Entenda o significado do dinheiro nas sociedades

Análise do uso do dinheiro na sociedade atual mostra que ele é determinante nas relações sociais, e, ao mesmo tempo, determinado por elas

Por Karina Gomes de Assis* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

 

O dinheiro torna-se interessante objeto de análise quando nos contrapomos à visão da Economia que o encara como intermediário impessoal e perfeitamente adequado à racionalidade que as trocas mercantis necessitam. O questionamento a respeito das diferentes formas de interpretação do dinheiro em variados contextos e grupos sociais, apoiado em preceitos antropológicos e sociológicos sobre a moeda e o mercado, dá uma noção distinta à realidade na qual o dinheiro é encontrado.

 

Ao refletir sobre os cenários atuais nos quais sobressaem crises econômico-financeiras, corrupção, contextos em que a ganância e o questionamento moral em torno do dinheiro são levantados, a complexidade parece mais evidente. Mas tal complexidade pode ainda ser trabalhada na chave da produtividade via trabalho, que tem como resultado o salário, e a questão do desemprego, que também retoma esse contexto e remete indiretamente dinheiro vivo ao valor monetário adquirido ou não obtido (no caso do desemprego). Mais ainda ao serem pensados os avanços nos padrões de consumo e a necessidade do uso do dinheiro para a obtenção de bens e a ascensão no número de pessoas que utilizam bancos e tecnologias/mecanismos financeiros no dia a dia, como crédito/juros, cartões, cheques, empréstimos, e a maneira como estes são interpretados (NEIBURG, 2010; MÜLLER, 2009; WILKIS, 2008). Nota-se que o dinheiro assume sentidos diversos, que transitando entre ordens quantitativas e qualitativas criam cenários específicos a serem explorados.

 

Como Neiburg (2010) observa em Os sentidos sociais da Economia, diferente do que apontam economistas, o dinheiro reveste-se por noções singulares, sendo marcado por suas origens e usos. A racionalidade proposta pela teoria econômica que se apoia no modelo objetivo do Homo economicus dá à ação um caráter mais instrumental normativo do que descritivo-explicativo, na medida em que aplica as regras da lógica para compreender o sentido da ação, sendo, portanto, passível de uma “formalização matemática” (STEINER, 2006).

 

 

Abordagens clássicas

A importância da interpretação que se faz do dinheiro justifica-se pela sua centralidade nas abordagens clássicas do desenvolvimento do mundo moderno, que lhe dá como característica a onipotência na medida em que se torna instrumento fundamental para a racionalização da vida social como exigido na sociedade moderna. Essa capacidade incondicional de intercâmbio possibilitada por sua objetividade lhe permite atuar como um intermediário em relações de troca das quais se entendem como pressupostos, além da racionalidade, uma impessoalidade que nenhuma outra forma intermediária poderia ter. Tal como apresenta Zelizer (2003, p. 128), “à medida que o dinheiro se tornasse apenas ‘mero dinheiro’, a sua liberdade passaria a ser aparentemente inquestionável e as suas utilizações ilimitadas”. Essa utilização ilimitada lhe é conferida pela instrumentalidade para a qual Simmel (1978) tece uma crítica por meio da afirmação de que o dinheiro esvazia o núcleo das coisas. O dinheiro transforma inclusive objetos intangíveis em mercadorias comuns, até mesmo aqueles desprovidos de utilidade, a exemplo da consciência e da honra – aquilo que até então não se podia comprar passa a ter um preço.

 

O descaso com a pobreza no Brasil

 

 

Dinheiros especiais

Viviana Zelizer (2003), em O significado social do dinheiro, chama atenção para a diferenciação que é criada no entendimento do dinheiro em famílias de diferentes classes, e ainda conforme idade e gênero. Fazendo uso da ideia de “dinheiros especiais”, a autora ressalta a incorporação do social e do simbólico à significação dada ao dinheiro, que neste caso liga-se a diferentes concepções culturais de relações de poder, de vida familiar, de gênero e idade. Assim, cada tipo de dinheiro especial molda-se por diversas e diferentes redes de relações sociais e sistemas de significado. “A cultura e a estrutura social impõem limites intransponíveis ao processo de ‘dinheirização’, introduzindo restrições e formas de controle à fluidez e liquidez do dinheiro” (ZELIZER, 2003, p. 135).

 

Seguindo os passos de Zelizer, temos outros estudos que buscam orientar a reflexão de uma realidade na qual o dinheiro está presente por meio de uma teia de complexas relações e significados sobre o que ele representa. Müller (2009) faz uma etnografia interessante abordando as consequências do acesso de grupos populares a serviços e mecanismos financeiros – oferta de crédito, relacionamento com juros, cartões de crédito etc., mostrando como as lógicas sociais e econômicas se entrelaçam na vida cotidiana desses atores. Outro estudo que remete à lógica econômica imposta pelo dinheiro é a tese de Leite (2011), em que são abordadas as diferentes lógicas trabalhadas pelos “consultores financeiros”, os quais através de livros de autoajuda buscam inserir na vida cotidiana aspectos concernentes ao Homo economicus, atraindo diferentes classes para o mercado financeiro e trazendo implicações simbólicas e cognitivas para a sociedade brasileira a exemplo da ideia de necessidade de uma educação financeira.

 

Wilkis (2008), em seu trabalho “Os usos sociais do dinheiro em circuitos filantrópicos – ‘o caso das publicações de rua’”, trabalha na dicotomia filantropia/mercado, em um contexto no qual a reconquista da “cidadania” pelos moradores em situação de rua ocorre através da sua inserção em um mercado, que prevê seu acesso ao dinheiro por meio da venda de revistas. O autor aborda tanto a noção de empoderamento dos indivíduos atrelada ao acesso monetário e as diferentes lógicas que a troca revista/dinheiro pode assumir nesse contexto tão particular em que a relação com o outro (no caso com o morador de rua) pode moldar o entendimento do que vem a ser a troca.

 

Podemos ainda citar estudos clássicos, que fogem à análise de uma realidade na qual se considera apenas a questão material/racional do dinheiro. Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mostra como, diante do asceticismo e da visão de trabalho incentivados pela Reforma Protestante à procura da salvação, são provocadas ações racionais em relação a um valor cujas consequências econômicas são evidentes, chamando atenção para a racionalidade ligada a um valor (religioso), que provoca como consequência a aparição/fortalecimento de um sistema econômico – mostrando a combinação de uma conduta pautada pelo interesse e de outra baseada nas relações entre os atores em que são compreendidos os valores, normas, afetos (WEBER, 2004; STEINER, 2006).

 

Confira a entrevista com um sociólogo sobre o marxismo

 

“A subjetivação das coisas e a objetivação das pessoas fazem parte de um mesmo universo no qual se processam as relações humanas e suas transformações” (NEIBURG, 2010, p. 16). Diante dessa afirmação podemos notar a interposição das duas lógicas, econômica e social-cultural, com isso podemos concluir que embora por muito tempo tenha sido assunto legítimo de economistas, o dinheiro por meio da compreensão de seu caráter social e cultural não está mais confinado ao domínio intelectual dos modelos limpos apresentados pelos economistas.

 

 

Para não racionalizar a Economia

Segundo Swedberg (2004, p. 8) “a Sociologia Econômica pode ser definida de modo conciso como a aplicação de ideias, conceitos e métodos sociológicos aos fenômenos econômicos – mercados, empresas, lojas, sindicatos, e assim por diante”. O interesse em analisar como as relações de mercado são construídas socialmente e em entender a origem de fenômenos econômicos constitui a principal linha de atuação desse campo, por meio de uma abordagem histórica, cultural e social.

 

A Sociologia Econômica desenvolve-se, segundo Steiner (2006), em três dimensões que estão interligadas: a primeira é a construção social das relações econômicas – frente ao esvaziamento dos conteúdos sociais nas relações mercantis através da abordagem da Economia ortodoxa, em seguida a dimensão analítica/crítica da teoria econômica que caracteriza uma explicação sociológica para as variáveis mercantis, e a terceira, a dimensão cultural e cognitiva – busca mostrar como os conhecimentos no campo econômico são estruturados e se opõem, dando a dimensão do funcionamento desse campo a partir das informações retidas pelos agentes.

 

Essa corrente “desconfia das virtudes do paradigma da racionalidade” (MARQUES, 2003, p. 4) e propõe um ator social cuja capacidade estratégica é limitada, não podendo, dessa maneira, direcionar suas ações em todos os momentos para a maximização de seus ganhos. Segundo Bourdieu em Le champ économique(1997), os agentes não podem ser considerados como universais, pois suas propriedades resultam de seu posicionamento e deslocamento no espaço social, e, por conseguinte, de uma história individual e coletiva. Assim, conclui-se que o comportamento dos agentes segue mais a ideia que possuem do “jogo” – que se adquire ao longo do seu “itinerário social” – do que suas estratégias e cálculos precisos (GARCIA-PARPET, 2006, p. 347).

 

Divide-se de forma mais ampla em duas tradições: norte-americana e francesa. A primeira tem como foco predominante o enraizamento, as redes e a construção social da Economia por meio da teoria das redes, da teoria das organizações e da Sociologia Cultural (SWEDBERG, 2004). A tradição francesa, como apontado por Swedberg (1991), é representada por Émile Durkheim, Marcel Mauss, François Simiand ou Maurice Halbwachs, e posteriormente Bourdieu. Seus estudos desejam ir além da teoria econômica, dando ênfase principalmente ao papel das instituições econômicas, à dimensão cultural e simbólica dos fenômenos econômicos, acreditando que a Sociologia Econômica deve apoiar-se no método comparativo e histórico, em contraponto às premissas irrealistas da teoria econômica (RAUD, 2007).

 

No Brasil, o desenvolvimento da Sociologia Econômica tem levantado questões interessantes para o debate sobre a realidade encontrada no país, que interligam questões que envolvem tanto o empresariado quanto as ligações entre Economia e Política, as relações de poder e outros temas relacionados à organização da vida econômica (RAUD, 2009). Atualmente o Blog de Sociologia Econômica no Brasil (http://sociologiaeconomicanobrasil.wordpress.com/) visa unificar os grupos que se dedicam a essa abordagem no país e no mundo.

 

 

* Karina Gomes de Assis é cientista social e mestre em Engenharia de Produção. Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Sociologia Econômica e das Finanças. Professora substituta do Departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos.

Adaptado do texto “Dinheiro Vivo”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 44