Entenda a importância dos “clássicos” na Sociologia

A principal característica das Ciências Sociais é derivar sua “autoridade” para abordar questões centrais da vida cotidiana a partir do permanente retorno aos seus “clássicos” na busca por questionamentos e respostas

Por Diogo Tourino de Sousa*, Fernando Perlatto**, Belisa Lamas Gaudereto e Maria Tereza Ribas Sabará*** | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O escritor Italo Calvino publicou, em 1991, o seu instigante Perché leggere i classici (Por que ler os clássicos), em que discute o que vem a ser um “clássico” e aponta, num misto de memória e narrativa, aqueles que seriam os “seus clássicos”. Logo no início do livro, Calvino ensaia sua definição com 14 propostas, todas igualmente importantes e valiosas. Aqui, contudo, recordemos apenas a quarta e sexta proposição do autor como provocação para pensarmos as Ciências Sociais nos termos há pouco enunciados: “4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira” e “6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (2007).

 

No rol de Calvino figuram clássicos como Xenofonte, Diderot, Stendhal, Balzac, Charles Dickens, Flaubert, Tolstói e outros. Ainda assim, fora do registro literário, podemos pensar quais seriam os clássicos, caso eles efetivamente existam, das Ciências Sociais. A resposta não é difícil. Qualquer jovem estudante de Sociologia já saberia, de pronto, preencher uma lista que, se resumida, não oscilaria muito, incluindo autores como Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. Seguramente, esses três sociólogos, quase sempre apontados como os fundadores da disciplina, se encaixam bem nas duas proposições trazidas por Calvino em sua definição de um clássico: eles ainda promovem descobertas e, especialmente, seus livros parecem falar também para os dias de hoje.

 

 

A autoridade dos clássicos

Quando pensamos na Ciência e no seu comportamento em relação aquilo que definimos como senso comum (aqui imprecisamente definido como o conhecimento cotidiano), logo surge a ideia de autoridade. Um cientista em geral possui autoridade no que diz, o que lhe permite classificar inúmeras afirmações do senso comum como equivocadas. Os exemplos são muitos.

 

 

 

Nas Ciências Naturais, da saúde e exatas é normalmente assim que o cientista se comporta perante o mundo: ele é capaz de desmentir crenças antigas. E mais: suas afirmações são, em geral, aceitas. A mesma postura – de razoável segurança na afirmação do erro – pode ser pensada, também, em relação a sua história disciplinar: autores do passado que tenham porventura cometido algum engano, são apontados e descartados.

 

 

Basta recordarmos que o geocentrismo – concepção que defendia a terra como centro do Universo, sustentada, dentre outros, por Aristóteles – vigorou no pensamento humano até que Copérnico (1473-1543), somente no século XV, recuperasse o heliocentrismo como explicação cosmológica correta, afirmando ser o Sol o centro do Universo. O próprio Copérnico teria, igualmente, cometido suas imprecisões ao afirmar a órbita dos corpos celestes como circular, sendo posteriormente contestado por Kepler (1571-1630) e suas leis relativas à dinâmica dos corpos celestes.

 

Fato é que, nenhum cientista hoje, portador de maior capacidade tecnológica na produção dos seus diagnósticos, é certo, seria capaz de apontar o geocentrismo como explicação correta, sob pena do mais absoluto descrédito. Mais do que isso: podemos dizer com razoável grau de confiabilidade de Copérnico errou em parte das suas afirmações e que Aristóteles, em suas afirmações cosmológicas, errou por completo ao supor a terra como o centro do universo.

 

Se recuperarmos as propostas de definição de um clássico enunciadas por Italo Calvino, dificilmente poderíamos incluir Aristóteles, Copérnico e outros no panteão da Astronomia: lê-los não promove mais descobertas e o que disseram não é capaz de dizer algo sobre o que hoje conhecemos. Logo, a pergunta é inevitável: quem seria, caso eles existam, os clássicos das Ciências Naturais, da Saúde e Exatas?

 

Jeffrey Alexander, de maneira provocativa, recupera a história da Ciência para dizer que talvez eles não existam. Em seu influente texto “A importância dos clássicos”, o autor sugere que um colegial pode, em vários momentos, entender mais de Física do que, por exemplo, Galileu (1999: 25). Afirmação nem tão descabida, se pensarmos que a história da Física sofreu um impacto revolucionário com a descoberta, apenas no século XX, da Física Quântica, efetuada por Max Planck (1858-1947), que tornou irrelevantes pressupostos elementares antes aceitos pela disciplina.

 

Com isso, chegamos a um interessante elemento de definição: as Ciências Naturais, da saúde e exatas parecem gozar de grande autoridade perante o senso comum, sendo capazes de afirmar como equivocadas várias de suas crenças, mas, ao mesmo tempo, não derivam essa autoridade necessariamente do que os seus “clássicos” fizeram ou disseram. Aliás, sua autoridade lhes permite, inclusive, dizer que mesmo os autores do passado cometeram alguns, ou muitos, erros, questionando a existência de clássicos em suas disciplinas. As Ciências Sociais, ao contrário, não têm a mesma capacidade.

 

Os clássicos nas Ciências Sociais

Diferentemente das demais Ciências, as sociais não parecem gozar da mesma autoridade. Dificilmente o que um cientista social diga sobre crenças arraigadas presentes na sociedade exercerá sobre elas o mesmo padrão de correção que as afirmações do dentista, há pouco mobilizado como exemplo, exercem. No entanto, isso não significa que sociólogos não sejam cientistas. Apenas aponta, dentro do quadro aqui discutido, que a fonte de sua autoridade é outra: os clássicos.

 

A condenação de Durkheim, Marx ou Weberclássicos da Sociologia – ao erro parece quase impossível. E de fato o é. Mesmo em situações nas quais as Ciências Sociais apresentam significativos avanços em relação ao que os clássicos disseram, eles ainda têm algo a nos dizer. Durkheim, por exemplo, publicou O Suicídio, em 1897, o primeiro grande estudo sociológico, hoje contestado em suas fontes e afirmações. O que não desobriga, por sua vez, que estudiosos contemporâneos do tema tenham que ler a obra para, a partir dela, construir novas explicações.

 

Esse é, sem dúvida, o grande traço distintivo da Sociologia em relação às Ciências Naturais: o constante retorno aos clássicos como caminho necessário para a construção de sua autoridade sobre os objetos que discute. O que não significa dizer que a Sociologia pode abdicar do levantamento de dados, por meio da realização de pesquisas empíricas, no estudo de fatos presentes. Não pode, da mesma forma que é a ela vedado um caminho que negligencie questões colocadas pelos autores do passado, tenham eles feito ou não pesquisas empíricas. Por vezes, como aponta Renato Lessa, grandes livros são escritos a partir da leitura de grandes livros, colocando questões antes impensadas (2003).

 

 

Característica que torna a comunicação entre a Sociologia e o senso comum mais difícil, exatamente porque ela não exerce sobre ele o mesmo padrão de autoridade, tendo que sempre recorrer aos clássicos para sustentar o que afirma. Numa eventual discussão sobre cotas raciais, redução da maioridade penal, descriminalização do uso de drogas, apenas para mobilizarmos temas presentes na agenda pública brasileira, o sociólogo não é capaz de dar a palavra final e mobiliza, a todo o momento, autores e conceitos de sua tradição os quais o senso comum desconhece.

 

Por outro lado, não é desejável que ele seja capaz de encerrar essas e outras discussões, pois a possibilidade de visões plurais quando tratamos de assuntos de natureza moral é bem vinda. As Ciências Sociais, aliás, foram protagonistas nesse exercício, o que tornar a Sociologia uma disciplina humanista, na visão de Peter Berger (1929-).

 

Logo, a cisão entre pesquisa empírica e a lição dos clássicos, por vezes presente nos debates contemporâneos, é improdutiva pela própria característica das Ciências Sociais. Conforme nos lembra Giddens, os fatos são sempre interpretados dentro de quadros conceituais (2001). No nosso caso, os quadros conceituais tendem a ser do tamanho da nossa tradição disciplinar, nos impedindo de dispensar autores do passado com o mesmo grau de certeza que as demais Ciências o fazem. Ainda assim, é importante percebermos que mesmo nelas radicam debates, imprecisões e polêmicas, sendo mais fácil pensarmos em tendências do que em certezas.

 

A Sociologia tem, dessa forma, de retornar aos clássicos, mesmo quando opta pela pesquisa empírica. Uma questão que começa, a partir daí, a ocupar a reflexão da Sociologia brasileira é a existência de clássicos nacionais que teriam, de alguma forma, pensado questões e colocado problemas capazes de incrementar o andamento das Ciências Sociais como um todo. Em recente texto sobre o tema, João Marcelo Maia mostra como os autores do pensamento social brasileiro foram capazes de elaborar diagnósticos que auxiliaram, por um lado, o andamento da sociedade e suas transformações e, por outro, a própria reflexão das Ciências Sociais ao colocarem questões tradicionais a partir de outras perspectivas (2009).

 

Revista Sociologia Ed. 40

Adaptado do texto “As Ciências Sociais, seus “clássicos” e desafios”

*Diogo Tourino de Sousa é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFV, bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela UFJF, doutorando em Ciência Política no IESP/UERJ e coordenador do PIBID/CAPES, subárea de Sociologia. Já lecionou Sociologia e Filosofia no Ensino Médio e atualmente é pesquisador do CEDES/PUC-Rio e do Laboratório de Estudos Humanos (UFF). E-mail: diogotourino@gmail.com

**Fernando Perlatto é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFJF, bacharel e licenciado em História pela mesma instituição, doutorando em Sociologia no IESP/UERJ e pesquisador do CEDES/PUC-Rio. E-mail: fperlatto@yahoo.com.br

***Belisa Lamas Gaudereto e Maria Tereza Ribas Sabará, cursam o 7º período do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e são bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID/CAPES), subárea de Sociologia, realizando pesquisas sobre o ensino da Sociologia na educação básica, com o desenvolvimento de métodos e técnicas para a adequação da disciplina à realidade escolar.