Do desamparo ao esquecimento

A maioria deseja compulsivamente estar conectada, ser vista, reconhecida, fotografada, selfiezada, gravada e eternizada ciberneticamente, e, além disso – é claro –, também ser curtida, comentada, mencionada, compartilhada, postada e adicionada

Por Alexandre Quaresma* | Fotos: Shuterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Sem embargos, não basta ir, ver, viajar, experimentar, sentir, comer, conhecer, vislumbrar, refletir, descobrir, mergulhar, voar, amar, comprar algo ou quaisquer outras coisas que o valham – digo, coisas que façam a vida ter sentido e valer a pena –, pois para o “ciclo” do gozo poder se fechar – mesmo que temporariamente –, e o referido prazer poder se consumar de forma provisória, faz-se fundamentalmente necessário o olhar de reconhecimento do outro, pois é ele (olhar do outro, ou ainda, dos outros) que vai consolidar tais prazeres, experiências e conquistas no psiquismo e na mente da pessoa.

 

E justifico: somos – segundo a teoria psicanalítica –, todos nós, seres eternamente “faltantes”, desamparados, incompletos, carentes, e, por isso mesmo, estamos o tempo todo buscando prazeres e gozos que possam aliviar esse sentimento angustiante, para o qual, frise-se – ainda segundo a teoria psicanalítica –, não há cura definitiva (antes da morte), mas apenas lenitivos, anestésicos, substituições. Inclusive, para que se registre, e também para a nossa total aflição e perplexidade, essa busca pelo gozar nunca se consuma realmente, pois, uma vez alcançado qualquer gozo pretendido e desejado – a compra de um objeto, a realização de um projeto, o saborear de uma iguaria especial e rara na gastronomia ou enologia, a realização de uma viagem e até mesmo o sucesso nos negócios –, ato contínuo, imediatamente, já estamos direcionando a nossa libido e o nosso investimento afetivo na direção de outros novos gozares, o que nos leva à situação insustentável de um eterno por gozar.

 

O conceito psicanalítico de desamparo originário é bastante complexo, mas grosso modo se resume ao seguinte drama existencial: quando o esperma do progenitor vence as infindáveis barreiras e obstáculos em sua dificílima e improvável viagem em direção ao óvulo da progenitora, e como que por um milagre logra êxito em sua insólita missão bioevolutiva, inicia-se o que podemos chamar de o começo do nosso eu embrionário, processo – frise-se – completamente arbitrário, impositivo, externo e alheio a nós mesmos e ao sujeito que dali surgirá, processo sobre o qual não se possui qualquer tipo de gerência. Em suma, não se escolhe nascer ou não nascer, vir à luz e estar aqui nesse mundo louco, e também maravilhoso, ou não estar. Isso simplesmente acontece – diga-se – à nossa total revelia. Pois bem, até aqui, nada de mais, todavia o primeiro milagre já aconteceu, ou seja, contrariamente ao que costumamos acreditar, na natureza e na bioevolução a regra é sempre a morte, e não a vida.

 

A mercantilização do prazer

 

Trata-se do “milagre biológico”. Aliás, nesse sentido, tal expressão se faz absolutamente verdadeira e completamente condizente com o nosso sujeito hipotético que vai – se tudo der certo – nascer e vir a esse mundo que aqui está. Sim, pois para que um único espermatozoide paterno encontre um único óvulo materno, dá-se uma gigantesca mortandade de congêneres seus que simplesmente morrem e se extraviam no decorrer da jornada. São milhares e milhares de espermatozoides e óvulos saudáveis que morrem para que apenas uma vida – como a nossa ou a sua – possa vir à existência. E é por isso que a biologia de uma maneira geral é tão profícua e generosa em termos de números e criação de possibilidades, produzindo sempre, por garantia, muitas “sementes” e “ovos”, pois é fundamental que “alguém” dessa “turma toda” conclua essa “jornada” com eficiência, de maneira a permitir que a vida possa seguir o seu fluxo natural, com êxito, é claro.

 

 

Antes do desamparo

Enfim, a natureza biológica em toda a sua majestosidade, então, finalmente logra êxito em realizar mais uma de suas múltiplas formas de vida, ou, pelo menos, o início dela. Uma vez fecundado pelo espermatozoide, o óvulo – que era apenas a metade da  “receita vital” – passa a ser um indivíduo completo, que tem tudo para crescer e virar um ser inteiro, pleno, viver uma vida, biologicamente completa em si mesma, que, segundo leis ancestrais, tem grandes chances de se desenvolver e vingar. E é exatamente aqui que adentramos (ou começamos a adentrar) – por assim dizer – a teoria psicanalítica, já que, de fato, não existe no universo inteiro um lugar mais gostoso, pleno, completo e confortável como o útero materno de fato é.

 

Teorias paradisíacas e/ou míticas de uma hipotética pós vida à parte, não há nada que se compare a ele em termos de completude e unidade, de prazer reconfortante e pertencimento. Em primeiro lugar – e isso é muitíssimo importante – não sabemos (ainda) de nossa individualidade, e, nesse caso, isso é uma bênção, ou um bônus. Melhor dizendo, não há ainda individualidade constituída, um psiquismo ou mente, o que existe é apenas completude, pertencimento, calor, alimento, carinho, cuidado, umidade, segurança e, como a nossa consciência está ainda em formação, o que experimentamos é apenas essa intuição de unidade, a integralidade cósmica universal com o todo, indivisível, una, que é, a um só tempo, a força criadora e a própria criação viva num só elemento.

 

A teoria psicanalítica considera que não existe no universo inteiro um lugar mais gostoso, pleno, completo e confortável como o útero materno

 

Um ambiente desprovido de racionalizações, mas repleto de sensações. Assim, em diversos sentidos, pode-se sustentar que o feto em formação é a mãe, e a mãe que o gesta, por seu turno, ao mesmo tempo, é também o bebê que cresce em seu ventre. Eis aqui, sem rebuscamentos teóricos ou filosóficos, a experiência do universo pleno, uno e indivisível, perfeito e completo em si, à qual se referem filósofos e pensadores desde o início dos tempos. Aquilo que antecede a própria individuação do ser.

 

Mas, à medida que o referido processo biológico avança, as “coisas” mudam totalmente de figura. Em alguns poucos meses esse espaço de continuidade e completude começa a se tornar exíguo e insuficiente, e inevitavelmente esse novo ser é jogado para fora desse abrigo maravilhoso e extremamente aprazível, e é obrigado a conhecer e experimentar o mundo real que existe aqui fora, diretamente, com tudo de bom e ruim que ele (mundo) tem, e é justamente aí que tudo se transforma.

 

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Um eterno por gozar

É até possível que os pais do nosso bebê hipotético tenham tido a sorte e a sabedoria de ler Frédérick Leboyer, que tenham sido sensíveis a ponto de realizarem um parto natural, de cócoras ou na água, delicadamente, com as devidas atenções que um novo ser que vem à vida solicita, mas a regra definitivamente não é essa.

 

Esse novo ser que está chegando ao mundo, invariavelmente, já vai recebendo as “boas vindas” e é tratado como uma “coisa”, um objeto, sem nome e vazio de significado, mais um número estatístico para o hospital, pelo menos para os médicos e enfermeiras funcionalmente envolvidos, e assim ele deve ser extraído da mãe, o quanto antes, limpo, embrulhado e guardado num berço hospitalar qualquer juntamente com outros serezinhos recém-chegados em iguais condições, local esse que não chega nem perto de ser o paraíso em que vivia até então.

 

E mais: essa unidade está fadada à cisão, ou dito de outra forma, o bebê vai descobrir – cedo ou tarde – que é um ser diferente e separado da mãe, e isso é um duro golpe para esse ser que começa a sua formação e estruturação mundana, já que ele terá que achar por si mesmo o seu caminho no mundo, e é também por isso que a teoria psicanalítica denomina esse sentimento tão visceral e doloroso de desamparo originário.

 

O ser que está chegando ao mundo é extraído da mãe, limpo e guardado num berço hospitalar juntamente com outros serezinhos recém-chegados em iguais condições

 

Daí para a frente, meus caros, começam as verdadeiras agruras: há um mundo fantástico e realmente fabuloso para ser descoberto e explorado, mas esse mundo também está repleto de alteridades, obstáculos, dificuldades, barreiras, já que – em escala diferente da dos óvulos e dos espermatozoides e da societal – também existe à sua volta uma enorme concorrência pelas mesmas coisas que ele necessita para se sentir minimamente realizado, temporariamente pleno, e, de fato, muitos não logram êxito nessa difícil missão, pois a concorrência é acirradíssima.

 

O desemprego, a recessão, a crise ambiental, a miséria e a fome, seja aqui ou alhures, não nos deixam mentir a esse respeito. E, se não bastasse a própria realidade circundante, subsiste ainda em nossas mentes – segundo a teoria psicanalítica – essa terrível sensação angustiante de  desamparo, de incompletude, de falta, e é justamente por isso que saímos por aí desesperados em busca de sermos aceitos, curtidos, vistos, reconhecidos e amados num eterno e recursivo por gozar. E, oculto, bem camuflado, no fundo de todos esses medos menores de não sermos queridos e amados, de não sermos vencedores e poderosos, de toda essa incompletude inexorável, está o maior de todos os medos humanos, um medo real: o medo da morte. Eis o abismo que realmente nos desampara.

 

 

 

Até a razão desconhece

Grossíssimo modo podemos dizer que é por isso (também), então, que muitos andam por aí de cabeça baixa como zumbis, olhando e tateando essas pequenas e absorventes telinhas de azuis, por certo imaginando, talvez, que o sentido da própria vida esteja realmente ali dentro daquela pequena geringonça eletrônica, ou quem sabe possa residir na sensação de hiperconexão e empoderamento parcial que elas realmente proporcionam.

 

Virtual e real, sem separação

 

E é por esse motivo também que muitos despendem grande parte do seu tempo livre em busca dessas bobagens fúteis oriundas da Pós-modernidade ciberculturalizada, como ter dezenas, centenas e até milhares de “amigos” ou “seguidores” nas redes sociais, por exemplo, ou mesmo outra coisa qualquer relacionada ao poder – que existe desde que o mundo é mundo –, como ser o “bam-bam-bam” do pedaço em alguma área específica de atuação, ou então ter o carrão da moda que ninguém tem ou pode comprar igual, ou talvez namorar o “gato” ou a “gata” mais deslumbrante do momento, enfim, ter grana, sucesso, um corpo perfeito, malhado, e todo esse tipo de coisa empoderante – neologismo nosso –, pois isso tudo – se e quando atingido – traz um alívio momentâneo para essa enorme falta de sentido que viver – por  um lado – pode ser, e, para muitos, de fato, é.

 

Funcionando assim como uma espécie de lenitivo para aliviar o desamparo originário  que a Psicanálise detectou. E o termo momentâneo aqui tem papel fundamental, pois esses gozos logo são substituídos por outros novos gozos, que recursivamente não param de se suceder uns aos outros, e, enquanto isso, a vida vai passando diante de nós, ligeira e traquina. Mas, por diversos motivos, poucos são os que realmente conseguem transformar a existência real cotidiana num sucesso total como esse que acabamos de descrever, e as razões para isso são óbvias, mas ainda assim valem algumas linhas.

 

Como zumbis, muitos imaginam que, por meio do computador, possam conseguir o empoderamento parcial que a sensação de hiperconexão oferece

 

Dentro da estrutura societal que aí está, que é totalmente submissa aos valores  do turbo-capitalismo e à força do capital financeiro, para que um indivíduo vença, ganhe, alcance, goze, mil, dez mil, cem mil não podem fazê-lo. E voltando ao desamparo, o que se tenta então é ir encontrando pequenos gozos substitutos e temporários – se é que podemos dizer assim –, que possam aliviar o referido sentimento de falta eterna que nos persegue do nascimento à morte.

 

E essa mania de viver conectado 24 horas por dia, fazendo sabe-se lá o quê, também não foge a essa regra geral da incompletude e do desamparo de cada um. E é justamente por isso que a maioria deseja compulsivamente estar conectada, ser vista, reconhecida, fotografada, selfiezada, gravada e eternizada ciberneticamente, e, além disso – é claro –, também ser curtida, comentada, mencionada, compartilhada, postada e adicionada, pois tudo isso traz a ilusão reconfortante de um pretenso reconhecimento, o que massageia o ego e distrai o freguês de sua própria frágil e delicada transitoriedade.

 

A propósito, há também, por outro lado – pasmemos –, quem queira justa e diametralmente o contrário, ou seja, morrer e ter direito ao esquecimento. Mas aí, meus caros, isso já é assunto para uma outra cibercoluna. Axé!

 

 

*Alexandre Quaresma é escritor ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia, pesquisador membro da Renanosoma (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente), vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera). É autor dos livros Humano-Pós-Humano – Bioética, conflitos e dilemas da Pós-modernidade; Engenharia genética e suas implicações (Org.);  Nanotecnologias: Zênite ou Nadir?. É membro do Conselho Editorial de Ciência e Sociedade da Revista  Internacional de Ciencia y Sociedad, do Common GroundPublishing E-mail: a-quaresma@hotmail.com

 

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 64