Entenda a relação entre os protestos de 2013 e a política

Na África do sul, uma tentativa de explicar a situação político-econômica que desponta

Por Ruy Braga* | Foto: Shutterstock |Adaptação web Caroline Svitras

Johannesburg, 7 de fevereiro de 2013. O público aparentava ficar cada vez mais cético enquanto eu seguia apresentando dados e imagens a respeito das revoltas operária em Jirau, Belo Monte, Suape… O debate confirmou minhas expectativas: “Se, como você está alegando, a situação econômica e política no Brasil promove a inquietação social, como explicar a popularidade de Lula e de Dilma?” Repliquei afirmando que o quadro era complexo, pois, apesar das péssimas condições laborais, do aumento no número de acidentes de trabalho, da elevação da taxa de terceirização das empresas e da nítida retomada da atividade grevista a partir de, ao menos, 2008, o mercado de trabalho continuava aquecido e, malgrado o inédito patamar do endividamento, as famílias trabalhadoras permaneciam consumindo bens duráveis. Além disso, os trabalhadores brasileiros simplesmente não identificavam alternativas políticas críveis ao PT e seus aliados. A hipótese da volta do PSDB ao governo federal, por exemplo, estava descartada, tendo em vista a desastrada experiência com o desemprego de massas a partir de meados da década de 1990.

 

Por se tratar do mês de fevereiro, o clima em Johannesburg estava naturalmente quente, porém estranhamente seco. Estiagem digna do semiárido baiano. Condição climática que parece ter influenciado as perguntas do público. Não posso exatamente dizer que tenha angariado muitas simpatias… Alguns meses antes, meu amigo e camarada Edward Webster havia decidido organizar um evento chamado Lessons from the Brazilian Experience: A Labour Perspective [Lições da experiência brasileira: a perspectiva do trabalho], na sede do Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos (Cosatu) a fim de debater a recente experiência política brasileira de relação entre os trabalhadores, sindicatos e governo federal, e pediu-me para falar sobre a “hegemonia lulista”. Entre os participantes do encontro, além de especialistas acadêmicos em Brasil e em África do Sul, como Gay Seidman e Giorgio Romano Schutte, por exemplo, estariam líderes sindicais da central que, no passado, notabilizou-se mundialmente por sua aguerrida luta antiapartheid.

 

De fato, lá estava Zwelinzima Vavi, o carismático secretário-geral do Cosatu e um dos mais entusiasmados apoiadores daquilo que os documentos da central passaram a chamar de “Lula Moment”. Trata-se de uma política cujo objetivo consiste em pressionar o governo sul-africano para que este se aproxime do modelo brasileiro: aumento de gastos sociais, queda de desigualdades entre aqueles que vivem dos rendimentos do trabalho, elevação do consumo de massas etc. O entusiasmo sul-africano com nosso regime hegemônico foi reforçado pela participação de Lula no último congresso do Cosatu, ocorrido em 2011. Tudo somado, a hegemonia lulista surgiu aos olhos de uma central sindical às voltas com sérios questionamentos a respeito de sua própria relação com o governo do Congresso Nacional Africano (ANC) como um modelo a ser seguido.

 

Ao me convidar para o seminário na “Cosatu House”, Edward desejava apenas temperar o debate sindical sul-africano com visões críticas sobre o cenário político brasileiro. Aliás, diga-se de passagem, poderíamos igualmente aprender muito com o estudo detalhado da experiência pós-apartheid. Para saber mais sobre o que está acontecendo na África do Sul, sugiro o livro de Peter Alexander, Thapelo Lekgowa, Botsang Mmope, Luke Sinwell e Bongani Xezwi, Marikana: A View From the Mountain and a Case to Answer (Johannesburg, Jacana, 2013). A despeito das intenções de Edward, é dispensável dizer que meus alertas sobre a iminente fadiga da hegemonia lulista não foram lá muito bem acolhidos pela direção da central.

 

São Paulo, 13 de junho de 2013. Passaram-se apenas quatro meses desde minha última visita à Jo’burg. O clima paulistano está naturalmente frio, mas estranhamente úmido. A popularidade de Dilma segue firme na casa dos 50 pontos. No entanto, apresentou a primeira variação negativa saliente: 8 pontos. Em poucos dias, a presidente seria vaiada três vezes na abertura da Copa das Confederações. O Movimento Passe Livre (MPL) na cidade de São Paulo organizou sua quarta manifestação contra o aumento das tarifas do transporte municipal. Um cenário de guerra no qual apenas um dos lados estava armado. A brutal repressão da Polícia Militar aos manifestantes respondeu aos apelos do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e do prefeito Fernando Haddad (PT), além de inúmeras lideranças políticas da cidade, entre elas, todos os vereadores do PT e do PCdoB, pelo restabelecimento imediato da “ordem” em São Paulo. Eles têm o sangue de mais de uma centena de manifestantes feridos nas mãos.

 

Os protestos em São Paulo são apenas a ponta do iceberg. Aqueles que acompanharam as mobilizações da juventude trabalhadora em diferentes cidades contra os aumentos abusivos do transporte público sabem bem que se trata de uma revolta nacional. A meu ver, o grave problema do transporte público catalisou uma angústia social muito mais profunda e enraizada nos alicerces do atual modelo de desenvolvimento.

 

Afinal, nos últimos dez anos, milhões de jovens trabalhadores foram absorvidos pelo mercado formal de trabalho. E, de fato, mais de 60% dos empregos criados durante os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff foram ocupados por jovens entre 18 e 24 anos. No entanto, 94% desses empregos pagam até R$ 1.000,00 por mês. Ao mesmo tempo, o governo federal aumentou notavelmente os gastos sociais, mas diminuiu os investimentos em saúde e educação. Torrou fábulas de dinheiro nos novos estádios da Copa, mas subinvestiu recursos em mobilidade urbana. Ao priorizar o financiamento do carro particular, o governo federal estimulou os lucros – e a tributação – em detrimento dos direitos da cidadania.

 

A crescente revolta da juventude contra esse modelo tem alimentado os atuais protestos. Por que a tarifa do ônibus? Fácil: os reajustes dos preços dos alimentos, dos aluguéis e dos serviços, por exemplo, acontecem de forma fragmentada, diluindo-se ao longo dos meses. Além disso, o “culpado” é anônimo: o processo inflacionário. No caso de uma tarifa regulada politicamente como a passagem do ônibus, além do aumento acontecer de uma única vez, atingindo todos ao mesmo tempo, conhecemos bem o responsável: ele tem nome e sobrenome, despacha no Edifício Matarazzo e foi eleito recentemente. Daí a indignação voltar-se contra o prefeito petista e, por força do acordo em torno da nova tarifa, o governador tucano.

 

A despeito dos corretos esforços do MPL de combinar demandas por diferentes direitos, os ritmos da experiência social da classe trabalhadora com o modo de regulação lulista permanecem discordantes. A crise econômica desacelerou o ritmo das contratações, mas as demissões em massa ainda não aconteceram. A inflação começa a dar sinais de desaceleração e o governo ainda controla a maioria dos movimentos sociais do País, em especial, o movimento sindical, por meio de cargos, de corrupção, de dinheiro e de inúmeros privilégios. No entanto, a aposta do regime hegemônico na desmobilização começa a ser severamente questionada. Em Jo’burg vá lá. Mas, em Sampa, existe alguma dúvida a respeito de se estamos ou não vivendo um momento de fadiga do atual modelo de desenvolvimento que inaugura uma nova conjuntura?

 

Revista Sociologia Ed. 48

Adaptado do texto “Uma nova conjuntura”

*Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP).