Direto do Piauí: veja entrevista com Fábio Matos

Sociólogo com passagem por campanhas políticas, movimentos sindicais e ONGs fala sobre suas influências intelectuais e experiências profissionais

Por Lejeune Mirhan* | Fotos Acervo pessoal

Formado pela Universidade Federal do Piauí, Fábio Matos é sociólogo, especialista na docência do ensino superior e diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação. Esta coluna tem entrevistado sindicalistas da área da Sociologia e Fábio é o atual presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Piauí. Desde sua formação, há dez anos, exerce atividades de consultoria política e eleitoral e assessoria legislativa, tendo trabalhado com ONGs que atuam em favelas e assentamentos rurais.

PRIMEIRAMENTE, FALE-NOS SOBRE O QUE O LEVOU A CURSAR CIÊNCIAS SOCIAIS E TORNAR-SE SOCIÓLOGO?
Agradeço o convite da revista para participar dessa publicação; a revista Sociologia tem servido como grande difusor do saber sociológico e provocado a imaginação sociológica de muitos jovens que pretendem mergulhar nesse mar de conhecimento que são as Ciências Sociais. Minha trajetória nas Ciências Sociais tem forte influência nas minhas atividades políticas do movimento secundarista e movimento dos sem-teto em nosso estado. No começo  da década de 1990 participamos ativamente da organização de grêmios estudantis, aproveitando as grandes mobilizações da efervescência política do começo dessa década. Inserido no movimento dos sem-teto começamos a organizar ocupações de espaços públicos abandonados e de diversos assentamentos urbanos; essas ações nos levaram a exercer atividades de formação política e à necessidade de uma formação mais acadêmica. Porém não foi logo que vim para os estudos de Sociologia. Cursei Mecânica
no Senai e atuei como torneiro mecânico durante um curto período, oportunidade em que conheci o mercado de trabalho de forma mais incisiva e suas diversas formas de opressão aos trabalhadores. Com essa experiência tomei uma decisão que mudou minha trajetória de vida radicalmente: abandonei o emprego e decidi estudar Ciências Sociais a partir de 2003, na UFPI, influenciado por amigos e professores da escola onde cursava o ensino médio. Na universidade, diversos professores me ajudaram a trilhar caminhos que se entrecruzavam entre Sociologia, Antropologia e Ciência Política; costumo dizer que navegava no grande mar de conhecimento que são as Ciências Sociais, para depois mergulhar nas águas profundas do conhecimento sociológico.

SUA FORMAÇÃO INTELECTUAL É FORTEMENTE INFLUENCIADA PELO PENSAMENTO DE WRIGHT MILLS E ERVING GOFFMAN. CONTE-NOS, DE FORMA RESUMIDA, A IMPORTÂNCIA DESSES PENSADORES PARA A NOSSA CIÊNCIA.
Charles W. Mills nos brinda com a forte ideia de que o sociólogo deve contribuir para a transformação da sociedade, nos alertando, como um profeta, que devemos ir além das análises estatísticas. Para Mills, os estudos da sociedade devem estar sob a direção da imaginação sociológica; nesse aspecto destaco a ideia de que o indivíduo só pode compreender a sua experiência e avaliar seu próprio destino localizando-se dentro de seu próprio período; só pode conhecer suas possibilidades na vida tornando-se cônscio das possibilidades de todas as pessoas nas mesmas circunstâncias que ele, e essa consciência é resultante de uma imaginação sociológica fermentada por uma instrumentalização teórica.

Com Goffman podemos destacar diversos aspectos relevantes para o sociólogo contemporâneo, entre eles o método com o qual o autor orienta a inserção do pesquisador no cotidiano dos indivíduos a serem pesquisados, utilizando-se da tradição etnográfica inaugurada na Antropologia por Malinowski, que afirma que o etnógrafo deveria apreender o ponto de vista do sujeito (chamado por ele de nativo), seu relacionamento com a vida, sua visão de seu mundo. Goffman fez isso com rigor metodológico e estilo próprio, interessando- se por aspectos micro das relações sociais. Ele dedicou-se ao estudo das interações sociais ocorridas no cotidiano, desvendando um complexo emaranhado de relações. Ele nos mostra como as microanálises do “particular” são ricas de significados e que é o estudo dessas interações face a face que no mostra como se constrói a vida cotidiana. Charles W. Mills e Erving Goffman estão para além das fronteiras sociológicas.

SUA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL DESDE A FORMAÇÃO PASSOU POR DIVERSAS ÁREAS, MOSTRANDO A ABRANGÊNCIA E AMPLITUDE DE NOSSA FORMAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS. PRIMEIRAMENTE, FALE-NOS SOBRE A ATUAÇÃO NA ÁREA DE ASSESSORAMENTO PARLAMENTAR E COORDENAÇÕES DE CAMPANHAS ELEITORAIS (MARKETING
POLÍTICO).
Foi uma das experiências mais gratificantes do ponto de vista intelectual, a coordenação de campanhas eleitorais onde fomos provocados a colocar em prática todo instrumental teórico social acumulado durante a formação acadêmica e as experiências sociais vivenciadas. Na coordenação de campanha, o sociólogo é chamado a desenvolver estratégias de campanha constantemente e conhecer cenários políticos locais, conhecer desdobramentos de intenções de votos a cada nova pesquisa eleitoral, usando recorrentemente ferramental teórico da Ciência Política. Mas numa campanha política a instrumentalização teórica das Ciências Sociais se faz necessária também para compreendermos comportamentos macro e microssociais, orientando constantemente a tomada de decisões dos núcleos de campanha. No assessoramento parlamentar podemos destacar a avaliação constante de propostas parlamentares e análises estatísticas para desenvolver projetos de controle social e intervenções mais qualificadas nas políticas públicas.

Uma característica essencial do papel do sociólogo nesses processos é o olhar crítico e a capacidade de orientar tomadas de decisões muitas vezes difíceis, mas que, baseadas em análises sociais qualificadas, pesquisas qualitativas e quantitativas, fortalecem a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Hoje no atual momento político em que vivem as experiências parlamentares, acredito que seja essencial a participação do sociólogo nas nossas casas parlamentares, desde as câmaras de vereadores, para ajudar na avaliação e demonstração de como determinadas leis podem impactar a sociedade, passando pelas assembleias legislativas e na Câmara dos Deputados e Senado Federal.

OUTRA ATIVIDADE MARCANTE EM SUA TRAJETÓRIA FOI A ATUAÇÃO EM PROJETOS DE TERRITÓRIOS DA CIDADANIA DO GOVERNO FEDERAL, MAIS PRECISAMENTE NO
TERRITÓRIO VALE DO SÂMBITO, COM 15 MUNICÍPIOS. FALE-NOS NO QUE CONSISTIA ESSE TRABALHO E COMO A SOCIOLOGIA AJUDAVA.
Territórios da Cidadania foi o programa de redução das desigualdades sociais no meio rural brasileiro e fez parte do esforço conjunto do governo federal para priorizar suas ações em regiões e sub-regiões nas quais os investimentos públicos e privados não eram suficientes para garantir o atendimento às necessidades básicas da população. Visava também acelerar processos locais e sub-regionais que ampliassem as oportunidades de geração de renda de maneira descentralizada e com a observância da sustentabilidade em todas as suas dimensões. A estratégia buscava promover a articulação e a gestão, descentralizada e participativa, de ações para se alcançar o desenvolvimento social e sustentável das populações que vivem em territórios rurais de todo o país. Tinha como objetivo apoiar e fortalecer, nos territórios, capacidades sosociologos ciais de autogestão dos processos de promoção do desenvolvimento, nos quais as próprias organizações dos agricultores(as) familiares e dos(as) trabalhadores(as) rurais protagonizassem as iniciativas. A partir dessas premissas, o sociólogo tinha então uma ampla atuação que se iniciava pela formação continuada e qualificação profissional para técnicos e agricultores dentro dos limites dos saberes sociais; elaboração de laudos técnicos para identificar terras de populações tradicionais (índios, quilombolas e outras); subsidiar informações técnicas para montagem de processos de regularização fundiária de terras de populações tradicionais; fornecer subsídios para programas de zoneamento ecológico-econômico-cultural; caracterizar o meio antrópico; realizar análises socioantropológicas periciais; participar da implantação de projetos com populações tradicionais e de programas de fiscalização de territórios tradicionais.

Como sociólogos, visitamos todos os municípios do território Vale do Sâmbito, com o objetivo de levantar dados sociográficos para instrumentalizar as tomadas de decisões, ou “escolhas” do órgão gestor, informar as institucionalidades territoriais, fazendo da informação um elemento de autogestão e empoderamento, monitorar, acompanhar e avaliar as ações a serem implantadas e o desenvolvimento dos territórios, articular os agentes e mantê-los informados, prestar contas aos setores públicos e privados que controlavam as atividades de governo através de constantes relatórios. Esses relatórios obrigam o sociólogo a ter um amplo conhecimento na área de sistemas de georeferenciamento, domínio de programas de análise de dados sociais como, por exemplo, o SPSS, bem como de diversas ferramentas estatísticas, mas, sobretudo, ele não deve perder de vista a imaginação sociológica necessária para garantir resultados profundos e sinceros com a realidade social. Assim, a assessoria territorial se desenvolvia na elaboração de projetos de capacitação em cooperativas; usava-se sempre a concepção de Sociologia crítica, buscando facilitar os
debates com a expectativa de gerar consensos, através de processos pedagógicos de agregamento. Todas essas ações exigiam forte formação na área de Ciências Sociais, na qual o sociólogo
é constantemente provocado a revisitar conceitos, teorias e correntes de pensamento. Aqui eu percebi conceitos simples da metodologia de Mills e Goffman sendo aplicados quase que naturalmente no fazer sociológico.

NO ESTADO DO PIAUÍ TEMOS UMA CENTRAL ÚNICA DE FAVELAS –CUFA. VOCÊ ATUOU COMO COLABORADOR E ASSESSOR DESSE TRABALHO. CONTE PARA NOSSOS LEITORES EM QUE CONSISTIA ISSO, FAZENDO UMA RELAÇÃO COM A ATIVIDADE DE POLÍTICA SINDICAL.
Colaborar com a CUFA no estado do Piauí foi um retorno às atividades políticas e sociais dentro do cenário urbano piauiense. Desenvolvíamos ações de esporte, cultura e lazer direcionadas à juventude marginalizada das periferias das cidades, principalmente Teresina. Organizávamos oficinas de intervenção social em parceria com diversas instituições, movimentos de hip-hop, poder
público, instituições privadas, para programar projetos sociais, com o objetivo de promover a cidadania. Coordenamos projetos de inclusão digital e combate ao racismo, organizamos
peças de teatro; nosso principal papel consistiu em elaborar projetos de formação e capacitação de atores locais, para gestão participativa no cenário urbano. Tudo isso agregado à grande importância de se levar cidadania ativa aos que são injustiçados socialmente e têm seus direitos negados pelo poder público. É nesse cenário que me envolvo mais profundamente com a política sindical, pois uma pergunta que começou a fazer parte do meu cotidiano foi “qual o papel da classe trabalhadora na transformação da sociedade contemporânea?”. A essa pergunta, a resposta que veio foi um mergulho mais profundo no mundo do trabalho. A partir desse momento de grande significado para mim surge a indagação que encontra diversos intelectuais em seus divãs, qual seja: somos um trabalhador que vende sua força de trabalho numa relação de troca que quantifica o nosso saber e transforma em mercadoria nossa produção científica ou apenas intelectuais? Essas indagações me levaram a participar da organização da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil e me conduziram para a reorganização do Sindicato dos Sociólogos do Estado do Piauí, ao lado de honrosos companheiros que colaboram constantemente para uma melhor concepção do papel do sindicato como instituição necessária para a valorização da categoria
profissional.

POR FIM, QUERÍAMOS QUE NOS RELATASSE COMO ANDA NO PIAUÍ A IMPLANTAÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO ENSINO DE SOCIOLOGIA NAS ESCOLAS DE ENSINO MÉDIO E NOS FALASSE SOBRE O MERCADO DE TRABALHO PROFISSIONAL DOS SOCIÓLOGOS NO SEU ESTADO. DESDE JÁ AGRADECEMOS A COLABORAÇÃO.
Podemos dizer que no Piauí a tentativa de valorização da docência para profissionais de Sociologia surge muito antes da Lei Federal nº 11.684/08, com a criação e aprovação da Lei Estadual nº 5.253/2002, que no parágrafo único do art. 1º já indica Sociologia e Filosofia como disciplinas do currículo do ensino médio. Porém, sem muita força legal, esse mandamento jurídico ficou quase que engavetado durante vários anos; com a aprovação da citada lei federal de 2008, que dispõe sobre a inclusão obrigatória das disciplinas Filosofia e Sociologia no currículo do ensino médio,
a Sociologia começa a retornar ao currículo de forma lenta e, em 2009, o Conselho Estadual de Educação do Piauí aprovou a Resolução CEE/PI nº 111/2009, que regulamenta a implantação
das disciplinas Filosofia e Sociologia no ensino médio no âmbito do sistema de ensino do estado do Piauí e dá outras providências. Essas normativas não garantem a efetivação dos licenciados em Sociologia e Ciências Sociais, cabendo ao sindicato o papel de fiscalizador da implantação da legislação vigente.

Hoje, no estado do Piauí temos a Sociologia em todos os anos do ensino médio, mas ainda não avançamos para a conquista da ampliação da quantidade de horas-aula destinadas à disciplina, que se resume a uma aula semanal em cada série, prejudicando um efetivo ensino de qualidade e o aprofundamento de temas necessários à construção de indivíduos socialmente conscientes de seus direitos e deveres como cidadão. Nossa intenção é ampliar o debate para avançarmos como em outros estados, nos quais a disciplina goza de mais respeito no ensino médio, principalmente
agora, nesses tempos de obscurantismo intelectual e perseguições que têm surgido ao “livre pensar”, no qual professores são acusados constantemente de doutrinadores intelectuais de correntes filosóficas e de pensamento. Nesse teatro sombrio de retorno ao medievo, é mais que relevante fazer levantar bandeiras de lutas que possam nortear nossos avanços enquanto profissionais de Ciências Sociais; não podemos aceitar que direitos constitucionais possam ser rasgados todos os dias nas diversas câmaras legislativas desses quase seis mil municípios brasileiros. Atualmente temos encontrado forte resistência de instituições de ensino privadas para a implantação da legislação vigente concernente à docência de Sociologia, sem contar a negligência do governo estadual no atendimento das demandas já apresentadas para a secretaria de Educação, que vem negligenciando a aplicação da lei federal e das resoluções do estado, haja vista termos um concurso
em andamento dentro do prazo de validade com professores classificados profissionais de outras áreas ministrando Sociologia nas salas de aula do ensino público do Piauí. A Lei Federal nº 6.888, de 10 de dezembro de 1980, que regulamenta a profissão de sociólogo e socióloga no Brasil, diz no seu art. 2º, inciso II, que é competência do sociólogo/a ensinar Sociologia geral ou especial nos estabelecimentos de ensino, desde que cumpridas as exigências legais; essas exigências legais são nitidamente expostas na LDB 9.394/96 e suas alterações. Esse é apenas um dos lados das grandes dificuldades  que podemos elencar.

Hoje podemos afirmar que o cenário mudou muito de dez anos pra cá, mas foram avanços tímidos; nossas duas universidades públicas, a Uespi e a UFPI, contam com cursos de licenciatura em Ciências Sociais; temos também um curso de bacharelado em Ciências Sociais e um curso de bacharelado em Ciência Política; e três mestrados acadêmicos na área de Sociologia, Antropologia e Ciência Política. Contamos com grandes profissionais e intelectuais, que atuam nas mais diversas áreas da sociedade, destacados sociólogos e cientistas políticos que exercem a função de secretários de governo, tanto em âmbito municipal como no estadual. Já mapeamos uma certa procura por profissionais de Sociologia no meio parlamentar. A maior área de oferta de vagas de sociólogos/as é realmente no serviço público, para isso buscamos dialogar com secretários municipais de Assistência Social, onde o sociólogo pode atuar nos Cras, a partir de normativas
do MDS, que através de resoluções internas regulamenta quais profissionais podem compor as equipes de referência nesses espaços de prestação de serviços públicos essenciais. Outro espaço é nas secretarias de Planejamento, nos quais o sociólogo/a pode dividir saberes de interpretação social com outros viajantes dessa seara que é a realidade social, e com muita certeza poderá ter um olhar afinado sobre essa realidade e apontar horizontes de reengenharia social fortalecidos pelo olhar sociológico. Esperamos poder contribuir para o avanço e desenvolvimento da categoria
profissional, bem como da própria Sociologia; sou perseguidor da pergunta sussurrada aos meus ouvidos pelos meus mestres através das leituras que me acompanham constantemente: afinal,
o que faz o sociólogo, ou mesmo, o que o impele a fazê-lo?

Lejeune Mirhan é sociólogo, professor, escritor e arabista. Colunista da revista Sociologia (Editora Escala) e colaborador do portal da Fundação Maurício Grabois e do
Portal Vermelho. Foi professor de Sociologia e Ciência Política da Unimep entre 1986 e 2006. Presidiu o Sinsesp de 2007 a 2010. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br

Revista Sociologia Ed. 66