexão dialética, nãolinear e aberta da história, capaz de penetrar na dinâmica concreta das formações sociais analisadas, relacionado-as aos desdobramentos cada vez mais universais do capitalismo imperialista” (p. 70). Mesmo que tenha aderido a algumas teses de Trotski, Michael Löwy consolidou também críticas principalmente as tecidas pela revolucionária Rosa Luxemburgo, abrindo-se mais ainda aos enredos da dialética teoria-prática.

 

Outro destaque do livro de Fabio Mascaro Querido é a apropriação de Michael Löwy de Walter Benjamin e sua crítica marxista do progresso. Por ele, questiona o “discurso filosófico que pretende sustentar a racionalidade e do progresso histórico do estar” (p. 73). Fabio supõe que a descoberta do filósofo alemão levou Michael Löwy a um passo do marxismo lukasciano e goldmaniano “desfazendo suas certezas, transformando hipóteses e alguns dos dogmas” (p. 74) assumindo “Teses sobre conceito de história” (de Walter Benjamin) como o documento mais significativamente revolucionário desde as “Teses sobre Feubach” de Marx. De Walter Benjamin também toma sua potencialidade crítica do romantismo onde se localizaria uma temporalidade abstrata, base crítica de seu “anticapitalismo romântico recusando por esse as ideologias do progresso” (p. 75). Apoia-se no projeto de Benjamin “das Passagens” quando o passado torna-se um “prelúdio necessário de sua evolução posterior ao presente” (p. 78). Junto a esses elementos mais dois se inspiram em Walter Benjamin: primeiro quando vem de suas leituras atualizadas a tradição dos oprimidos, dos vencidos da história contra a temporalidade vazia do progresso capitalista; e, o segundo, no entendimento de que a História seria um sinal da catástrofe permanente, uma dialética “pesada” do progresso.

 

Löwy e seu anticapitalismo: Weber foi um dos pensadores que influenciaram o intelectual | Foto: Wikipedia

Max Weber é outro autor destacado nos trabalhos de Michael Löwy, preocupado em traçar (de forma generosa) uma leitura anticapitalista do sociólogo alemão de Heidelberg. Diz que sua atração pela Sociologia alemã que vem desde sua tese sobre a evolução política no jovem Lukács, especialmente a partir do interesse pelo “Círculo Max Weber de Heidelberg”. Sobre o círculo Fabio Mascaro Querido escreve que “o anticapitalismo romântico já era um pressuposto fundamental para análise de trajetória de Lukács, aproximou Löwy das temáticas levantadas por esta tradição alemã de pensamento social e, em particular, pela obra de Weber” (p. 101). Tece a operação teórica inspirado no seu orientador Lucién Goldmann, incorporando criticamente a obra weberiana, por exemplo, na utilização da ideia de “consciência possível” (p. 102). O autor lembra que Michael Löwy em vários momentos fez uso do conceito de “tipos idéias” e de “afinidades eletivas” de Weber – até por sua inserção acadêmica na Sociologia da religião no CNRS (EHESS) – Paris. Michael Löwy o tempo todo interpreta Weber tentando recuperar “a dinâmica cultural na explicitação da realidade cultural, reafirmando a necessidade de uma crítica do capitalismo moderno na sua totalidade” (p. 105). Dois elementos finais valorizados por Fabio Mascaro Querido, na obra de Michael Löwy inspirados em Weber, seriam a noção dialética do Kulturpessimimus, e o último na formação de um marxismo weberiano ou da radicalização anticapitalista de Weber – esse, a partir de uma linhagem anti-moderna com Georg Lukács, Ernst Bloch e Walter Benjamin.

 

Também merece destaque no corpus literário de Michael Löwy seu aporte romântico anticapitalista e o marxismo. Para tanto, Michael Löwy condiciona de forma marxista o anticapitalismo romântico, redefinindo o conceito de romantismo como uma “visão social do mundo, uma estrutura básica de sentimento que, desde meados do século XVIII até os dias atuais, atravessa as mais diferentes manifestações socioculturais, da arte à política, passando pela filosofia, historiografia e pela política” (p. 127), de “oposição ao mundo burguês moderno” (p. 127), por meio de “certos valores sociais e culturais pré-capitalistas” (p. 127). Nisso, o livro de Löwy e Sayre se inspira também nas análises de Lucién Goldmann, o qual entendia o romance “como expulsão de conflito entre a sociedade burguesa e alguns valores qualitativos” (p. 124). Ao mesmo tempo, ambos autores se inspiram em Georg Luckács, observando que faces do “romantismo se opunham ao capitalismo” (p. 128). Para Löwy e Sayre o romantismo constituiu-se uma oposição ao mundo burguês moderno, vindo desde a formação e acompanhando criticamente o desenvolvimento da modernidade capitalista: com industrialismo e generalização da economia de mercado.

 

No último capítulo do livro Fabio Mascaro Querido traz à tona o tempo presente no qual “impõe a necessidade de reativação do excedente utópico instalado no coração da concepção marxiana do comunismo” (p. 187), fazendo a recorrência das utopias, impregnadas pelo romantismo e pela imaginação humana. Nesse ponto, o autor destaca que Michael Löwy se preocupa com a corrente do messianismo judaico com suas utopias libertárias com nomes como Franz Rosenzveig, Martin Buber e Gershom Scholem. Também têm destaque na obra os anarquistas religiosos judaizantes como Gustav Landauer, Fraz Kafka e Benjamin. Da mesma forma os judeus assimilados (ou ateu-religiosos) como: “Ernst Toller, Ernst Bloch e Georg Lukács” (p. 163). Outro dado da atualidade na obra de Löwy seria seu interesse pela Teologia da Libertação, construindo o conceito de “cristianismo da libertação” em seu premiado A guerra dos deuses. Livro escrito com o aumento de suas visitas no Brasil, aprofundando o dado do cristianismo anticapitalista, com toda sua corrente desde a década de 1970 de figuras latino-americanas como: Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff, Frei Betto, Pablo Richard, Bonino, Enrique Dussel, Juan Luis Segundo e Gotay. Escreve que a “Teologia da Libertação é uma forte inspiração para movimentos sociais contemporâneos como o neozapatismo do EZLN, e do MST no Brasil” (p. 165). E, pontua que com a Teologia da Libertação “se tem a necessidade de redefinição da crítica marxista da religião” (p. 166), obrigando Löwy a praticar um denso trabalho de leitura de textos revolucionários sobre o lema da religião – a fim de recompreender o “fascínio dos teólogos da libertação pelo marxismo” (p. 173).

 

Enfim, as utopias do marxismo em Michael Löwy são intentos fundamentais para mudança social mesmo que marcadas nas contradições da realidade, contudo, paradoxalmente sempre abertas, experimentáveis, estimulando “à imaginação a toda política radical” (p. 175). Por esse motivo, seu amigo Daniel Bensaid chamou-o de “marxista libertário”, como costumava desenhar sobre a obra de Walter Benjamin. Assim, no fim do livro, Fabio Mascaro Querido afirma que Michael Löwy “destaca-se exatamente pela capacidade pouco comum de recolher diversas influências, cuja oxigenação mútua desestimula todo tipo de paralisia dogmática” (p. 179), levando “autores do passado por outro olhar do político no presente” (p. 180). Nesse caso, a obra de Fabio Mascaro Querido sobre Michael Löwy destaca sua trajetória acadêmico-militante, reconhecida desde épocas primeiras, imbuído de uma temporalidade pesada e um múltiplo conjunto de ideias, aspirações. Faz isso no livro com competência, a partir de linguagem acadêmica, sem deixar de permitir a acessibilidade ao texto, por isso, saúda-se o esforço do autor quando pratica um difícil balancear de décadas de estudos, análises e obras de um dos grandes intelectuais sociais mais respeitados no mundo. O texto permite certa esperança de acesso sistêmico e denso à Sociologia do pensamento revolucionário na atualidade, podendo incentivar novas investidas de pesquisas sobre o pensamento revolucionário e social do franco-brasileiro Löwy. Que empreendimentos como esse de Fabio Mascaro Querido contribuam para anuviar com novas heresias lugares tão petrificados de certezas, como parte dos movimentos progressistas (e seus partidos políticos), por vezes perdidos nas convicções das exegeses das letras de seus grandes autores e de suas “autoridades” – capengando na máxima marxiana teoria-prática. Sem dúvida teoria-prática fora (e é) um fio de sentido organizativo de toda obra lowiniana.

 

*Fábio Py é doutor em Teologia, ênfase em Doutrina Social da Igreja, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO). E-mail: pymurta@gmail.com

Sociologia Ciência & Vida Ed. 65