Do PV à REDE

Entenda as mudanças nas agendas ambientalistas e a esquerda moderna no Brasil

Por Alessandro Farage Figueiredo e Fábio Metzger | Foto José Cruz/Agência Brasil | Adaptação web Isis Fonseca

do pv à rede

Embora não esteja envolvido em grandes e acirradas disputas por eleitorado – como o PMDB, PT, PSDB, DEM e PP –, o Partido Verde (PV) é um dos partidos com pautas mais originais do cenário político brasileiro contemporâneo.

Uma vez que a sua fundação no período de redemocratização marca o surgimento das questões ambientalistas na linha de frente da esquerda no Brasil. Nesse sentido, o PV foi inovador no que pode ser hoje definido como “esquerda moderna”.

Isso diferenciou o PV de maneira significativa em relação à “velha esquerda”, visto que a maioria dos partidos esquerdistas ainda seguia na década de 1980 o padrão marxista-leninista, de acordo com a extinta União Soviética (URSS) e outros países socialistas, como o PCB e o PCdoB.

Com a queda do muro de Berlim (9/11/1989) e o desmantelamento da URSS (31/12/1991), muitos dos partidos da velha esquerda viviam uma forte crise de identidade, enquanto o PV buscava se “antenar” com as agendas dos novos partidos de esquerda da Europa Ocidental, onde as orientações trabalhistas, social-democratas e ambientalistas estavam se fortalecendo como formas mais robustas de agendas partidárias à esquerda.

Nessa mesma época, os países socialistas da Europa Oriental buscavam iniciar os seus novos regimes democráticos, com o velho socialismo perdendo terreno e o liberalismo se fortalecendo.

É dentro desse contexto que a fundação do PV tentou representar essa modernização da esquerda, visto que o partido se diferenciava dos demais, uma vez que não se tratava da refundação de nenhuma antiga legenda da política brasileira, como foi o caso do PTB e do PSB; tampouco se tratava de um partido derivado da velha oposição ao regime militar positivista, como o PMDB e, mais tarde, o PSDB.

O Partido Verde (PV) é o primeiro partido político brasileiro contemporâneo a se distanciar das questões da Guerra Fria (capitalismo versus socialismo), que já chegava ao final na transição da década de 1980 para os anos 90.

Exatamente esse posicionamento é que garante ao PV sua singularidade moderna acentuada, que costuma ser denominada “esquerda progressista” (ou moderna), distanciando ele dos demais partidos de centro-esquerda e esquerda como o PSDB, PDT, PT e até de seus derivados, PSTU, PCO e PSOL.

Logo o PV surge de forma direta por influência do PV da Alemanha (Die Grünen), no qual milita o sociólogo Daniel Cohn-Bendit (Dany le Rouge), que foi líder internacional nas manifestações de 19682, “o ano que não terminou”, e é amigo pessoal do jornalista e ex-guerrilheiro Fernando Gabeira.

Diferentemente das novas legendas de esquerda que ainda flertavam com as ideias marxistas, neomarxistas e marxianas, como o PDT, o PV abandonará por completo essas doutrinas e buscava agendas modernas consideradas importantes, primeiramente o ambientalismo (ou ecologismo), chamado a princípio de “questões ecológicas” (ou de meio ambiente) e que mais tarde seria traduzido para “desenvolvimento sustentável”, e de maneira complementar mas não menos importante: a defesa da liberdade, o combate ao preconceito, a ampliação da participação feminina na sociedade e a defesa da educação.

O capital simbólico de um conhecido membro do partido já estava sendo demarcado em 1980 (seis anos antes da fundação da legenda): o recém-anistiado Fernando Gabeira resolveu frequentar o Posto 9, em Ipanema, com uma tanga de crochê lilás, emprestada de sua prima, a jornalista Leda Nagle, visto que estava
acostumado a ir à praia nu na Grécia.

Esse foi um dos principais assuntos do verão de 1980, disputando espaço na mídia com o polêmico filme recém-liberado O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, enquanto modo de confrontar o conservadorismo social (O Globo, 2013).

De maneira que os membros fundadores do partido já marcavam a característica política moderna e cosmopolita da legenda, com o jornalista e ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, a atriz Lucélia Santos, o escritor e ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis, o maestro John Neschling, o psicanalista Luis Alberto Py, o professor e ex-guerrilheiro Carlos Minc, o escritor Herbert Daniel e o engenheiro Guido Gelli.

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