Entenda o conflito na Síria

O governo sírio poderia ter proposto mudanças ao perceber que vários países estavam vivendo um momento de revoltas e conflitos realizados contra a corrupção dos governos autoritários locais

Por Leandro Ortunes* | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Em meados de março de 2011, uma onda de protestos na Síria contra o governo de Bashar al-Assad, iniciada na cidade de Homs, desencadeou um conflito armado que já dura seis anos. Todavia, para compreender esse levante devemos considerar o contexto sociopolítico dos países vizinhos, pois o que ocorre na Síria é reflexo de um movimento comumente chamado de “primavera árabe” – termo que remete à esperança do florescimento da democracia na região.
Os protestos da “primavera árabe” iniciaram-se na Tunísia, mais precisamente com a autoimolação de Muhammad ­Bouaziz, que ateou fogo em seu corpo como forma de protesto contra o governo após ter sua banca para venda de verduras confiscada. Muhammad tinha formação superior, mas não teve chances de exercer a profissão devido ao alto nível de desemprego na região. Vender verduras era algo que lhe fornecia uma renda mínima para sobrevivência. Seu ato de indignação ganhou o apoio de boa parte da população da Tunísia, até que o presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado em 14 de janeiro de 2011, por ser considerado corrupto e autoritário no exercício de seu poder, que durou trinta anos.
O mesmo sentimento de revolta contra governos autoritários espalhou-se rapidamente, atingindo pelo menos dezesseis países, com níveis diferentes de manifestações, porém com a mesma reivindicação: mudanças na política.
Certamente, uma reforma política e econômica era necessária no mundo árabe, porém os líderes políticos não atentaram a esse ponto. O governo sírio poderia ter proposto mudanças ao perceber que vários países estavam vivendo um momento de revoltas e conflitos. Entretanto, demorou para tentar alterar seu sistema, que já estava em declínio, e, sem propor um diálogo com os opositores, partiu para o conflito.

 

Bashar Al-Assad

Ao contrário dos outros países da “­primavera árabe”, que já estão em um sistema transitório de governo, ou que controlaram as manifestações, a Síria permanece com um futuro incerto. Os conflitos se mantêm mesmo após anos da primeira manifestação e o número de mortos não pode ser confirmado devido à repressão que a impressa sofre na região. Um ponto certamente não esperado é a persistente resistência dos opositores. Mesmo com grande repressão por parte do governo sírio, os conflitos permitem ao exército livre da Síria tornar-se a principal força de oposição. Ele é composto não somente de civis, mas por grande parte dos soldados desertores do exército nacional da Síria. O número de combatentes é incerto, mas a forte resistência indica que se trata de um número representativo.

 

 

 

Análise internacional

A comunidade internacional vem se mobilizando para pressionar a saída de Bashar al-Assad do governo ou encontrar uma solução pacífica. Entretanto, alguns países não foram favoráveis às primeiras propostas da ONU, como a China e Rússia, que vetaram a resolução que condenava a repressão do governo sírio contra os manifestantes. Esse veto foi considerado “vergonhoso” pela embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice. A posição russa é defendida com o argumento de que a resolução proposta pela ONU abriria precedentes para uma intervenção militar igual à ocorrida na Líbia em 2011. Evidentemente, para entender o posicionamento russo, é preciso levar em conta que a Síria, hoje, é o único país árabe que mantém laços políticos com a Rússia, desde a época da antiga União Soviética.

 

Opinião: como alcançar a paz nos países árabes

Tempos atrás havia forte articulação entre a Líbia, no governo de Muammar Kadafi, o Egito, no governo de Nasser, e o Iraque, no governo de Saddam Hussein. Todos esses líderes tiveram forte interação política com a União Soviética e permaneceram com uma diplomacia ativa com a Rússia. Por esse motivo, a Síria, sendo o único laço restante, passa a ser um caso muito particular para a diplomacia russa, uma vez que essa interação promove um vínculo entre o governo de Moscou e os países árabes, algo que é de grande interesse para garantir a influência política russa na região. O posicionamento defendido pela China, inclusive da Índia e Brasil, é que o cessar-fogo deve partir dos dois lados, fato que não é contemplado nos posicionamentos de outros países do Ocidente.
Os Estados Unidos, principal potência mundial que apoia os opositores do regime de Bashar al-Assad, atualmente não possuem capacidade de manobra para abreviar o fim da revolta e muito menos a possibilidade de uma intervenção militar, caso isso fosse aprovado por alguma resolução do Conselho de Segurança da ONU.

 


Por conta da crise econômica do país, além da imagem negativa sobre as intervenções militares estadunidenses realizadas nos últimos anos, restam dúvidas sobre a autenticidade dos objetivos defendidos para a realização desses atos. Por isso, os Estados Unidos podem, de certa forma, usar sua força, enviando armas aos opositores e na defesa de que seja aprovada alguma resolução na ONU, mas dificilmente fará algo mais efetivo.
O mesmo ocorre na União Europeia, que também vive uma crise econômica e que participou, em 2011, das intervenções na Líbia. O cenário internacional está muito diferente, principalmente se analisarmos a União Europeia e os Estados Unidos, que nesse momento estão mais preocupados com seus problemas internos. Isso diminui suas posições na política externa, principalmente quando gera ônus econômico.
Por outro lado, no dia 1º. de abril, países do Golfo Pérsico decidiram pagar salário ao exército livre da Síria, o que vai contra o cessar-fogo recíproco defendido por outras nações. A Rússia afirma que os rebeldes não têm condições de derrotar o exército de Bashar al-Assad e o ministro russo Serguei Lavrov advertiu que a guerra pode se intensificar e ser mais sangrenta caso os países simpatizantes da revolta forneçam armas aos opositores do regime de Bashar al-Assad. Ou seja, o governo russo reprova todo estímulo à violência e afirma que o cessar-fogo é a melhor solução e que deve partir dos dois lados.

 

 

Veja o documentário Além do véu sobre o islã

 

 

Paz em cheque

Algumas propostas foram feitas pelos opositores para chegar a um acordo de paz. Uma delas foi solicitar que as armas pesadas de guerra, como blindados e tropas do exército, fossem retiradas do meio da população civil. Percebemos que diálogos acontecem entre os que lutam, mesmo que timidamente e sem muita eficácia. O fato importante é que o primeiro passo foi dado.
Um avanço aparente nas negociações foi o plano de paz, aceito pela Síria, proposto por Kofi Annan (emissário da ONU). O plano prevê o fim de todos os ato de violência, da parte do regime ou dos opositores. Também prevê que a pacificação seja supervisionada pela ONU, a libertação de presos políticos e o envio de ajuda humanitária. Infelizmente, o que se viu alguns dias depois do encontro entre Kofi Annan e Bashar al-Assad foi um cenário diferente do proposto no plano. O regime continua fazendo uma forte repressão aos opositores. Também um empecilho criado no plano foi a fixação das datas para a retirada das tropas do exército de Bashar al-Assad – sumariamente rejeitada pela Rússia, pois, segundo o governo russo, estipular um prazo nunca ajuda e promove tensões maiores. Novamente, percebemos o forte posicionamento da Rússia em favor do regime atual.
Uma análise do cenário internacional identifica que uma queda do regime sírio provocaria um desequilíbrio de poder no Oriente Médio, abrindo um vácuo de influência na região, o qual certamente será disputado entre as principais potências mundiais, pois a Síria e o Egito são de grande importância geopolítica para muitos países.

 

Kofi Annan

Um grande temor para os países ocidentais seria o aumento da influência do Irã sobre a Síria, fato que pode acontecer dependendo do desfecho do conflito. Devemos lembrar que a influência iraniana cresce sobre o Iraque devido à forte violência e à instabilidade política no país, principalmente após a retirada das tropas estadunidenses da região. Também não podemos nos esquecer da preciosidade que há no território árabe: o petróleo. Esse bem, que é essencial para a economia mundial, gera grande interesse por parte de todos os países. Por esse motivo, as potências ocidentais buscam a estabilidade do Oriente Médio, que favoreça o liberalismo econômico e garanta o abastecimento de petróleo.

 

 

 

Futuro incerto

O grande problema é que, quanto mais tarde acontecer o cessar-fogo, mais complexa ficará a solução dos problemas sociais na Síria. Os retratos da revolta mostram um cenário de destruição, com muitas mortes, causando um grave problema econômico. Se a situação econômica estava desfavorável para a população devido ao aumento da inflação desde 2007, após os embargos impostos por alguns países esse cenário fica cada vez mais crítico.
As sanções impostas pela União Europeia vão desde a proibição da entrada de algumas pessoas ligadas a Bashar al-Assad no bloco europeu até o bloqueio de exportações, para a Síria, de equipamentos necessários para exploração de petróleo e produção de energia. Ou seja, as sanções afetam justamente a indústria de base do país. O Japão, em março de 2012, também se posicionou restringindo operações financeiras entre empresas japonesas e sírias.

 

 

A fragilidade econômica do governo sírio é notável, mas o grande problema cai nas mãos da população, principalmente a parte mais pobre, a mais prejudicada. Certamente, o povo sofre muito mais do que as pessoas ligadas ao governo, e os países que assistem ao conflito pouco podem fazer devido à falta de informação sobre a real situação da população síria.
A repressão do governo contra a ­mídia e o impasse diplomático entre ­simpatizantes do governo e simpatizantes da oposição tornam o cenário mais incerto e obscuro. Segundo a ONU, mais de um milhão de pessoas esperam ajuda humanitária, mas mesmo assim isso não será suficiente para estabilizar a condição social da população. Por isso, quanto mais tarde as reformas políticas e econômicas forem aplicadas, mais tardiamente será alcançada uma estabilização da economia síria.

 

O que há por trás do ato de protestar?

Se um governo democrático tem como sua máxima que deve governar para o povo e pelo povo, é isso que se espera de uma primavera. Porém, não devemos ser ingênuos e afirmar categoricamente que nessa primavera florescerá uma democracia, pois temos vários exemplos de revoluções que visavam o bem do povo mas tornaram-se tão opressoras quanto o sistema que foi derrubado, isso desde a Revolução Francesa até a Revolução Cubana.

 

Também devemos lembrar que o projeto da democracia é um sonho ocidental, defendido principalmente pela “grande democracia” estadunidense. O projeto dos EUA para a região, certamente, tem como base o estabelecimento da democracia, visando a estabilidade; entretanto, não é levada em conta a diferença cultural, política e econômica daquele território e, por isso, o estabelecimento desse sistema não é garantia de paz. Nesse clima de incertezas sobre o fim dos conflitos na Síria, nos resta aguardar e torcer para que o povo consiga realmente estabelecer um governo dedicado à população e não à manutenção do poder.

 

 

 

*Leandro Ortunes é especialista em Relações Internacionais pela FAAP e em Ciências da Religião pela PUC-SP. Mestrando em Ciência Política pela PUC-SP. email: leandroortunes@uol.com.br

Adaptado do texto “Incertezas sobre a primavera árabe”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 42