Dois semeadores de dragões

Quer destacando a dimensão cultural, quer enfatizando a dimensão estratégica da análise da sociedade moderna empreendida por Marx, Marshall Berman e Daniel Bensaïd merecem ser lembrados

Por Ruy Braga* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Marshall Berman notabilizou-se internacionalmente por sua obra Tudo que é Solido Desmancha no Ar. Trata-se de uma erudita e instigante análise crítica da história da vida moderna que vai de Goethe a Baudelaire, passando por Marx até alcançar as vanguardas artísticas do século XX. Sob sua pena, a modernidade surgiu como um processo globalizante cujo sentido é a subordinação da vida cotidiana ao impulso homogeneizante do valor de troca. Quase nenhuma esfera da atividade humana é capaz de escapar à mecânica de um impulso irracional que “dissolve” todos os valores culturais nas “águas gélidas do cálculo econômico” (Marx).

 

No entanto, ao contrário de correntes críticas que viram na modernidade apenas a face deformada do discurso ocidental, racista, patriarcal e colonialista, Berman identificou neste mesmo movimento a promessa da emancipação vindoura. Inspirado pela análise histórica e dialética empreendida por Marx da formação da mercadoria força de trabalho, o veterano professor de filosofia política da Universidade da Cidade de Nova Iorque (CUNY) soube driblar o irracionalismo pós-modernista ao revelar relações culturais e processos mentais que escondem práticas de resistência à dominação do capital.

 

Conforme Berman, Marx foi o principal crítico “moderno” da modernidade capitalista, capaz de identificar o movimento da história como um fluxo “aberto”, isto é, permeável ao exercício da liberdade criativa da práxis social. Lembro-me de uma história presente em um de seus livros de ensaios, As Aventuras do Marxismo, onde Berman reproduz a conversa entre duas mulheres negras, avó e neta,  acidentalmente captada em um ônibus na cidade de Nova Iorque. À senhora visivelmente incomodada com os trajes julgados excessivamente curtos da neta, esta retrucou: “Não se preocupe, vovó, pois eu sou moderna”.

 

Neste caso, “ser” moderna significava ser independente, autônoma, livre: “o indivíduo ousa individualizar-se”, diria. Diferentemente do “estar” moderna, condição da preocupação de sua avó com a honra pessoal derivada da memória de sua condição subalterna. É verdade, não há outra maneira de lidar criticamente com a tendência predominante da modernidade sem partirmos do reconhecimento de que não há capitalismo sem a reprodução do racismo, do sexismo e da colonialidade.

 

No entanto, Berman entende que as condições para a emancipação estão dialeticamente inscritas nesse mesmo movimento de expansão da modernidade capitalista em escala mundial. Assim, o impulso da modernidade se volta contra seu agente principal, isto é, a própria burguesia:

 

“A burguesia não pode sobreviver sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e com eles as relações de produção, e com eles todas as relações sociais. (…) Revolução ininterrupta da produção, contínua perturbação de todas as relações sociais, interminável incerteza e agitação, distinguem a era burguesa de todas as anteriores. (…). Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antiguidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (…) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus co mpanheiros humanos”
(Marx e Engels, O Manifesto do Partido Comunista).

 

Se a ênfase de Berman recaiu sobre a história cultural da modernidade, isto é, sobre a formação de uma determinada mentalidade moderna condensada nas artes plásticas, na literatura e na arquitetura, sobretudo, coube a outro filósofo político marxista, Daniel Bensaïd, a tarefa de reconstituir a dialética da modernidade conforme uma perspectiva marcadamente estratégica. Apoiando-se sobre a nova escrita da história inaugurada em O capital, Bensaïd decidiu revisitar Walter Benjamin e Antonio Gramsci a fim de restituir o sentido propriamente dialético e crítico do projeto revolucionário de Marx. Neste, a potência dialética da modernidade ocupa o centro das lutas de classes.

 

Esmiuçado em sua trilogia, Walter Benjamin: Sentinela Messiânica, A Discordância dos Tempos e Marx, o Intempestivo, este projeto de reconstrução dialética do materialismo histórico empreendido por Bensaïd ganhou uma elegante e bem-humorada “apresentação” na forma de Marx, manual de instruções, livro recentemente editado pela editora Boitempo. Resgatando a antiga tradição revolucionária de produzir “manuais” acessíveis aos trabalhadores e atraentes para a juventude, o dirigente político francês não apenas condensou aspectos histó ricos e biográficos de Marx e de Engels, inserindo-os nas lutas de classes de seu tempo, como também os relacionou às conquistas teóricas que culminaram na publicação, em 1867, do livro I de O Capital.

 

Dentre estas, a mais importante, sem dúvidas, diz respeito a uma interpretação da história do capitalismo condicionada pela causalidade dialética das lutas de classes:

 

“O capital, cujo conceito Marx cria, é um sistema dinâmico cujas contradições íntimas abrem um leque de possibilidades. A luta de classes decide quais se tornarão efetivas e quais serão abandonadas pelo caminho. Um pensamento capaz de conceber conjuntamente a estrutura e a história, a contingência e a necessidade, o ato e o processo, a reforma e a revolução, o ativo e o passivo, o sujeito e o objeto, é fundamentalmente um pensamento estratégico, uma ‘álgebra da revolução’” (Bensaïd, p. 163).

 

Ao contrário daqueles que reduziram Marx a um reles determinista econômico, Bensaïd soube restabelecer os termos globais de uma leitura crítica e revolucionária, diria estratégica, do pai do socialismo científico. Ao fazê-lo, resgatou do cárcere do esquecimento toda uma tradição de marxistas heréticos: Gramsci, Benjamin, Lukács, Bloch, Sartre, Lefebvre, Mandel… Tradição cujo sentido profundo foi pensar e agir no contra-fluxo, tanto do stalinismo quanto da social-democracia.

 

Quer destacando a dimensão cultural, quer enfatizando a dimensão estratégica da análise da sociedade moderna empreendida por Marx, Marshall Berman e Daniel Bensaïd, dois dos mais brilhantes representantes de uma geração de socialistas heréticos que amadureceu entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, souberam preservar o sentido emancipador do marxismo frente a incontáveis tentativas de transformá-lo em uma modorrenta ideologia de Estado. Sem se deixarem seduzir pelo canto da sereia da crítica pós-moderna, os dois filósofos políticos legaram às gerações mais jovens de socialistas chaves teóricas decisivas aptas a iluminar as antinomias da atual sociedade burguesa.  Ambos partiram cedo demais e merecem ser lembrados.

 

Revista Sociologia Ed. 49

Adaptado do texto “Dois semeadores de dragões”

*Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).