Desculpas como objeto sociológico

Sob a luz da Sociologia, autor analisa um dos recursos mais utilizados nas interações sociais

Por Camille Porto* e Juliana Vinuto** | Adaptação web Caroline Svitras

 

O que o ato de dar desculpas fala sobre nossa sociedade? É possível fazer um estudo sociológico sobre as desculpas que damos a todo momento, nas mais diversas situações? Alexandre Werneck, professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ), argumenta que sim. Segundo o pesquisador, as desculpas dadas são um recurso utilizado rotineiramente na sociedade a fim de evitar conflitos e manter as relações sociais. Até na Bíblia, importante livro para o pensamento ocidental, quando se explica a criação do mundo, há a figura de Adão que lança mão de uma desculpa quando acusado por Deus por ter praticado o pecado original, atribuindo a Eva a culpa pelo ato. Ela, por sua vez, deu a desculpa de que, na realidade, fora a serpente a culpada por tal pecado. Jocosamente, Werneck nomeia a desculpa como “o invento de Adão” e a define como uma ferramenta utilizada a fim de superar conflitos produzidos pela ruptura de regras morais.

 
No livro A desculpa: as circunstâncias e a moral das relações sociais (2012), Werneck nos demonstra quatro casos empíricos de usos de desculpas: manuais que ensinam a dar desculpas eficientes; depoimentos da investigação do escândalo do Mensalão; situações da vida de casal; e o uso da velhice como desculpa para descortesias praticadas por idosos. Além dessas diferentes frentes de pesquisa empírica, Werneck também apresenta inúmeros exemplos para evidenciar a potencialidade dos estudos sobre as circunstâncias que demandam dos atores uma boa desculpa, inclusive ilustrando com exemplos inusitados para um trabalho sociológico, como a série americana Seinfeld ou o romance Brás Cubas, de Machado de Assis.

 

 

 

O ato de dar uma desculpa

O foco deste texto serão as desculpas dadas, não os pedidos de perdão que, apesar de terem o mesmo nome, tratam de ações diferentes, realizadas em contextos sociais diversos. Nesse sentido, a desculpa usualmente é manejada pelos indivíduos em situações de acusação, muitas das quais demandam punição. Trata-se de uma simples estratégia interacional, ou, como define Werneck, um dispositivo moral no qual uma alegação circunstancial é dada frente a uma acusação. Quando se acusa alguém, ressalta-se a agência do mesmo, pois este teria controle sobre a situação na qual é acusado e, portanto, deve ser rotulado como culpado por ela. Ou seja, uma acusação operacionaliza um movimento moral de definição de dois papéis em uma determinada relação: alguém se coloca no direito de apontar o outro como a causa de uma negatividade.

 
E quando se aciona o dispositivo moral da desculpa, o indivíduo concorda que se tratou de uma situação prejudicial, confirma seu envolvimento nela, mas nega sua responsabilidade do ato, destacando a complexidade da interação e buscando particularizar a regra que é acusado de não respeitar.

 

 
Werneck define dois padrões argumentativos de desculpas:
“Não era eu”: trata-se de desculpas que transferem a responsabilidade pela transgressão a outro ente, humano ou não, minimizando sua culpabilidade em relação ao ato. A desculpa de Adão se encontra nesse padrão, bem como demais desculpas clássicas, como cachorros que comem trabalhos escolares, impressoras quebradas que impossibilitam o respeito de prazos, trânsito para justificar atrasos, dentre outros. Variações desse modelo, como “eu estava bêbado” ou “estava nervoso e fora de mim”, também servem como dispositivo moral que minimiza a responsabilidade daquele que lança mão de uma desculpa em uma dada interação.

 
“É assim mesmo”: trata-se de uma negação mais evidente da acusação, na qual os indivíduos apelam para uma normalidade alternativa em que se ressalta a normalidade da situação transgressora. Afirmações como “vivo no mundo da lua”, “sou uma pessoa atrasada”, “todo mundo suborna policial” são acionadas circunstancialmente para solicitar uma forma de avaliação alternativa que leve tais características em conta, normalizando-as. Assim, ao invés de atribuir a responsabilidade a outro ente, como ocorre no modelo anterior, aqui o indivíduo localiza uma suposta essência que explicaria a circunstância acusada.

 
O autor complexifica esses dois tipos de desculpas:
“Em um tipo, a desculpa do ‘não era eu’, a circunstância apontada tem lugar em uma alteração do curso de ação prevista do ator, de modo que se cria uma partição temporal entre aquele que o ator sempre é e aquele que ele foi temporariamente quando praticou a ação – por exemplo, por estar nervoso, bêbado, ‘fora de si’, ou por não ser mesmo ele o responsável pelo ocorrido, já que alguém o levou a fazer o que fez (como Adão no mito bíblico, que afirma ter sido Eva a culpada por ele ter comido da árvore proibida). No outro tipo, a desculpa do ‘é assim mesmo’, a circunstância apontada se manifesta em uma alteração do curso de ação prevista da própria situação, de modo que se cria uma partição entre a situação normal e uma normalidade outra, revelada na desculpa, e segundo a qual o ocorrido é circunstancialmente aceitável – por exemplo, quando se faz algo que ‘todo mundo faz’ apesar de ‘todo mundo’ dizer ser errado (como passar por um sinal vermelho ‘que ninguém respeita’ ou ao se dizer que se chega atrasado porque ‘nunca consigo acordar na hora’)” (Werneck , 2013, p. 710).

 
A desculpa revela algumas propriedades que certas palavras detêm, sendo um recurso de linguagem que tem o poder de modificar um determinado contexto. É por isso que a desculpa pode ser vista como um modificador social, um recurso a ser instrumentalizado no momento adequado, enfim, um dispositivo moral.

 

 
Como é possível observar nos dois modelos que evidenciam padrões interpretativos, a desculpa comprova um conflito definido como uma questão eminentemente moral. Assim, a desculpa pode ser pensada como uma ferramenta moral a ser utilizada em interações que estão correndo o risco de se tornar problemáticas. Tal definição revela como a vida social é centralmente moral, na qual indivíduos supervisionam uns aos outros, a fim de julgá-los quando não respeitam as regras consideradas necessárias para a vida em sociedade. Como afirma o autor (Werneck, 2012, p. 36):

 
Ele se dá quando determinada regra reconhecida como obrigatória por pelo menos um dos envolvidos for burlada em determinada situação por pelo menos um dos outros. Isso põe esses personagens nos dois polos de um ringue moral: de um lado, alguém ofendido pela ação do outro, e que pode ter essa condição de ofendido manifestada de inúmeras maneiras, consciente ou inconscientemente. Esse alguém emerge dessa situação investido da regra moral em questão: é como se ele se tornasse a própria regra, como se a regra se transformasse em uma pessoa para, com suas forças, ingressar em uma luta em favor de sua posição. Do outro lado está alguém cuja ação ofendeu a outrem e que tem ameaçada sua condição de participante da interação. Adiante falarei das possibilidades de desenrolar para essa situação. Por ora, quero me deter em uma delas: diante dessa ameaça de des-interação ou, mais radicalmente, talvez mesmo de des-relação, o ator, parado diante da regra moral apresentada pelo outro, manifesta-se – em geral na forma de uma fala, mas não necessariamente – sugerindo que nem sempre a regra moral precisa ser totalmente obedecida.

 

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Falamos de moral, portanto. Trata-se de indivíduos moralistas que avaliam a todo momento as ações a fim de reduzir o mundo em que cada um tem a sua moral a um mundo com uma única moral. A acusação reduz a complexidade de uma situação, comparando a uma regra abstrata, enquanto a desculpa ressalta a complexidade moral da vida em sociedade, chamando a atenção para a necessidade de flexibilização da moral nas mais variadas situações.

 

 

 

Entre agência e estrutura

Como já referido anteriormente, a desculpa é “um convite à migração de um plano ideal, superior, a um plano pragmático, circunstancial” (Werneck, 2012, p. 130). Ou seja, mesmo quando a regra moral em questão seja considerada legítima por aquele que dá uma desculpa, ela é alinhada a um plano ideal e, diferentemente do plano pragmático, nem sempre pode ser cumprida. Isso explica as razões daquele que mobiliza uma desculpa sempre descrever as circunstâncias específicas que fizeram com que a ação considerada imprópria fosse possível.

 
Howard Becker afirma, no prefácio da obra em questão, que: “O livro nos torna cientes da fragilidade da chamada estrutura social e do trabalho exigido de todos nós no sentido de impedir seu completo colapso. Uma lição de que nunca deveríamos nos esquecer”. Tal afirmação é baseada na compreensão desse autor sobre a relação entre agência e estrutura, que em suas obras enfatiza sempre o caráter ocasional da ordem social e a centralidade da negociação individual. Mas nem todos os autores pensam dessa maneira. Do lado contrário, há os defensores da teorização macrossociológica, destacando o papel das estruturas coercitivas na determinação do comportamento individual. Assim, é importante pontuar aqui que só é possível pensar a desculpa como uma ferramenta para se analisar a sociedade a partir do olhar da agência, em detrimento da abordagem macroestrutural. Isso porque Werneck evidencia, a partir do ato de dar uma desculpa, como os vínculos sociais podem se desfazer a qualquer momento, e são atos simples e corriqueiros como o mesmo que permitem que a sociedade e a vida social prossigam, evitando conflitos em excesso que tornariam a sociedade impossível.

 

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Assim, por se alinhar ao individualismo metodológico, Werneck torna possível ver a desculpa como uma ferramenta a ser instrumentalizada pelos indivíduos. Enquanto o indivíduo que acusa maneja uma regra abstrata (alguns exemplos são: ser sincero com o próprio companheiro, não “passar a perna” no colega de trabalho, não roubar), o indivíduo acusado traz para a interação uma razão prática, circunstancial, com o objetivo de não reificar tais regras. Estas são feitas por indivíduos em relação e, portanto, devem considerar as mesmas para serem aplicadas, revelando um processo que vai da generalidade da regra para a circunstância de sua aplicação.

 
Nesse sentido, a desculpa evidencia a agência dos indivíduos durante suas interações. A agência refere-se à capacidade de indivíduos em agirem independentemente e fazerem suas próprias escolhas livremente, sendo um conceito diverso do de estrutura, que são aqueles fatores de influência que limitam as ações do indivíduo, como raça, cor da pele, classe social, religião, gênero etc. Assim, a desculpa é uma ferramenta utilizada sempre na tentativa de um indivíduo agir de acordo com sua vontade.
 

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Individualismo e holismo

O que tem mais influência nas nossas ações individuais? Nossa personalidade ou qualquer outra dimensão individual, ou as condições de vida em que estamos inseridos? Lidamos com esse tipo de problematização de senso comum a todo momento, seja para avaliar as razões que permitiram a um indivíduo cometer um crime (ele é naturalmente mau? Ou vive em uma condição de vulnerabilidade e pobreza que o impeliu a tal ato?). Inúmeros sociólogos também se colocam como meta analisar empiricamente as características da reprodução e/ou da mudança social, a partir do que se convencionou chamar de relação entre agência – vista do ponto de vista individual e denominada a partir de diversos nomes, como sujeito, ator, agente – e estrutura – nomeada como sociedade, contexto social, condições objetivas, dentre outros.

 

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Nesse sentido, a preocupação daqueles que realizam esse debate não é descobrir se é a agência ou a estrutura a responsável por nossas ações, mas sim pensar como estas se influenciam e afetam a vida em sociedade. Para tal, existem ferramentas metodológicas para a realização de pesquisas que tenham como fim compreender a permanência e/ou a mudança da vida em sociedade. Tais ferramentas usualmente são baseadas em dois princípios, definidos de formas imensamente complexas por variados autores, mas que serão apresentados aqui a partir de características gerais:
Individualismo metodológico: baseia-se na ideia de que qualquer fenômeno social pode ser reduzido a algum tipo de ação humana individual. Quando um pesquisador deseja, por exemplo, compreender os efeitos do preconceito de raça na vida em sociedade, se concentrará na forma como os indivíduos narram suas experiências pessoais em relação ao tema e, a partir dessas narrativas, construirá um entendimento sobre o que significa o preconceito de raça para essas pessoas. Em suma: a vida em sociedade só se torna compreensível a partir do que os indivíduos fazem e falam sobre ela.

 
Holismo metodológico: prioriza o entendimento integral dos fenômenos a partir de grandes estruturas, desejando compreender como um todo determina o comportamento das partes. Assim, no exemplo anteriormente citado, o pesquisador questionará o maior número de pessoas a fim de caracterizar de forma geral o conceito de raça em termos empíricos. Em suma: as ações dos indivíduos só se tornam compreensíveis relacionadas à sociedade enquanto unidade macroestrutural.

 
Mais do que princípios estanques, é importante colocá-los em diálogo para se ter uma análise mais apurada da complexidade da vida social. O olhar nas estruturas focará sempre a estabilidade e institucionalização, não explicando os processos de mudança social. E o olhar na agência revelará sempre os conflitos e inovações sociais, mas não permitirá ver os processos de enrijecimento de comportamentos e opiniões.

 

 
*Camille Porto, graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestranda em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
**Juliana Vinuto, graduada em Ciências Sociais e mestre em Sociologia, ambos pela Universidade de São Paulo (USP). Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 67