Entenda a conjuntura social dos atentados de Orlando e Nice

Análise sociológica desconstrói a noção de “terror” utilizada pela mídia

Por Guilherme Tadeu de Paula* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Os atentados de Orlando, nos Estados Unidos, no dia 12 de junho de 2016, e Nice, na França, em 14 de julho do mesmo ano, trouxeram ao centro das atenções midiáticas, outra vez, a noção de terrorismo, palavra que frequenta os debates políticos pelo menos desde o século XVIII. Em nossa época, fortemente marcada pelo horizonte político pós 11 de setembro, essa palavra ganhou múltiplo estatuto, servindo como impreciso conceito acadêmico, temática para a indústria cultural de séries e cinema, caracterização de desqualificação de adversários políticos, anteparo legitimador para políticas públicas de Estado, e até como horizonte de doutrina militar – como a relativamente malsucedida Guerra ao Terror.

 

Do ponto de vista da Sociologia e das demais Ciências Humanas com as quais nosso ramo do conhecimento pretende dialogar, o mais acurado é não tratar o “terrorismo” como uma palavra que propõe descrever um fenômeno – como, em geral, a mídia se apressa em fazer. “Terrorismo” é, antes, um discurso, uma vez que a amplitude de caracterizações que em geral suas definições possibilitam sirva mais para embaralhar a compreensão do que propriamente torná-la inteligível. É assim porque em cada contexto as definições do que é ou deixa de ser terrorista são marcadamente políticas.

 

 

 

 

 

Árabes no “mundo ocidental”

Há de se ter um cuidado primordial antes de encontrar as continuidades entre Orlando e Nice e seu lugar na trajetória do que se chama terrorismo. Há uma narrativa relativamente simples que compreende que, uma vez que seus perpetradores eram, afinal, de “origem” muçulmana, tratou-se de uma escalada do “terrorismo árabe” contra o Ocidente. Nesse raciocínio, o preferido da grande imprensa e dos principais atores institucionais envolvidos na gestação de políticas públicas de segurança, os atentados de 11 de setembro de 2001 da Al Qaeda, o massacre na boate Pulse e o atropelamento em massa na França pertencem à mesma linha histórica do terror antiocidental. Sob alguns pressupostos, não se trata de uma proposta equivocada: faz sentido, por exemplo, se pensarmos na origem étnica e religiosa daqueles que praticaram os atos de violência. Além disso, se é mais difícil encontrar aproximações entre o egípcio Mohamed Atta – o principal articulador do grupo de 11 de setembro – e o estadunidense de origem afegã Omar Mateen e o franco-tunisiano Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, havia sim, no grupo de sequestradores que atentaram contra o World Trade Center e o Pentágono, muçulmanos menos extremistas, que estavam aparentemente inseridos socialmente em suas comunidades ocidentais, como é o caso dos dois últimos, os responsáveis pelos casos recentes.

 

São, porém, as descontinuidades que nos parecem mais interessantes explorar do ponto de vista analítico. A começar por uma característica própria do modo de execução dos dois últimos atentados se os compararmos com aqueles orientados e planejados por organizações: o caráter de imprevisibilidade. Ainda que Mateen tenha ligado para a polícia antes do atentado em Orlando para afirmar fidelidade com organizações conhecidas, há poucos indícios de que ele de fato pertencesse a algum ramo organizado. Pelo contrário: por conta de ilações, ele já havia sido investigado em dois períodos distintos pelo FBI, que não prima exatamente pela flexibilidade e refinamento analítico na hora de buscar algum tipo de conexão entre os suspeitos e alguma organização que possa planejar um atentado, e em ambos os casos decidiram que ele não representava uma ameaça. O caso de Nice é similar: Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, que era inclusive conhecido pela polícia e justiça francesa por outra sorte de crimes, em nenhum momento despertou a atenção do aparato de inteligência do país – mais paranoico e preocupado com isso do que em qualquer momento de sua história – sobre alguma possibilidade real de que um dia ele perpetraria uma matança como a que levou adiante em 14 de julho. Embora circulem informações de que a polícia tenha prendido outros indivíduos que poderiam ter colaborado com o franco-tunisiano, até o fechamento desta edição não há nenhuma confirmação de tratar-se de apoio logístico e organizado para promover o atentado.

 

Reuniões sobre o Brexit: o eixo fundamental da decisão pela saída do Reino Unido da UE foi o discurso do controle das fronteiras, o lema “eu quero meu país de volta” | Foto pública

 

Desdobra-se disso outra característica importante para que reflitamos sobre esses tão assustadores ataques: os seus responsáveis não precisaram de nenhum tipo de clandestinidade para levar adiante seus planos. Mateen era funcionário de uma empresa privada de segurança e tinha direito ao porte de armas, tendo inclusive adquirido de maneira legal o armamento que produziu o assassinato em massa na boate Pulse. Lahouaiej-Bouhlel locou o caminhão frigorífico em uma empresa de aluguel de automotivos com seu próprio nome e se cometeu alguma irregularidade para ter acesso à arma de seu crime foi não efetuar a devolução do veículo dentro do prazo estipulado. Suas camuflagens eram suas próprias histórias, suas vidas ocidentais, suas acidentadas trajetórias pessoais, suas experiências humanas, todas elas expressões de sua relação com o seu meio, a sua própria inserção, informada por uma gama muito diversa de bases, na sociedade ocidental.

 

Donald Trump, candidato estadunidense à presidência em 2016, defende muro em fronteiras e tortura para combater o terror | Foto: 123 Ref

Antes de encerrar, convém chamar atenção para dois pontos que não devem ser esquecidos em busca de uma compreensão menos viciada sobre esse processo. O primeiro diz respeito a um fator, em geral menos abordado em relação ao “terrorismo”, mas que nos atuais casos tem sido bastante explorado – ainda que mais por curiosidade ou para organizar explicações simplórias buscando nexos de tipo causa-consequência do que propriamente em busca de uma análise refinada. Por questões distintas, a trajetória pessoal tanto de Mateen como Lahouajej-Bouhlel permitiu diversas análises centradas na compreensão das motivações voltadas aos seus perfis psicológicos. A série de relatos que apontaram a tensão não resolvida entre o primeiro e a homossexualidade e o patológico comportamento destemperado do segundo – que chegou a ser condenado judicialmente por agressão após um desentendimento no trânsito – permite a exploração de um problema que se recoloca e carece de análises mais pormenorizadas – e que, por ora, podemos tão somente organizar como hipótese.

 

Além disso, não devemos simplesmente esquecer que, se de um lado, a civilização ocidental tem um corpo ideológico refinado e progressista, que tem nos direitos humanos sua expressão mais bem-sucedida, ela também informa aos seus sujeitos, diariamente, uma série de valores dos mais opressores – não raramente contradizendo, inclusive, suas liberdades consideradas fundacionais. O machismo agressor pautou “radicalizados” ocidentais, mas também pauta, diariamente, a violência social nos países ocidentalizados. O espírito da competição a qualquer preço e do individualismo promove e valoriza noções de hierarquias sociais fundadas em uma exploração severa da desigualdade, além do racismo, enfraquecendo as noções gerais de isonomia, liberalismo, fraternidade – ou, ao menos, empatia e coesão. Mesmo do ponto de vista da matança coletiva e “indiscriminada” – um termo polêmico uma vez que quem ataca, em geral, escolhe discriminadamente – há uma série de exemplos recentes que são ocidentalmente informados, como a mórbida cultura de massacres em escolas estadunidenses ou os atentados propriamente políticos, como foi o caso do atirador norueguês de extrema direita que em 2011 matou 77 pessoas, 69 delas em um congresso da juventude do partido trabalhista do país.

 

A situação que se apresenta é um problema analítico de muito difícil solução se ignorarmos esses dois eixos de análises – e o mais oportuno é que reflitamos pensando-os como complemento um do outro. Porque a instabilidade emocional, se não é necessariamente motivada pelas experiências sociais, certamente é influenciada em alguma dimensão por essas. As referências são diversas e as escolhas são próprias às capacidades que cada sociedade tem para pensar o seu horizonte de possibilidades. É um dado muito peculiar saber que o atirador de Orlando era registrado como votante nas prévias do partido democrata desde 2006 – e que mesmo poucos meses antes de promover o massacre em Orlando, Mateen defendia Hillary Clinton em relação a Bernie Sanders, como relatou um colega de mesquita em texto publicado no Washington Post. O mesmo colega conta que sentiu algo estranho quando Mateen afirmou ter ficado impressionado com os vídeos que teve acesso pela internet de pregação de um clérigo radical: “São muito poderosos”, ele teria dito.

 

Rampage shootings, terrorismo e outras manifestações sob análise sociológica

 

Trata-se de uma informação relativamente imprecisa – porque não é possível saber exatamente em que momento se deu a tal “radicalização” e se foi precisamente isso que motivou os atentados em questão. De qualquer maneira, se sobre Nice ainda não circulam informações mais precisas sobre o franco-tunisiano responsável pela matança, nos Estados Unidos o discurso de pregadores radicalizados disponíveis em plataformas de compartilhamento já havia aparecido como fator de influência relativa em outros atentados. A informação é importante porque sinaliza esse novo cenário que é composto pela extensiva propaganda jihadista pelos meios digitais (em geral empresas lucrativas com sedes em países capitalistas ocidentais) – que tem servido de combustível para o recrutamento em uma sociedade ocidental que lida contínua e até estruturalmente com insatisfações sociais e instabilidades emocionais.

 

Com a ininterrupta evolução nos gastos – e consequentemente nos aparelhos – de segurança, aqueles atentados organizados com a associação de múltiplos atores se tornaram mais suscetíveis à vigilância – o que não os anula, mas os torna, ao menos, de maior dificuldade de realização. Afinal, é possível rastrear campos de treinamento, conexões, viagens, dinheiro. Nesse cenário, a atuação de ocidentais camuflados em si mesmos, de trajetória religiosa às vezes organizada, por vezes contraditória, orientados por instabilidades de variadas ordens e informados por ícones de talentosa, embora perversa, pregação religiosa que fazem suas ideias ecoarem mesmo depois de assassinados, se apresentam como um grande desafio para, de um lado, os mecanismos policiais ocidentais, e, de outro, as democracias dos países que em geral têm de lidar com essa experiência.

 

Revista Sociologia Ed. 66

Adaptado do texto “Atentados de Orlando e Nice”

*Guilherme Tadeu de Paula é mestre em Ciências Sociais e doutorando em História Política. É autor do livro Terrorismo: um conceito político (CRV, 2015).