Danos do capitalismo

O sistema capitalista transformou o trabalhador num verdadeiro escravo do tempo, sem ter condições de lazer ou, em muitos casos, de receber um salário digno e proporcional a suas horas de dedicação no emprego

Por Yago Junho* | Adaptação web Caroline Svitras

A ideologia, como um conjunto de representações verbais e audiovisuais, cria os significados que alimentam o pré-consciente. De modo que a ideologia é uma força oculta, permanecendo em estado de latência, dando a falsa certeza de uma consciência autônoma. Nesse processo enganoso o capitalismo se apresenta como a única verdade a ser posta em prática. É uma escravidão inconsciente ao sistema, com todo o requinte de crueldade, que advém desse engano. A mais-valia ideológica, ainda segundo Ludovico Silva, extrai energia psíquica do homem. O homem se sente capaz, por meio do seu esforço e trabalho, de satisfazer todas as suas necessidades, quando, na verdade, não é ele que cria as suas necessidades, mas vai a reboque das necessidades que o capitalismo cria para ele.

 

A natureza do capitalismo

 

Numa manobra espetacularmente benfeita, o capitalismo faz surgir a mitologia da competência, salientada por Gilberto Felisberto Vasconcellos. Essa mitologia está calcada na individualização das ações do homem, em sua busca do sucesso profissional. Uma consequência disso é a badalação em cima do conceito de empreendedor. O empreendedor é uma pessoa que sonha, estipula metas e elabora os caminhos para a execução de suas aspirações. É um homem que pratica, diuturnamente, ou, pelo menos, essa é a intenção, a ação social racional em relação a um fim. Todas as tarefas são, minuciosamente, planejadas para a consecução do seu objetivo final. Nada contra, entretanto, quando focalizamos o sucesso ou o fracasso no desempenho individual e esquecemos que o indivíduo depende, em grande parte, da estrutura social que vive, não levamos em conta que a sociedade pode ser um empecilho à realização de nossos sonhos. Sem Sociologia no horizonte do candidato a empreendedor não me espantaria, daqui alguns anos, presenciarmos uma geração de pessoas depressivas, se culpando por não ter conseguido ser um homem de sucesso.

 

Seja competente, tenha sucesso, vença. Mas o que é ter sucesso? O que é ser vencedor? O que é ter competência? A excessiva divulgação dessas palavras faz com que elas tenham uma significação padronizada associada com as conquistas, que só o capitalismo pode dar. E o capitalismo se apropria dessa força para aumentar a produção de mercadoria. Nessa trilha, claro que ocorrem ganhos e, em muitos casos, exorbitantes, mas é inegável que o indivíduo não consegue se desvencilhar do emaranhado de exigência que o sucesso coloca a ele. E isso é tão disseminado que, na ponta do processo, o trabalhador se vê embevecido com a possibilidade de se tornar um bacana.

 

O cara passa o dia inteiro no trabalho, insatisfeito, volta para casa, não vai querer abrir um livro nem tergiversar sobre o processo de exploração em que vive. Liga a TV e acha que está descansando. Os meios de comunicação de massa se transformaram em verdadeiras indústrias ideológicas. “[…] A indústria ideológica explora o homem naquilo que é especificamente seu: a consciência. E o explora colocando sob essa consciência uma ideologia que não é a desse homem, mas a do capitalismo, e que, por isso, produz uma alienação (ideológica). A mais-valia ideológica é, assim, dada pelo grau de adesão inconsciente de cada homem ao capitalismo. Esse grau de adesão é, realmente, um excedente de seu trabalho espiritual: é uma porção de seu trabalho espiritual, que deixa de lhe pertencer e que passa a engrossar o capital ideológico do capitalismo, cuja finalidade não é outra que preservar as relações de produção materiais, que originam o capital material […]” (SILVA, 2013, p. 188).

 

O que é trabalhismo?

 

No afã de atingir tal intento, uma legião de intelectuais midiáticos é escalada para a obra de divulgação das “verdades eternas e incontestáveis”, ditadas pelo mercado. Sociedade pensada por meio de slogans criados em agências de publicidade. Imagens e pensamentos transformados em valores de troca. E para completar o quadro, essa indústria ideológica faz surgir indivíduos, que recebem esses conteúdos de forma passiva. O âncora de telejornal faz a dialética para nós. O tempo fora da empresa, que deveria ser um tempo total, um tempo livre, um tempo qualitativo para o desenvolvimento da criatividade e das potencialidades do homem, vai para o ralo. O que ocorre é que: “[…] A energia psíquica permanece concentrada nas múltiplas mensagens que o sistema distribui; permanecemos atados à ideologia capitalista e se trata de um tempo de nossa jornada, que não é indiferente à produção capitalista, mas ao contrário: é utilizado como tempo ótimo para o condicionamento ideológico […]” (SILVA, 2013, p. 203).

 

 

Não é por acaso o aumento do consumo de barbitúricos. A sociedade tarja preta. É impressionante como aumenta o número de farmácias em nossos centros urbanos, o que é uma contradição, já que estamos numa era de obsessão pela saúde. Alimentação saudável, combate ao cigarro, ao álcool, proliferação de academias, seria de se esperar que, com uma vida mais saudável, as pessoas precisassem menos de farmácias. A preocupação estética e o cuidado alucinado com o corpo representam a face da indústria da beleza. Mais uma prova de que não é o homem que cria suas necessidades no capitalismo, mas, sim, o inverso. Ser bonito, fino, chique, rico e sarado. Nosso tempo de lazer, submetido às exigências do consumo e dos padrões de relacionamento entre homens e mulheres.

 

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*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora, professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação de Santa Rita do Sapucaí (MG) e autor do livro Sociologia Pau Brasil, pela Editora Multifoco. E-mail: yeuzebio@gmail.com

Sociologia Ciência & Vida Ed. 56

Adaptado do texto “O tempo nosso de cada dia roubado”