Darcy Ribeiro: a Antropologia vem do povo

Por Yago Junho* | Foto: Luciana Whitaker/Folhapress | Adaptação web Caroline Svitras

O livro O processo civilizatório resume o enquadramento de Darcy Ribeiro sobre como a evolução histórica definiu as condições de desenvolvimento dos países centrais e periféricos. O homem constrói seu modo de viver através do relacionamento com o meio natural. O primeiro pressuposto é a limitação das alternativas de que dispõe para extrair seu sustento da natureza. Se as alternativas são limitadas, conforme a história avança, mais homogêneos vão ficando os procedimentos humanos. Todas as sociedades possuem três ordens de imperativos: o tecnológico, o social e o ideológico. É justamente isso que permite elaborar uma tipologia evolutiva geral. “A contingência de gerar-se dentro desses enquadramentos uniformizadores é que permite às culturas evoluir direcionalmente” (Ribeiro, 1991, p. 37). Ou seja, o processo evolutivo é direcional e homogeneizador.

 

Entretanto, não podemos apreender essa marcha da história apenas no âmbito das abstrações gerais. As particularidades concretas têm que ser contempladas para tornar a teoria da história fidedigna. Tal qual é exposto, a teoria da evolução sociocultural sublinha como motor, em última instância, as tecnologias produtivas e militares. Isso não quer dizer que outras forças não possam determinar essa dinâmica. Porém, Darcy Ribeiro salienta que os condicionamentos ideológicos apresentam-se em escalas reduzidas de tempo.

 

É na interação entre processos gerais e particulares que a teoria torna-se sólida. A evolução sociocultural é concebida como “[…] o movimento histórico de mudança dos modos de ser e de viver dos grupos humanos, desencadeado pelo impacto de sucessivas revoluções tecnológicas sobre as sociedades concretas, tendentes a conduzi-la de uma etapa evolutiva a outra, ou de uma outra formação sociocultural” (Ribeiro, 1991, p. 42).

 

 

 

 

 

 

Para Darcy Ribeiro, civilizações são: “[…] cristalizações de processos civilizatórios singulares que nelas se realizam como um complexo sociocultural historicamente individualizável” (Ribeiro, 1991, p. 53). Resta observar por quais mecanismos se dão as desigualdades entre os povos e o porquê do desenvolvimento e atraso serem o verso e reverso de um mesmo processo.

 

Bibliografia consistente: o antropólogo era pródigo em neologismos conceituais, como “gentidades” e “ninguendades” | Fotos: Divulgação

 

O que caracteriza cada etapa histórica é o tipo de tecnologia usada para estruturar a atividade econômica e social. Os povos pioneiros em novas tecnologias, produtivas e militares, reestruturam suas próprias sociedades e, depois, partem para dominação de outras, modificando-as. Essas reestruturações se dão a partir de dois processos: Aceleração Evolutiva e Atualização Histórica.

 

 

Embora esses conceitos sejam bem elucidativos, sozinhos não explicam as causas do nosso subdesenvolvimento. Então, Darcy Ribeiro utiliza outro conceito para completar sua formulação: as Configurações Histórico-Culturais. Essas configurações explicam como os novos povos se formaram e formam. Ele define quatro configurações: Povos Testemunhos, Povos Transplantados, Povos Novos e Povos Emergentes.

 

O Brasil é formado pela miscigenação de três etnias: o português, o índio e o africano. Porém não somos nem índios, nem portugueses nem africanos. Nós, brasileiros, constituímos um Povo Novo porque resultamos do encontro dessas três matrizes. Como tal, estamos destinados a construir uma nova civilização que seja generosa com nossa população.

 

“Não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira a influir sobre as pessoas, aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo” (Ribeiro, 2001, p. 17).

 

Darcy Ribeiro desenvolveu uma interpretação originalíssima da psicologia de nossa formação civilizacional. O primeiro brasileiro nascido no Brasil foi o mameluco, filho de pai ibérico e de mãe indígena. O mameluco é aquele indivíduo que quer se identificar com o pai, por ser europeu, mas é rechaçado. Ao mesmo tempo rejeita o ventre materno. Como não se identifica com a mãe e o pai não o assume por ser fruto de uma relação “bastarda”, o mameluco fica na condição de ninguendade. E para fugir dessa condição de ninguendade, assume a identidade de brasileiro. Isso explica, em parte, o complexo de inferioridade do brasileiro, o que Gilberto Vasconcellos vai definir como síndrome caramuru – essa atitude irritante de achar que o estrangeiro é sempre melhor.

 

Darcy Ribeiro não se cansava de dizer que nossa elite é a mais perversa do mundo. Quem de fato comanda as decisões econômicas e políticas é o estamento gerencial das multinacionais. O antropólogo foi um exemplo de intelectual engajado, um intelectual que não se encastelou na academia, que criticava seus colegas de Antropologia pelo distanciamento com o povo. Darcy Ribeiro foi múltiplo e ao mesmo tempo manteve a unidade de pensamento. Um caso raro de intelectual com capacidade de transpor para a prática o que a vida inteira escreveu. Amou os índios, buscou nos CIEPs a construção de uma nação digna para nossas crianças e quis transformar o Brasil numa nação que fosse uma terra de oportunidades para todos os cidadãos.

 

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Adaptado do texto “Darcy Ribeiro: a Antropologia vem do povo”

*Yago Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora e autor do livro Sociologia Pau Brasil, pela Editora Multifoco. E-mail: yeuzebio@gmail.com